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“Quem quer ser roadie aí?”

A história de vida do ex-estoquista de farmácia que virou técnico de palco de Naná Vasconcelos e cantor

texto Itamar Dantas

Netão se apresenta atualmente ao lado de DJ Tudo, encabeçado pelo músico Alfredobello. Foto: divulgação

Graciliano Neto é o Netão, como é conhecido no meio musical paulistano. Roadie com dez anos de estrada, hoje é requisitado por inúmeros músicos para organizar as demandas de palco e deixar tudo pronto para a hora do espetáculo. Trabalha com Anelis Assumpção, a dupla Palavra Cantada e as bandas Isca de Polícia e Ponto BR. Com sua carreira consolidada como roadie, agora Netão mostra sua veia artística e se apresenta cantando ao lado do amigo Alfredobello, também conhecido como DJ Tudo. E ainda dá canja em shows de amigos, como o da cantora Ceumar em sua apresentação mais recente no Auditório Ibirapuera, no dia 7 de março.

A carreira de roadie veio de uma situação inusitada. Netão trabalhava como auxiliar de limpeza em uma farmácia, localizada nos arredores da Avenida Paulista. Depois do trabalho, frequentava os centros culturais da região, como o Itaú Cultural e o Sesc. Em 2002, depois de promovido a estoquista, brigou com o dono da farmácia onde trabalhava e não voltou mais. “Eu guardava as coisas numa sala. Saí na sexta e quando voltei no domingo estava tudo derrubado. Eu tinha organizado direitinho. O chefe me chamou pra conversar e mandou uma palavra que me ofendeu muito; foi um divisor de águas na minha situação lá. Ele falou: ‘Você não pode ser vagabundo. Você é um menino bom, não pode ser desse jeito, vagabundo. E falou várias vezes a palavra vagabundo”, conta Neto.

Com essa, pediu as contas e se mandou. A família ficou preocupada. Neto ficou preocupado, pois não sabia o que faria sem seu emprego. Natural de Diadema, ele já havia perdido o irmão (assasinado em 1999 por envolvimento com o crack). A família tinha o coração apertado com a possibilidade de outro filho seguir o mesmo caminho. Uma semana depois de deixar o trabalho, assistiu no Itaú Cultural ao show da banda DonaZica, que reuniu Iara Rennó, Andreia Dias, Anelis Assumpção, Gustavo Souza, Alfredobello e  Gustavo Ruiz. Inquieto com o desemprego, pediu ao amigo e à namorada que não o acompanhassem; queria refletir.

A primeira chance

Durante a apresentação, uma situação mexeu com ele. Anelis estava com dificuldade em colocar o suporte do djembê e Iara Rennó se dirigiu ao público: “Quem quer ser roadie aí?”. Com várias mulheres bonitas no palco, vários se candidataram. “Eu vi que não tinha ninguém mesmo. E comecei a pensar muito forte nisso. Fiquei esperando depois do show ali no ponto de táxi do lado de fora. E eles iam passando, carregando as coisas pra lá e pra cá. O Gustavo Souza passou e chamou o Maurício Badé pra tomar uma cerveja, mas ele não foi. Na hora que ele falou esse negócio da breja, pensei: ‘Vou atrás’ ”.

Foi até o bar, mas ficou com vergonha de se aproximar. Quase desistiu por várias vezes. Ia até a esquina e voltava; entrou no bar e comprou um sorvete. E nada. Até que acenou para o cara do dreadlock, Alfredobello, que o chamou para conversar. Netão: “Olha, não é tietagem, não. É que eu vi o show de vocês e as meninas falaram que não tem roadie”. “Pessoal, esse cara aqui quer ser nosso roadie!”, anunciou Alfredobello. ”Sabe afinar violão? Sabe montar bateria?”, relembra Netão.

>> LEIA “O CAVALEIRO COM ARMADURA E SEM CORPO”

Trocaram telefones. Era quarta-feira, 27 de novembro de 2002. No domingo, Alfredobello liga para Netão: “Vamos fazer um ensaio amanhã, quer ajudar a gente?”. Netão topou. Sem grana, quem garantiu a passagem foi a namorada. Marcado para às 11h da manhã, Netão chegou às 8h, viu onde era o lugar e ficou esperando. Acompanhou o ensaio e sem saber nada de montagem ajudou os músicos a carregar os instrumentos. Dali, foram para outra apresentação no Sesc Pompeia.

Neto foi se entrosando. Começou a trabalhar no estúdio na casa de Alfredobello, onde conheceu mais músicos e foi sendo chamado para shows de outras bandas. Depois de um ano, aprendeu o que podia e começou a vida profissional, ganhando pouco, mas topando qualquer parada. “Eu tinha vergonha de ficar na balada depois que acabavam os shows. Então saía, ficava no ponto de ônibus, sentado, esperando, até a hora do ônibus voltar a circular. Teve uma época em que eu levava um cobertorzinho e encostava ali pelo ponto mesmo”, relembra.

Com Naná pelo Mundo

Em 2004, a grande oportunidade. Foi convidado para trabalhar em um show tributo a Itamar Assumpção, morto havia um ano. Entre os convidados, a Banda Isca de Polícia e Naná Vasconcelos. Netão aceitou o convite.

Foi quando o baixista, compositor e produtor Paulo Lepetit lhe disse: “Netão, parece que o Naná gostou de você. Devem te chamar para trabalhar”. Em seguida, a produtora o convidou para fazer um show em Taubaté. Netão foi. Dali, começou a fazer outros com o percussionista pelo interior de São Paulo. Em um deles, de Naná com o violonista basco Pablo Arrieta, Netão conquistou a sua confiança de vez. Com um violão sem captador, o som estava baixo, ninguém ouvia nada. Arrieta ficava cada vez mais nervoso e o produtor aos gritos: “Senta o dedo nessa merda!”. Netão se aproximou e conversou com o violonista: “Pablo, sabe o que está acontecendo? Você está se movimentando muito, foge do microfone. Fica um pouco mais parado, tenta focar no microfone”.

Naná via tudo do camarim e gostou da atitude de Neto. E, então, outro convite: “Depois da passagem de som, o Naná me chamou no camarim e perguntou: ‘Você quer viajar o mundo comigo?’ ”. O ex-estoquista de farmácia não pensou duas vezes. Viajou para a Espanha, Itália, Turquia, Polônia, Uruguai, Argentina e outros países. Trabalhou com o músico pernambucano entre 2004 e 2009 e ficou conhecido como o “filho do Naná”.

Do backstage aos palcos

Alfredobello é o DJ Tudo. Tem dois discos de carreira e um DVD (Nos Quintais do Mundo Melhor, gravado no Auditório Ibirapuera em 2011). Sua música transita entre o afrobeat, o rap, o samba e os ritmos nordestinos. E foi ele novamente o responsável pela virada na vida de Netão, que, quando moleque, participava de grupos de teatro, compunha, tocava violão e cantava. Por meio do projeto DJ Tudo e a Gente de Todo Lugar, Netão passou do lado de trás dos holofotes para a linha de frente. E ao lado do amigo, o agora cantor Graciliano Neto – que ainda se divide com o trabalho de roadie –, se prepara para uma turnê pela Europa no meio do ano.

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