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Sem concessão

Pequenas casas de shows debatem seu papel cultural em São Paulo

texto Itamar Dantas

Da esq. para a dir.: Benjamim Taubkin, Rubens Amatto, Rodrigo Luz, Amadeu Zoe, Maximo Levy e Don Salvatore, na Casa do Núcleo. Foto: Itamar Dantas

Em comemoração dos dois anos de atividades da Casa do Núcleo, idealizada pelo músico e produtor Benjamim Taubkin, foi realizado um debate no último dia 27 de março com os  empresários de quatro pequenas casas de show de São Paulo: Casa de Francisca, Serralheria, Jazz nos Fundos e a própria Casa do Núcleo.

Como representantes de cada uma delas estavam presentes Benjamim Taubkin (Casa do Núcleo), Rubens Amatto e Rodrigo Luz (Casa de Francisca), Amadeu Zoe e Don Salvatore (Serralheria) e Maximo Levy (Jazz nos Fundos). No debate, os empresários falaram sobre curadoria artística, dificuldades e vantagens de ter uma pequena instituição, incentivos do governo e outros assuntos que envolvem o universo de um pequeno estabelecimento artístico e comercial.

Curadoria artística e identidade

Uma das primeiras questões levantadas diz respeito à curadoria dos artistas que se apresentam nas casas e a criação de uma identidade do espaço. Nesse aspecto, o papel subjetivo para a escolha dos artistas foi praticamente unânime. “Fazemos algo em que acreditamos e que dá tesão sair de casa para ver”, diz Rodrigo Luz, da Casa de Francisca.

Amadeu Zoe, do Espaço Serralheria, destacou a vontade dos sócios, ao abrir o espaço, de apresentar ao público uma música que está fora do circuito comercial. “Nós abrimos a Serralheria com o desejo de mostrar artistas que ainda não têm visibilidade grande, que estão trabalhando no cenário independente. Estamos vivendo um momento histórico propício para isso. A era das grandes gravadoras, dessa produção mais centralizada, com poucos difusores de informação, está em crise. Então, da perspectiva de quem está abrindo um espaço para fomentar a produção cultural também há uma necessidade de olhar para o cenário e dar vazão a isso – o que exige um trabalho de curadoria mais aprofundado.”

A Jazz nos Fundos é uma das que escolheram trabalhar unicamente com a música instrumental. Maximo falou de suas preferências pessoais para a escolha do estilo. “Sempre gostei de jazz, é uma paixão. [...] Quando começou, eu só sabia que ia ser música instrumental. A música instrumental no Brasil está capenga. Os músicos de fora do país vêm aqui para apreciar a música brasileira. E aqui não se aprecia tanto quanto se aprecia lá fora. A gente levantou a bandeira da música instrumental porque acredita nela, porque gosta dela e porque é um filão”, defendeu Maximo.

Segundo Benjamim Taubkin, uma das vantagens de ter um espaço pequeno em uma metrópole como São Paulo é o fato de enchê-la com poucas pessoas. “Com 50, 60 pessoas se tem o espaço cheio. Numa cidade com 12 milhões de habitantes, você provavelmente vai achar 50 malucos que gostam de gaita escocesa solo com liquidificador. Então a proposta é um pouco esta: não abrir mão daquilo que se quer programar”, defendeu o músico.

Orgulho de ser pequenos

“Temos orgulho de ser a menor casa de shows de São Paulo”, garantiu Rubens Amatto, da Casa de Francisca, que tem o espaço lotado com 44 pessoas. Os empresários comentaram vantagens e desvantagens de ter um micronegócio voltado à cultura. Maximo, da Jazz nos Fundos, destacou a necessidade de trabalhar muito para alcançar bons resultados com o estabelecimento. “Acaba com qualquer relacionamento”, desabafou o empresário. “Você trabalha muito durante a semana e no fim de semana tem de resolver o problema da geladeira, que não está funcionando.”

A Casa do Núcleo, por exemplo, já é um lugar que anseia por se tornar referência como um centro cultural, com atividades amplas: shows na sede, produção de discos, realização de oficinas e consulta do acervo de Benjamim Taubkin, mas sem a ambição de se tornar um espaço maior. “Queremos ser um pequeno centro cultural. Por isso, temos oficinas, o acervo; queremos ser uma semente e temos o desejo de que, em certo momento, essa semente exploda. É o desejo de que em um pequeno lugar possam acontecer coisas, sair coisas”, revelou Taubkin.

Financiamento público

Quando o assunto se voltou ao financiamento público para atividades culturais, o debate esquentou. Benjamim Taubkin tem uma conhecida posição de não utilizar nenhuma ajuda do governo para a realização de seus projetos. “O que aconteceu é que as pessoas foram ficando reféns de patrocínios e editais. A pessoa aprende a tocar um instrumento, ensaia, consegue um edital e aí grava um disco. Acho que tem uma perversidade nisso”, disse ele.

Em meio a opiniões divergentes em relação ao assunto, Don Salvatore defendeu que não é necessário ter incentivos do governo para dar continuidade aos seus trabalhos, mas é necessário maior esclarecimento do poder público sobre os deveres e direitos dos estabelecimentos. “Quando você monta um negócio, não se espera do Estado nenhum tipo de apoio. O que se espera é que haja transparência das leis. Ou seja, você vai abrir uma casa, qual é a jurisdição dela? Quais são os fiscais que vão bater nela?”

Já Maximo trouxe à questão a falta de qualificação profissional para os funcionários do estabelecimento. “Capacitação seria bom! A dificuldade é encontrar pessoas que tenham uma preparação para esse tipo de trabalho. O mercado de serviços está carente desses profissionais”, disse. Rubens Amatto argumentou sobre a necessidade de maior controle sobre o que é feito com o dinheiro público e criticou o uso das ferramentas públicas para a promoção das marcas patrocinadoras, que ganham com a isenção fiscal. “A gente não tem nenhum tipo de preconceito com a utilização do recurso público, desde que seja utilizado de forma coerente com o seu fim. O patrocínio só sai geralmente com recurso público. Só que quando o recurso vem de patrocínio o que interessa é como a marca vai se promover, e não o que vai ser promovido com aquele dinheiro.”

O cenário de pequenas casas

Com estabelecimentos surgindo a todo momento em São Paulo, não poderia deixar de ser falado da criação de uma cena de pequenas casas de shows na cidade. Entre os presentes na plateia estavam representantes da Mundo Pensante, da Casa do Mancha, do B_arco, do Puxadinho da Praça e do Instituto Volusiano.

Exemplo do fortalecimento de um cenário musical criado pelas pequenas casas foi o evento promovido pela Casa de Francisca, que reuniu cerca de 90 artistas para uma apresentação no Teatro Oficina. Em sua segunda edição, o festival El Gran Conserto reuniu nomes de peso da música paulistana como o sambista Paulo Vanzolini, a Banda Isca de Polícia, Mauricio Pereira, Zé Miguel Wisnik e Zé Celso Martinez.

“Se a gente tiver a competência de manter o que faz, uma cena de casas pequenas será criada. E isso é uma coisa interessante, porque a gente não compete, fortalece esse cenário. Temos de ter esse desejo de existir fortalecido”, finaliza Taubkin.

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