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Passando a baqueta

Professor de percussão da Unesp, o norte-americano John Boudler conta sua história ao Álbum

texto Itamar Dantas    |   fotos Marcos Fecchio

O norte-americano John Boudler formou 85 percussionistas ao longo de 35 anos de docência na Unesp. Foto: Marcos Fecchio

A história de John Boudler no Brasil se mistura à do Grupo de Percussão do Instituto de Artes da Unesp (Piap). O norte-americano foi convidado a vir para São Paulo em 1978 para ser timpanista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e professor de percussão na Unesp. E, em questão de dias, começou a dar aulas ainda sem falar português. Foi essa dificuldade que o levou a criar seu primeiro “plano pedagógico”: “Baqueta… toca!”

Boudler chegou ao Brasil para ficar dois anos, quando o curso de percussão da universidade paulista era apenas um grupo de extensão universitária. Ao final desse período, ele teria de voltar para os Estados Unidos, mas quis dar continuidade ao trabalho iniciado no país. “Era um curso livre, mas começou a ter gente muito boa estudando. O coordenador me disse: ‘Se você for embora, acaba!’ E como fazemos para não acabar? Ele respondeu: ‘Teríamos de fazer um bacharelado’. E, então, eu fiz um acordo de cavalheiros: ‘Fico até alguém se formar para dar continuidade’.”

Assim, comprometeu-se a ficar mais quatro anos. Mas foi se apegando ao curso, ao Brasil. Foi  ficando… Hoje, 35 anos depois, livre-docente pela Unesp, o professor formou 85 percussionistas e se prepara para a aposentadoria, deixando a Carlos Stasi a tarefa de substituí-lo na direção do curso.

Em entrevista ao Álbum, o músico fala de sua trajetória no ensino musical brasileiro e dos principais sucessos do grupo Piap.

ÁLBUM – Como foi a sua vinda para o Brasil?
JOHN BOUDLER – Eu era aluno de um curso organizado pela Sinfônica de Boston. Tive aulas com o percussionista Vic Firth. Eu havia estudado com ele em 1972, mas por certas razões tive de voltar para minha cidade, Buffalo, no estado de Nova York. Quatro anos depois, eu me interessei em saber como estava em relação aos alunos da parte sinfônica. O Ayrton Pinto, ex-spalla da Osesp, foi para Tanglewood recrutar um timpanista. Meu amigo Neil Grover ganhou e fim da história. Mas você pode imaginar como era burocrático entrar no Brasil em 1977… Não era fácil. Me chamaram para substituí-lo porque ele não iria mais. Fui escolhido para ser timpanista na Osesp e professor de percussão na Unesp. Comecei a gostar muito dos trabalhos que estávamos desenvolvendo por aqui, me senti útil. Fui chamado para ficar por dois anos e, ao final desse período, perguntei ao coordenador qual seria o futuro do curso depois que eu saísse. Era um curso livre, mas começou a ter gente muito boa estudando. Ele me respondeu: “Se você for embora, acaba”. E como fazemos para não acabar? “Teríamos de fazer um bacharelado.” Então, eu fiz um acordo de cavalheiros: “Fico até alguém se formar para dar continuidade”. Me comprometi a ficar pelo menos mais quatro anos. E fui ficando… Depois de 35 anos, acabei de formar o percussionista número 85. Me senti acolhido pela comunidade. Ainda consegui voltar para concluir o meu mestrado nos Estados Unidos. Imagina… um estrangeiro conseguir um bom salário no Brasil, ainda com bolsa para estudar no exterior? Eu tinha de dar uma retribuição. Foi uma série de fatores que me fez ficar no Brasil. Com o Piap, formou-se uma imensa rede percussiva. Fico muito feliz com a dinâmica dos ex-alunos: a comunicação de conquistas, de orgulhos. O povo valoriza mais quando está fora do curso do que propriamente durante o período em que está aqui. Tínhamos um espaço decente. Conseguimos trazer muitos profissionais de todas as partes do mundo. Criamos uma rede de conhecimentos e de profissionais muito interessante. Nos tornamos uma família. Nós sempre dizemos por aqui: “Você pode sair do Piap, mas o Piap não sai de você”.

Esses profissionais formados conseguiram entrar no mercado?
Isso sempre foi uma preocupação absurda. A cada ano mais pessoas procuravam o Piap. E para onde vai esse povo? Hoje em dia, dos 85 formados, mais de 90% vivem de música. É um percentual alto. Tem percussionistas formados aqui em várias partes do país e do mundo. Alguns lecionam, outros integram orquestras. Quase todo o naipe da Osesp é do Piap, assim como metade do naipe da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Tem gente dando aulas em Goiânia, em Minas Gerais, nas regiões Nordeste e Norte. Vários estão fazendo mestrado no exterior ou no próprio país. É claro que em quatro anos não se aprende tudo, mas conseguimos formar muito bem os alunos.

A que você credita esse sucesso do Piap?
Nós tivemos sorte com algumas coisas e sempre fomos muito bem relacionados. Um dos aspectos mais importantes foi o de termos um espaço pequeno, mas exclusivo, durante 30 anos. Nenhum curso tinha essas regalias. A percussão era uma ilha, que o pessoal usava durante 24 horas por dia. E agora, com esse novo prédio na Barra Funda, temos um espaço ainda mais privilegiado. Com espaço exclusivo, equipamentos mais sofisticados e três professores, só podemos fazer gol de placa! [risos]

O que o surpreendeu depois de sua chegada ao Brasil?
O povo brasileiro é muito criativo. Se a pessoa não tem nada, ela ainda faz. Se tem um pouco, ela faz mais ainda. O povo se vira. É lindo isso! O brasileiro se vira e faz rolar. Eu me sinto muito bem adotando o Brasil.

Como a musicalidade percussiva brasileira afeta os músicos?
Isso é riquíssimo. É outro diferencial tanto para o público quanto para os intérpretes. O povo já tem o suingue no sangue; tem coisas da MPB de altíssimo nível. Só que, no caso dos alunos, cada um vai ter um gosto, vai procurar um nicho. Ainda assim, sempre colocamos em pauta que é essencial conhecer a música do próprio país.

Como despedida, você organizou uma série de concertos em homenagem ao centenário de John Cage. Como aconteceram os concertos e por que escolheu John Cage?
John Cage é o cara da percussão erudita. Ele é um dos músicos mais importantes da história. No início de sua trajetória, foi o primeiro a incluir um grupo de percussão na música de concerto; criou o piano preparado e o levou para os concertos. Além disso, tem a questão do silêncio, que ele também colocou em xeque e que se relaciona muito com o repertório de percussão. O Piap foi convidado pelo Sesc para gravar dois temas do John Cage. Então, eu joguei essa ideia como isca para várias pessoas, com o intuito de realizar os concertos. A mordida veio de todos os lados. Resolvi fazer disso a saideira dos meus 35 anos de trabalho. O resultado dos concertos foi absurdo, com 50 músicos e 31 obras apresentadas. Foi absolutamente lindo!

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