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“Os graves escutamos com o estômago”

Em filme, animação e disco, Manu Maltez promove sua releitura do mito de Fausto

texto Itamar Dantas

Lourenço Mutarelli e Manu Maltez atuam mascarados em cena do filme O Diabo Era Mais Embaixo. Foto: Mayra Azzi

Manu Maltez é músico, escritor, artista plástico e compositor. Para o seu novo projeto decidiu reunir todas essas facetas e realizar o combo filme, disco e animação O Diabo Era Mais Embaixo. A história conta a saga de um baixista (o próprio Manu Maltez) que tem como vizinho o diabo, interpretado pelo desenhista, ator e dramaturgo Lourenço Mutarelli. Entre conversas no meio da madrugada para que o barulho seja interrompido, músico e diabo interagem em uma nova versão do mito de Fausto, interpretada ora em animação, ora com os atores.

O disco e o DVD com o filme são lançados pelo Selo Sesc e a estreia será no dia 18 de dezembro, às 21h, no teatro do Sesc Pompeia, em São Paulo. O álbum e o show contam com a participação dos músicos Rafa Barreto, Antonio Loureiro, Anderson Quevedo, Thaís Nicodemo, Maria Beraldo, Jaziel Gomes, Juçara Marçal e Zé Pitoco.

Em entrevista ao Álbum, Manu Maltez fala do processo de construção da obra e de algumas referências que guiaram a construção do novo trabalho.

ÁLBUM – Quanto tempo foi necessário para construir essa história? Como se deu o início do projeto? 
MANU MALTEZ – Rapaz, essa história começou em 2006 em forma de uma peça musical, em cima de um conto que escrevi, uma espécie de fábula sobre a origem do timbre do contrabaixo, explicando o porquê de seu som ocre, obscuro, para narrador, trio de contrabaixos e uma orquestrinha. Fizemos várias apresentações no Sesc, na Casa de Francisca e em outros lugares. Depois foi me dando vontade de criar imagens para a história, o que acabou resultando em um livro com o texto original e vários desenhos (publicados pela editora Scipione em 2012). Na época do lançamento do livro, fiz também alguns shows ao lado de uma pequena banda, com a participação do Lourenço Mutarelli no papel do diabo. Após esse período, foi me dando vontade de juntar todas essas fases e formas em um outro formato, que sempre tive vontade de fazer mas que nunca imaginei ter meios para realizar: o cinema. Misturando animação, cinema e música, propus ao Selo Sesc o projeto. O Sesc gostou da ideia e o filme foi feito em aproximadamente dois anos. Brinco que essa é minha autobiografia não autorizada, pois é um trabalho que me expõe até demais, sem censura e, principalmente, autocensura, reunindo todas as linguagens artísticas pelas quais tenho transitado nos últimos dez anos e me mostrando em situações tanto dramáticas quanto patéticas.

É “lá pras 3 da manhã” que o homem vaza o seu porão? Foi na madrugada que o projeto foi criado?
Digamos que esse seja um projeto insone na raiz. Subterrâneo, se diz. “Lá pras três da manhã”, naqueles momentos de solidão aguda, angústia, medo e afins, é que você acaba apelando para o diabo em busca de uma solução qualquer…

Sobre a história: onde está a “alma” da música criada para o filme e disco?
Na verdade, toda a música do filme (que chamo de canções baixas ou ainda canções graves, tanto pela instrumentação quanto pelas letras, com todos os sentidos que isso possa ter) foi gravada antes de qualquer filmagem ou animação. Por isso chamo o projeto de disco-filme. A alma das canções está na voz e no contrabaixo, com o colorido grave que escolhi para arranjá-las/comentá-las: um trio de sopros também grave (sax barítono, clarone e trombone baixo), uma guitarra barítono, um piano preparado (com latas, parafusos e ferragens colocadas sobre suas cordas) e bateria. Não deixa de ser também uma reflexão sobre os graves na história da música. Costumo dizer que médios e agudos ouvimos com os ouvidos, mas os graves escutamos mesmo é com o estômago, com as vísceras.

E como será o show? Vai ter a exibição do filme? O que preparou para a apresentação?
O show será um híbrido de filme, show e peça, alternando momentos de puro cinema com a trilha sendo executada ao vivo. Em outros momentos vai ser um show musical com foco nos músicos e ainda terá teatro, com a utilização das máscaras que fiz para o filme. Aliás, eu diria que as máscaras são a chave, elas é que fazem a ponte entre as cenas de cinema e as cenas de animação e permitem a leitura alegórica da história. Vale a pena citar os músicos que fazem parte da orquestra mascarada, todos com projetos autorais dos quais também sou grande admirador: Rafa Barreto, Antônio Loureiro, Anderson Quevedo, Thaís Nicodemo, Maria Beraldo e Jaziel Gomes, além da participação especial (não por acaso) da cantora Juçara Marçal, que inclusive lançou neste ano um grande disco chamado Encarnado, e também do zabumbeiro/saxofonista Zé Pitoco, de quem sou fã e que representa um lado nordestino que tem aparecido nas minhas músicas. Vale citar também a cenografia/iluminação de José Silveira e da montagem e projeção de Ciro Bueno, que também trabalharam como parceiros no filme.

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