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Retalhos de Kastrup

Guilherme Kastrup estreia em disco solo, Kastrupismo, com colagens e ampla participação de amigos

texto Itamar Dantas

Guilherme Kastrup (esq.) e a capa de seu primeiro álbum, Kastrupismo. Fotos: Gal Oppido; na capa, Kastrup em autorretrato

A beleza de uma colcha de retalhos está no esmero da costura, na escolha das partes, na nova obra construída a partir de pedaços antes desconexos. É mais ou menos assim que Guilherme Kastrup construiu o seu disco de estreia, Kastrupismo, em que se deixa transparecer entre suas referências, seus amigos e sua musicalidade.

Tudo começou como uma brincadeira. Guilherme Kastrup comprou o seu primeiro programa de edição de áudio e começou a se divertir. Eram meados de 2000. O músico pegou suas gravações e as explorou de outras formas, cortando, colando e reconfigurando-as. À época, trabalhava em álbuns dos parceiros Chico César e Arnaldo Antunes. Seus tambores ressoam nos discos Mama Mundi (2000) e Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2002), de Chico. Com Arnaldo, participou ativamente da criação do CD O Corpo, trilha sonora do espetáculo de dança homônimo do Grupo Corpo, de Minas Gerais. “O disco O Corpo, com o Arnaldo Antunes, foi o primeiro em que eu senti ‘ter uma coisa autoral minha’. Foi uma felicidade perceber. E isso me estimulou a desenvolver esse meu lado”, confessa Kastrup.

Agora ele lança seu primeiro trabalho solo. Como músico, já participou de 117 álbuns; como produtor, de 17. Entre as produções, o mais recente é o de Cacá Machado, Eslavosamba (2013); Marcia Castro e seu De Pés no Chão (2012); e o Disco do Ano (2012), de seu também parceiro Zeca Baleiro.

Kastrupismo começou a ganhar contornos há mais ou menos quatro anos, quando percebeu que suas “pirações” sonoras tomavam aspectos interessantes. Aos muitos amigos que visitavam seu estúdio Kastrup mostrava alguma música e os deixava livres para intervir. Assim, o disco conta com a participação de inúmeros parceiros de estrada: Benjamim Taubkin, Chico Correa, DJ Tudo, Edgard Scandurra, Gero Camilo, Gustavo Ruiz, Kiko Dinucci, Lu Lopes, Marcia Castro, Marcio Arantes, Paulo Tatit, Pedro Poli, Ricardo Herz, Rubi, Sacha Amback, Simone Julian, Suzana Salles, Tata Fernandes, Thalma de Freitas Thiago França e Zé Pitoco.

Uma das primeiras composições registradas se deu em meio a uma brincadeira com o programa Ensaio, da TV Cultura, no qual Cartola canta e conta suas histórias ao produtor Fernando Faro. Um trecho da conversa foi sampleado pelo músico e se tornou o mote da canção “Tá Maluco, Rapaz?”. Cartola narra a história da venda de seu primeiro samba a Mário Reis. “Esse é um trecho muito curioso da entrevista. O Cartola se surpreendendo porque o cara queria comprar o samba dele, e ele achando que podia ser preso por causa disso. A forma de ele falar é também muito musical”, relembra o músico que relaciona sua composição com a estética proposta por Luiz Tatit e seu Grupo Rumo, nos anos 1980, a do canto falado.

Já em “O Corpo” é a visão de Kastrup para a música composta com Arnaldo Antunes, agora um samba de roda cantado pelo próprio e ornada com as vozes de Marcia Castro e Thalma de Freitas. O álbum ainda tem intervenções de Benjamim Taubkin ao piano, que improvisou com base na audição do disco e de propostas sonoras do músico a partir de seu MPC [Music Production Center, um equipamento que oferece ao profissional a possibilidade de tocar em pads a partir de samples gravados]. As improvisações de Taubkin permeiam todo o disco, com vinhetas entre uma música e outra. “É um disco para ser ouvido inteiro, do início ao fim”, garante Kastrup.

Para a criação visual do álbum, a trilha foi outra, mais espinhosa. Kastrup começou a esboçar formatos e os resultados não lhe transmitiam o conceito do disco. “Foi em meio a esse processo que comecei a dar importância a essa coisa da identidade visual. Antes eu achava que isso era apenas um detalhe.” Kastrup foi ao estúdio do artista plástico e baterista Gal Oppido (ex-Grupo Rumo) e, ao receber um livro de presente, teve sua caricatura desenhada para uma dedicatória. “Eu falei: esse cara sou eu. Deixei de lado tudo que tinha sido feito de arte gráfica até então e comecei a trabalhar com esse desenho”, relata. O músico imprimiu a caricatura em uma transparência e saiu para a rua, fazendo autorretratos com a imagem em frente ao seu rosto. “Essa foi uma das primeiras fotos, feita com iPhone. Ela acabou virando essa coisa de sobre-exposição analógica e tem a coisa da transparência e das camadas, que eu queria passar na arte gráfica”, finaliza.

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