//seções//notas

Reedição de livro reúne críticas de Lúcio Rangel

Sambistas e Chorões traz textos do crítico de música brasileira que ajudou a colocar no mapa nomes hoje reverenciados da música popular

texto Itamar Dantas

João da Bahiana, Pixinguinha e Angela Maria em fotos de divulgação do LP A Velha Guarda, 1955. Foto: Acervo Pixinguinha/IMS

Em homenagem ao centenário do nascimento do crítico musical Lúcio Rangel (1914-1979), o Instituto Moreira Salles promove o relançamento de sua obra fundamental: o livro Sambistas e Chorões, lançado em 1962 e há décadas esgotado e sem reedições.

O livro apresenta um recorte de publicações do crítico, responsável por defender a música brasileira de raiz em tempos em que os meios de comunicação de massa, como os rádios e as TVs, enveredavam por outros ritmos como o bolero e músicas que atendessem aos espetáculos de rádio para auditórios. “Eram tempos musicalmente complicados. As gravadoras lançavam e as rádios tocavam os sucessos do momento: boleros, sambas-canções abolerados, baiões estilizados, versões e músicas para atender à febril batalha dos auditórios, onde os fã-clubes de Marlene e Emilinha se enfrentavam. Havia alguns oásis, como a boa música americana de algumas rádios e os poucos programas de jazz de outras. A música tradicional brasileira era empurrada para programas de madrugada rotulados de ‘hora da saudade’. E a televisão, mais preocupada com a imagem do que com o som, fechava as portas aos artistas de cabelos grisalhos e rugas no rosto”, defende o jornalista João Máximo no texto de apresentação da obra.

O crítico era considerado severo. Nos textos reunidos em Sambistas e Chorões, por exemplo, o jornalista que apresentou Tom Jobim a Vinicius de Moraes defende que o primeiro deveria se voltar para a música de câmara: “Vinicius é poeta realizado, e Jobim, a nosso ver, caminha para a música de câmara ou sinfônica. Falta aos dois o cunho legitimamente popular”, defende Rangel. Sobre Pixinguinha, grande ídolo de Rangel, o crítico dispara sobre sua importância na música popular: “Em todas as manifestações de sua arte, Pixinguinha revela-se admirável, o que nos leva a afirmar, com toda a serenidade, estarmos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas, mesmo considerando a grandeza de um Ernesto Nazareth, de um Sinhô ou de um Noel Rosa”.

Entre os textos reunidos no livro, há defesas à literatura de cordel e também aos chamados tempos heroicos, em que Rangel destaca músicos atuantes nas primeiras décadas da indústria do disco na música popular brasileira, como Donga e o primeiro samba gravado (“Pelo Telefone”, de 1917): “O sucesso é enorme, o telefone e o samba são duas autênticas novidades. O Baiano, que gravou a música, ganha um dinheirão, talvez uns dez ou 15 mil-réis, e o disco Odeon 121322, já com selo vermelho, é ouvido pelo Brasil inteiro”. Noel Rosa, Luperce Miranda, Inezita Barroso, Vadico, Lina Pesce, Alberto Ribeiro e Mário Reis são outras figuras que merecem destaque nas críticas de Rangel. O sambista Ismael Silva ganha o adjetivo “Grande Ismael Silva” graças à qualidade de suas composições.

Para Paulo Roberto Pires, um dos organizadores da nova edição, a obra de Rangel revela, sim, um crítico severo, mas defensor assíduo da obra dos músicos a quem estimava: “O Lúcio Rangel tinha uma marca, defendia a música como expressão popular, chamava a atenção para coisas pouco ouvidas ou abordadas. Trazer ele de volta é trazer de volta toda a origem, a importância do cordel, dos tempos de heróis, os caras que estavam gravando os primeiros discos. Ele foi um dos que insistiam muito no tamanho do Pixinguinha como músico, tem um capítulo sobre o Mário de Andrade e a amizade dos dois. Ele destacava a Inezita Barroso, pontuava a importância da música rural. É um mapeamento de um cara que vivia isso, que pesquisava e defendia a música popular”, garante Pires.

O livro ainda conta com a Discoteca Básica, com recomendações em verbetes de 27 autores da música brasileira e mais 37 intérpretes essenciais para Lúcio Rangel, com outros destaques. Há também a inédita publicação em livro da Bibliografia da Música Popular Brasileira, lançada parcialmente no Jornal do Brasil e editada em uma plaqueta da livraria São José em 1976.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. A história esquecida de José Prates

    O músico que divulgou a cultura brasileira em mais de 90 países

  2. “Éramos chamados de quadrados”

    Izaías do Bandolim fala do período em que o choro ficou esquecido em meio à invasão de ritmos estrangeiros

  3. Com os pés no samba – e na cabeça

    Para entender o gênero eternizado por Geraldo Filme e Batatinha

  4. Tesouro perdido

    Primeiro registro fonográfico de Cartola, a faixa “Quem Me Vê Sorrindo”, integra a coletânea Native Brazilian Music, nunca lançada no país

  5. A música da minha terra

    Um panorama histórico do samba: dos índios corumbás aos escravos baianos e fluminenses

  6. Samba de mesa posta

    Em São Paulo e no Rio de Janeiro, as histórias que unem cozinha e o ritmo musical de origem africana

  7. Ademilde Fonseca morre aos 91 anos

    Cantora era considerada a rainha do choro cantado

  8. “Quando morrer, daqui a cem anos, quero voltar músico!”

    Aos 91 anos, Zé Menezes relembra Garoto, Radamés e Os Velhinhos Transviados

  9. Caymmi nas ondas do rádio

    Livro baseado em memórias do compositor refaz o percurso da música nos anos 1930, 1940 e 1950

  10. “Ficar preso à história oficial é uma coisa perigosa”

    Livro de Amaral Júnior traz pesquisa inédita sobre a história do choro em São Paulo

    1. “Elvis tinha uma voz quadrada. Mas tinha ritmo”

      Cauby Peixoto revê sua carreira, suas influências e alguns de seus sucessos

    2. Zé Menezes: “Tocador de violão não tinha valor nenhum”

      Músico cearense relembra a Rádio Nacional, as orquestras e Garoto

      1. Roberto Corrêa: “Cornélio Pires foi o primeiro a gravar música independente”

        Físico de formação e violeiro por opção conta histórias de seus discos e da música caipira

      2. Bocato: “Tenho um jeito meio esquisito de tocar!”

        Trombonista relembra o início da carreira, quando tocou com Elis Regina e Arrigo Barnabé, e comenta o álbum Hidrogênio

      3. A música e o batuque de José Prates

        Playlist reúne músicas do pioneiro da divulgação da cultura afrobrasileira. Inclui Inezita Barroso

      4. 100 anos de amores e desilusões

        Playlist homenageia Lupicínio Rodrigues em seu centenário de nascimento