//seções//notas

Quase ricos e xaropes

A estética minimalista d'Os Mulheres Negras

texto Itamar Dantas

Mauricio Pereira e André Abujamra reviveram o repertório dos dois álbuns de Os Mulheres Negras. Foto: Itamar Dantas

As luzes desenhando as iniciais “MN” ao fundo do palco anunciavam a “terceira menor big band do mundo” no Auditório Ibirapuera, em 25 de agosto de 2013. Os Mulheres Negras – duo formado pelos músicos André Abujamra e Mauricio Pereira – trouxeram ao público canções de seus dois álbuns lançados no final da década de 1980 depois da exibição do documentário que conta a história da dupla, Música Serve pra Isso, dirigido por Bel Bechara e Sandro Serpa.

Os músicos ainda não estão ricos nem xaropes, como previam na música “Xarope, a Levada”, de seu disco de estreia, Música e Ciência (1988), mas continuam irônicos e engraçados, mantendo a marca registrada que sempre caracterizou seus shows. “Vocês acabaram de assistir a esse belo documentário, que conta um pouco de nossa trajetória gloriosa”, debochou Pereira durante o show. No palco, a dupla mescla apresentação musical e esquetes clownescas. Entre as referências para a criação artística estão Beatles e Rolling Stones, mas também figuras do cinema como o Gordo e o Magro, Buster Keaton e Abbott and Costello.

Abujamra e Pereira se conheceram em 1984 e formaram a banda no ano seguinte. Foram descobertos pelo produtor musical Pena Schmidt, que os levou para gravarem seu álbum de estreia pela gravadora WEA, em 1988. Em 1990, lançaram o segundo disco, Música Serve pra Isso (1990), último registro fonográfico da dupla, que se separou em 1991. “A gente terminou a banda porque o Mauricio queria ter um filho, eu queria ir para o Egito, queria montar o Karnak. Mas nós sempre mantivemos contato, participando do disco um do outro nesse período”, diz Abujamra.

Em 2001, o baterista e pesquisador Charles Gavin lançou os dois álbuns pela primeira vez em CD. Seguiram-se alguns shows de divulgação dos discos e, em 2010, a dupla retornou aos palcos de vez, para uma apresentação em Curitiba. Depois de tantos anos sem dividir o palco, a dupla se refere, com orgulho, à intimidade durante as apresentações. “A soma de nós dois é muito diferente. Nesta volta a gente tem sido agressivo esteticamente, de um jeito que a gente não é em nossos trabalhos solo. Parece que estar com aquela roupa, com o André no palco, me dá permissão de chutar o balde. Então, nesse sentido é mais iconoclasta, até fazendo os nossos próprios covers”, reflete o cantor e saxofonista Mauricio Pereira.

Independentes bem armados

Ao olhar para a trajetória da banda no passado, Pereira e Abujamra enumeram alguns aspectos que os diferenciavam no meio musical, mas sem empolgação: “Acho esse negócio de ficar se elogiando uma merda, mas não tinha nenhuma banda parecida com a gente, não”, garante o guitarrista e cantor Abujamra. Além de fazer um som diferente, a partir de guitarra, saxofone e sintetizadores eletrônicos, eles tinham a pegada cômica e criaram novos meios de se comunicar com os fãs. “Nós antecipamos muita coisa que as bandas fazem hoje em dia. Essa coisa da autoprodução, dentro e fora do palco, de ter iluminação, roteiro, de ter uma maneira certa de dar entrevista. A gente tinha 5 mil pessoas na nossa lista dos Correios e mandávamos uma newsletter. Nós éramos guerreiros bem armados para sobreviver no mundo do pop independente”, conta Pereira.

Musicalmente, a dupla volta também explorando novas possibilidades sonoras. Mauricio Pereira conta que o seu saxofone está mais pesado para dialogar melhor com a proposta da dupla. “Estou colocando o microfone dentro do sax, o que deixa o timbre mais agressivo, e estou indo direto nas notas”, revela. Já Abujamra tem em mãos mais recursos tecnológicos, que dão mais possibilidades de interferência na música.

A volta do grupo se dá em meio a uma guinada de músicos paulistanos que bebem na vanguarda paulista dos anos 1980. Kiko Dinucci é citado por Pereira como um exemplo da nova geração que tem características parecidas com o som dos Mulheres. “Se você pensar, é a coisa de não fazer a canção linear, né? Parte A, B e C e refrão. Eu vejo nesta molecada que agora está com 30 e poucos anos o desejo de expandir a canção, quebrar formas, trazer novas sonoridades. Meter agressão nela. Os Mulheres é uma banda que sempre fez isso.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Muito mais que um palco

    Um Delírio de Porão traz imagens e textos com história do Teatro Lira Paulistana

  2. O Terno divulga clipe de “66”

    Músicos tocam embaixo d'água em vídeo dirigido por Marco Lafer e Gustavo Moraes; banda lança em junho seu 1º álbum

  3. “Deixamos a música nos levar”

    Composição coletiva marca quarto álbum da banda Cérebro Eletrônico

  4. Da tradição para outro lugar

    Em A Carne das Canções, Marcelo Pretto e Swami Jr. fogem ao convencional na relação entre cantor e instrumentista

  5. Documentário sobre Vanguarda Paulista é destaque no In-Edit

    Longa-metragem conta a história do local que nos anos 1980 deu espaço a nomes como Itamar Assumpção e Titãs

  6. Rua Teodoro Sampaio, 1091

    Dirigido por um de seus fundadores, Riba de Castro, documentário conta a história do teatro Lira Paulistana

  7. 30 anos em quatro letras: NáZé

    Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti lançam álbum que celebra parceria de três décadas

  8. “O Itamar abriu meu horizonte!”

    Jornalista de Hamburgo (ALE), Rainer Skibb mantém desde 1988 programa de rádio dedicado à música brasileira

  9. Thiago França e a malandragem paulistana

    Novo álbum do saxofonista homenageia conto de João Antônio: Malagueta Perus e Bacanaço

  10. De volta à manada

    Com o novo disco, Cambaco, Vicente Barreto encerra hiato de dez anos sem gravar, com novos parceiros

    1. Porcas Borboletas

      Banda universitária surgida em Uberlândia reverencia a música popular brasileira de laboratório, de Hermeto Pascoal a Caetano Veloso, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção

      1. Sons que fizeram o som de Os Mulheres Negras

        De la Soul, Tonico e Tinoco, Hermeto Pascoal e Paulo Moura estão na lista de Mauricio Pereira e André Abujamra

      2. O som que fez o som do Metá Metá

        Os músicos do Metá Metá - Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França - indicam, cada um, cinco músicas que lhes ensinaram liberdades novas

      3. Gero Camilo: “Aguardei a coragem para assumir meu lado musical”

        Ator fala de suas influências musicais, como a Tropicália e o Pessoal do Ceará, e apresenta seu CD Canções de Invento

      4. Bocato: “Tenho um jeito meio esquisito de tocar!”

        Trombonista relembra o início da carreira, quando tocou com Elis Regina e Arrigo Barnabé, e comenta o álbum Hidrogênio

      5. Luiz Tatit: “O rap lembra o Rumo em seu estágio mais cru!”

        Professor e compositor comenta a trajetória e as heranças do conjunto que dissecou o canto falado

      6. Primeiro semestre em 18 discos

        Seleção contempla Passo Torto, Edi Rock, Andreia Dias, Wilson das Neves, Guilherme Arantes e Antonio Adolfo

      7. Playlist apressada

        Uma seleção de músicas brasileiras de curta duração. Com Walter Franco, Grupo Rumo, Edith do Prato e Gonzaguinha

      8. Sambando no trem

        O trem é um dos protagonistas das músicas de Moreira da Silva, Chico Buarque, Kiko Dinucci e Joyce

      9. Sons que fizeram o som do Inocentes

        Clemente lista músicas fundamentais para se entender uma das bandas símbolo do punk brasileiro

      10. Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo

        Elza Soares apresenta o álbum A Mulher do Fim do Mundo no Auditório Ibirapuera