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Seguindo os passos de Mangoré

Com show e disco, Berta Rojas e Paquito D'Rivera homenageiam Agustín Barrios

texto Itamar Dantas    |   fotos Jorge Rosenberg

Recital de Paquito d’Rivera (esq.) e Berta Rojas no Auditório Ibirapuera (SP). Foto: Jorge Rosenberg

O violonista paraguaio Agustín Barrios (1885-1944) é um dos principais representantes do violão erudito das Américas. Suas composições já tiveram reconhecimento de importantes nomes da música: o violonista inglês John Williams gravou em 1977 um disco em homenagem à sua obra (Barrios, CBS), ampliando sua visibilidade internacional.

Agora é a vez da também paraguaia Berta Rojas se propor um desafio: reconstruir as viagens de Barrios pelas Américas. O compositor percorreu 20 países para divulgar sua obra. A turnê de Rojas, intitulada Tras las Huellas de Mangoré (Seguindo os Passos de Mangoré) repete aquelas pegadas. Mas Rojas não está sozinha: convidou o saxofonista e clarinetista cubano Paquito D’Rivera, que prontamente topou a empreitada.

Agustín nasceu em 5 de maio de 1885 na cidade de San Juan Bautista, na província de Misiones. Ainda jovem, se interessou pelo violão e estudou música na cidade de Assunção, capital do país, onde desenvolveu especial interesse pela música folclórica e erudita. Durante suas incursões pelas Américas, Barrios criou um alter ego, o personagem Nitzuga Mangoré, e se vestia como um índio guarani para se apresentar – o que era muito contestado pelos conservadores de seu tempo. Em meio a suas viagens, Barrios passou três anos no Brasil, onde conheceu sua esposa, Gloria Seban, com quem passaria o resto de seus dias. O violonista faleceu em 1944 em El Salvador; último destino também da turnê que busca reconstruir seus passos.

Em 2012, a dupla formada por Rojas e Rivera lançou o álbum Dia y Medio, em que estão as principais músicas do repertório preparado para a turnê. O álbum foi indicado ao Grammy de melhor disco instrumental do ano e recebeu excelentes críticas pelo mundo afora. No dia 30 de setembro, a dupla esteve no Auditório Ibirapuera (SP) para interpretar clássicos da obra de Mangoré, como “La Catedral”, “Las Abejas” e “Choro da Saudade”. Além disso, apresentaram obras de outros compositores paraguaios, como “Recuerdos de Ypacaraí” (gravada por diversos intérpretes brasileiros, como Caetano Veloso e o Trio Irakitan) e “Galopera” (interpretada pelos sertanejos Donizete e Chitãozinho & Xororó).

Em entrevista ao Álbum, Berta Rojas e Paquito D’Rivera comentam a turnê e a importância de Agustín Barrios.

ÁLBUM – Como começou este trabalho em torno de Agustín Barrios?
Paquito D’Rivera – É culpa dela… (Risos)
Berta Rojas – É um projeto que busca percorrer os passos de Agustín Barrios pela América. Ele viajou por 20 países da América Latina. E o Brasil foi um lugar muito importante nessa trajetória. Ele viveu por 3 anos aqui, de 1929 a 1931. Inclusive, sua esposa era brasileira, Gloria Seban. Conheceram-se em Pelotas (RS) durante um Carnaval. E ela foi sua companheira por toda a vida, participou de muitas de suas viagens. Já passamos por 11 países e ainda iremos para mais nove. O último vai ser El Salvador, onde Agustín Barrios morreu. Tenho a expectativa de que o maestro Paquito D’Rivera nos acompanhe, porque sua presença expande o alcance da música de Agustín Barrios a outros públicos. Estamos muito agradecidos a ele por ter se engajado nesse projeto.

Paquito D’Rivera, como se deu o seu contato com a música de Agustín Barrios e como está sendo fazer esse trabalho?
Rivera – Sempre fui apaixonado pelo violão clássico. Sempre gostei muito do repertório de Villa-Lobos para violão, Leo Brouwer, Tárrega. E, entre eles, um dos compositores mais importantes é Barrios. Venho escutando outros violonistas tocarem sua música, mas Berta Rojas, por também ser paraguaia e ter esse contato com a música de Barrios desde cedo, é a mais importante intérprete desse repertório na atualidade. Eu já havia trabalhado muito com a música de Antonio Lauro e um pouco com a obra de Villa-Lobos e de outros guitarristas clássicos também. Mas com a de Mangoré, apesar de admirar muito a sua obra, eu ainda não havia tido oportunidade de trabalhar. Fiquei muito feliz quando Berta me convidou para esse projeto.

As partituras de Agustín Barrios são para violão. Como foi o processo de arranjo para incluir o sopro?
Rivera – Basicamente foram convidados dois violonistas e arranjadores, o paraguaio Maurício Cardozo Ocampo e Edín Solez, da Costa Rica. Eles fizeram as adaptações da obra de Barrios e de outros compositores também paraguaios.

Como foi o processo de gravação do disco Dia y Medio e a escolha do repertório?
Rojas – Nós escolhemos algumas das obras mais significativas de Agustín Barrios e também as de outros compositores paraguaios. Para nós, também era importante colocar no repertório algumas músicas do Paraguai que não são tão conhecidas e que merecem alcançar um público maior, como “Recuerdos de Ypacaraí” e “Galopera”, que foram hits no Brasil, por exemplo. O repertório começa em Barrios e se expande por outras músicas paraguaias.

Quais são os próximos passos de vocês depois desse projeto?
Rojas – Até setembro do ano que vem estaremos viajando com essa turnê. Então, até lá me dedicarei a Paquito e a Barrios.

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