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Psicodelia à brasileira

Livro Lindo Sonho Delirante, do jornalista Bento Araújo, analisa 100 discos psicodélicos nacionais

texto Itamar Dantas

Capas de alguns dos discos resenhados pelo jornalista Bento Araújo no livro Lindo Sonho Delirante. Imagem: divulgação

O jornalista Bento Araújo lança seu primeiro livro, Lindo Sonho Delirante: 100 discos psicodélicos do Brasil. Na obra, o autor analisa e contextualiza dentro da perspectiva da psicodelia 100 discos e compactos lançados entre os anos de 1968 e 1975 no Brasil. Em sua seleção, Bento Araújo começa pelo tropicalistas com o disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968) e segue até o álbum Paêbirú, álbum icônico e raro de 1975 lançado pelos músicos Lula Côrtes e Zé Ramalho.

Em 2016, Bento criou um projeto de crowdfunding para arrecadar dinheiro para o seu primeiro livro. Mantendo a independência do trabalho com seu zine, o jornalista fez um projeto com meta de R$ 45.000 e nos primeiros 10 dias já bateu a meta estabelecida. Ao final do periodo de campanha, alcançou R$ 84.261, que viabilizaram o seu livro.

“Eu selecionei discos indo do pop nacional, desde essa galera da tropicália: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, até outros nomes que à essa época eram veteranos, como Marcos Valle, Luiz Carlos Vinhas, João Donato… Esses nomes que vinham da bossa nova e que mais tarde lançam discos psicodélicos”, conta o jornalista.

A influência dos Beatles e seus discos mais psicodélicos do final dos anos 1960, como o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967, e de vários outros produtos pop que chegavam ao Brasil, como o filme Gimme Shelter, dos Rolling Stones, lançado em 1970, que gera um quebra-quebra geral em sua estreia no Rio de Janeiro. É na mistura de elementos da cultura inglesa e norte-americana com a cultura nacional que se constrói a psicodelia brasileira. “A antropofagia da Semana de Arte Moderna de 1922 segue até os anos 1960 com a apropriação de elementos pop dos tropicalistas, que usam a cultura de outros países na mistura com a cultura nacional. Isso cria uma música psicodélica muito particular no Brasil”, garante o pesquisador.

Com textos em português e inglês, o livro apresenta uma miscelânea entre discos conhecidos, totalmente desconhecidos, raros e cultuados entre colecionadores de discos. A cena psicodélica apresentada por Bento Araújo pode ser que nem tenha existido na prática, já que, no Brasil, a psicodelia foi explorada por músicos de lugares distantes em períodos diferentes, com influências muito diversas. “Esse movimento de redescoberta é um movimento curioso; Quando eu era adolescente, nos anos 1980, ninguém falava em Mutantes. Mais tarde, com Kurt Cobain, Sean Lennon, Björk falando do som deles é que todo mundo foi prestar atenção. Um caso que eu sempre lembro é o disco do Paulo Bagunça e a Tropa Maldita … Faziam um som super moderno… Tinha uma forma nova de fazer música brasileira. Mas não teve grande alcance. Só quando redescobriram o disco, anos mais tarde, é que foram perceber a inovação do que eles estavam propondo”.

Bento Araújo é o criador, escritor e editor da revista Poeira Zine. Há treze anos, dedica-se a explorar o universo pop da música brasileira e mundial nas páginas de sua revista, que bimestralmente, era enviada à casa de seus assinantes com notícias e entrevistas garimpadas pelo radar do jornalista. O zine foi interrompido em 2016 para o trabalho com o livro, mas Bento garante que não o sepultou, está apenas dando um tempo para colocar as novas atividades em dia. “Não é que acabou. Quem sabe eu não lance uma edição especial em breve?”

  1. Que tal transformar esse projeto em uma bela exposição???

    | José Roberto Teixeira

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