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Sem rótulos e direções

Em novo álbum, Arnaldo Antunes reflete sobre o papel do disco na vida do artista

texto Itamar Dantas

A ideia do shuffle (ordem aleatória de audição de músicas) é o norte do novo trabalho de Arnaldo Antunes. Foto: divulgação

Ainda em meio à turnê de seu Acústico MTV  (2012), Arnaldo Antunes lança Disco, álbum de inéditas que sucede Iê Iê Iê, de 2009. Com o nome, Arnaldo já caracteriza e contesta o formato do novo trabalho: “Chamei Disco  justamente um álbum em que eu jogava as músicas avulsas, na internet”, diz. “Muito Muito Pouco” veio à tona no dia 3 de junho, acompanhada de outras três músicas que foram lançadas nos meses seguintes: “Dizem/Quem me Dera”, “Ela É Tarja Preta” e “Vá Trabalhar”, respectivamente.

Em um momento em que muitos músicos discutem o papel do álbum na vida do artista, Arnaldo o defende, mas sem a necessidade de um fio condutor. “[O disco] acaba representando uma fase do artista, mas os artistas têm essa propriedade de trabalhar o disco de outras formas. Disco  lembra quando a pessoa põe as músicas no shuffle; acho isso muito interessante. Agora, o conceito do disco passa por uma série de coisas, umas músicas que falam de uma realidade de forma mais crítica e outras mais líricas.”

Arnaldo entrou para o estúdio em abril de 2013 e foi convidando amigos, até maio, para dar vida às suas ideias. O resultado é um disco heterogêneo, não somente nas letras, mas também nos arranjos e nas participações. Presentes nos últimos álbuns do cantor, Marcelo Jeneci, Curumin e Edgard Scandurra aparecem em meio a outros músicos, como os cantores Céu e Felipe Cordeiro, e medalhões, como o soulman Hyldon. “Independentemente de geração, a música brasileira é um território propício para esses encontros. O que fala mais alto é a afinidade, é a admiração de um em relação ao trabalho do outro. Claro que acabo trabalhando com muita gente mais nova também por querer saber quais são seus interesses, procuro aprender com eles”, afirma o ex-titã.

Os temas das canções são tão variados quanto a estética do álbum. Arnaldo queria transmitir uma atmosfera de desligamento ao ouvinte, a ponto de deixá-lo confuso se está ouvindo o mesmo Disco. Do soul de “Trato” ao tecnobrega paraense de “Ela É Tarja Preta”. “Cada música tem um foco, tem certa contundência. ‘Vá Trabalhar’ fala de certa supervalorização do trabalho, de você deixar de viver por causa dessa busca por dinheiro. Já em ‘Muito Muito Pouco’ busco demonstrar essa disparidade entre escassez e excesso. Já ‘Morro, Amor’ é mais lírica. São canções muito diferentes, acabam criando uma atitude diante da realidade externa.”

O trabalho ganha as ruas em um ano em que Arnaldo Antunes não pretendia lançar álbum. O compositor se preparava para Bipolar, em 2014. Mas, como afirmou, uma onda de inspiração o acometeu durante as férias do início do ano. Aí juntou as músicas novas e resolveu lançar Disco, que pode ser ouvido na íntegra no canal do SoundCloud do compositor.

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