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Os compassos irracionais do Entrevero Instrumental

Quarteto lança Estratossoma, que passeia pela música regional, música atonal e improvisação

texto Itamar Dantas

Grupo Entrevero Instrumental na Sala Itaú Cultural e a capa do seu novo disco, Estratossoma. Foto: Maycon Soldam

O grupo Entrevero Instrumental lança o seu terceiro álbum, Estratossoma. Catarinense de Florianópolis, tem em seu DNA a mistura entre o jazz, a música contemporânea e a música regional. Estratossoma passeia por esses três universos.

Entrevero é formado pelos músicos Arthur Boscato (violão de sete cordas), Diego Guerro (acordeom), Jota P Barbosa (saxofone), Filipe Maliska (bateria) e Rodrigo Moreira (baixo). Para contribuir no novo trabalho, convidaram os músicos Xirú Antunes, Jairo Lambari e Takuya Nakamura.

Em entrevista ao Álbum, Filipe Maliska e Arthur Boscato falam um pouco da concepção do disco, das participações e das escolhas musicais do grupo.

ÁLBUM – Como foi o processo de produção do disco? Quando ele se iniciou e como vocês o financiaram?
FILIPE MALISKA –
 Eu e o Arthur Boscato tivemos a sorte de nos tornarmos vizinhos em Florianópolis e de fazermos faculdade de música praticamente juntos também. Esse contato direto e a afinidade de ideias fizeram com que a produção do disco fluísse bem desde 2014. Nesse meio-tempo, gravamos uma demo e recebemos por ela o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura. Além disso, realizamos uma parceria com a ESSS [Engineering Simulation and Scientific Software], por meio da Fundação Franklin Cascaes, para registrarmos em vídeo o processo de composição e gravação. Esse material sairá ainda em 2016.

Falem sobre os compassos irracionais e a nova abordagem na composição da música atonal.
MALISKA – 
Na verdade, esse nome assustador, compasso irracional, só surgiu depois que as composições estavam prontas. Fazia um tempo que eu vinha trabalhando com a ideia de criar diferentes feels na elaboração dos grooves, usando subdivisões do compasso em 5 e 7. O primeiro trabalho em que pude explorar isso foi O Exótico Quark Encanto (projeto meu e do Arthur Boscato que será lançado em 2016), mas nele a ideia era sempre ter um pulso contínuo com alterações nas subdivisões, então você nunca tem uma sensação de quebra de compasso – apenas sensações diferentes entre um pulso e outro. Eu fiquei tão contente com o resultado e com as possibilidades que resolvi trazer essa concepção para o Entrevero.

Acontece que no grupo sempre trabalhamos com compassos ímpares e, quando surgia um compasso ímpar sobre essas subdivisões, não era possível escrever em um software de notação musical tradicional, como o Finale. Durante a produção, a gente se virou bem escrevendo no papel de uma forma alternativa; eu e o Arthur inclusive quebramos a cabeça para chegar a uma tabelinha com umas fórmulas de compasso que funcionavam matematicamente. Mas, depois de muitas pesquisas e perguntas a professores, achei a resposta no lugar menos óbvio: Wikipédia

Estavam lá os tais compassos irracionais e, apesar de eles serem pouco usados mesmo na música erudita de vanguarda e de não terem sido pensados para grooves, traziam a matemática e as fórmulas de compasso – já aceitas na música contemporânea – para escrever essas concepções rítmicas que já estavam prontas, originando fórmulas de compasso bizarras com denominador ímpar, como 3/7, que assustam muito mais do que o som em si. Para escrever isso, tivemos de recorrer a um software de código aberto chamado Lilypond, e o Arthur, que edita as partituras, está se fodendo agora na programação [risos].     

ARTHUR BOSCATO – Não diria que é uma nova abordagem da música atonal, mas uma abordagem particular. Muito se fala em compor intuitivamente, como se isso fosse construir a partir de progressões harmônicas mais simples, mas na verdade isso se fixa ainda mais no padrão tonal, ou seja, foge da intuição. Assim, a maioria das músicas do Estratossoma surgiu de padrões de violão baseados em shapes no braço do instrumento, mas fora de qualquer centro tonal. O parâmetro para a escolha dos acordes e das notas foi, quase sempre, o próprio som. As melodias, mesmo quando construídas de forma mais cerebral – como sobre técnicas seriais ou baseadas na relação das notas entre as diferentes vozes –, eram adaptadas livremente para resultar no som que procurávamos.

E a improvisação com base na música regional? Como chegaram a essas experimentações?
MALISKA –
 A música regional sulista sempre esteve no DNA do Entrevero. A maioria dos integrantes vem do interior de estados da Região Sul e sofre influência forte dessa cultura. O Diego Guerro [acordeom] e o Arthur Boscato [violão de sete cordas] trazem esse sotaque mais forte por terem sido criados no meio da música tradicional. Nos outros discos, a bateria, o saxofone do Jota P Barbosa e o baixo do Rodrigo Moreira faziam essa ligação com a música urbana improvisada. Desta vez, nós pudemos somar a ela também esses novos elementos – como as novas concepções rítmicas – e ver como ficaria uma milonga, um chamamé ou uma chacarera com esses feels incomuns. Isso deu origem a diversas modulações métricas, às vezes a sobreposições polirrítmicas que levaram para outro nível aquela ideia básica do 3 contra 4, muito presente nos gêneros regionais.

Também usamos a música tradicional do Sul como intervenção ou citação, abusando de contrastes e exagerando na fusão de ideias aparentemente muito antagônicas; sobrepondo o PD [abreviação de Pure Data, ferramenta de síntese e de processamento de áudio em tempo real baseada em um ambiente de programação gráfica para áudio e vídeo] a trechos totalmente inspirados na música regional. Usamos ainda, em alguns momentos, modificações da base tradicional da milonga para a escolha das notas e levadas de gêneros regionais utilizando técnica expandida nos instrumentos.

Como surgiu a ideia de utilizar o Kinect [sensor de movimento do console Xbox 360] com o Pure Data? Como ele acrescentou à sonoridade do álbum?
MALISKA – 
Por volta de 2012, eu estava fascinado com as ideias de realidade aumentada e já tinha comentado com o pessoal da banda de fazermos o disco novo com essa temática. Seguindo as ideias que vínhamos tendo de expansão dos ritmos e dos acordes, era quase óbvio a gente beber da fonte da música eletroacústica para aumentar o timbre dos nossos instrumentos, mas o que ainda faltava eram as ferramentas certas. A primeira que apareceu foi o Pure Data, que o nosso baixista, Rodrigo Moreira – na época professor de história da música contemporânea na Udesc [Universidade do Estado de Santa Catarina] –, havia apresentado em aula. Desde aquele momento, sabíamos que era a ferramenta ideal, então entrei de cabeça no software.

O PD é um ambiente de programação gráfica e, por ser de código aberto, tem uma grande comunidade ao redor do mundo colaborando, criando patches, e isso é realmente muito legal. Por exemplo, um dos caras que mais me ajudaram na programação do PD mora no Japão. Nesse momento, já tínhamos o softwaremas ainda existiam dúvidas sobre a maneira como iríamos “domar” aqueles “monstros” que os algoritmos do PD estavam originando, pois, ao mesmo tempo que queríamos as aleatoriedades, as gamas enormes de frequências e ruídos, gostaríamos de poder controlar isso de maneira intuitiva.

Foi aí que tive a sacada do Kinect e, por sorte, já existia driver para ele rodar no Windows – e, por mais sorte, já havia um patch para PD de uma equipe da Argentina que desenvolve tecnologia aplicada à dança. O que eu precisava fazer então era adaptar tudo isso à peculiaridade de cada instrumento – na bateria, por exemplo, um dos motivos para eu não usar tom foi esse, pois assim o Kinect teria uma visão melhor de mim e eu poderia controlar algumas coisas com os braços e com a cabeça. No violão e no baixo, o driver do Kinect interpreta o braço do instrumento como o braço humano, daí surgem controles bem intuitivos. Enfim, são tantas as possibilidades que esse trabalho está em constante aperfeiçoamento e transformação, e acreditamos que ao vivo esse processo vai ficar cada vez melhor.

Como chegaram ao convite para Xirú Antunes, Jairo Lambari e Takuya Nakamura?
BOSCATO – 
Tínhamos essa vontade de inserir alguns trechos de poemas e contos que utilizassem a temática sulista, com termos regionais que às vezes chegam a parecer outro idioma, como elementos de contraste. Além do timbre novo, nessas inserções entraram partes tonais ou de longas pausas. Assim, pensamos no Xirú e no Lambari, nossos conhecidos e grandes referências da cultura do Sul. Já o nome do Takuya surgiu da vontade de ter no disco alguém ligado ao mundo da música eletrônica. Ele fez parte do trio Nerve, liderado pelo baterista Jojo Mayer e originado no movimento Prohibited Beatz, festa de música eletrônica ao vivo que ficou famosa em Nova York no final dos anos 1990. O trio foi pioneiro ao transpor ritmos como drum’n’bass para instrumentos acústicos, inspirados no conceito de “engenharia reversa”. Acabamos fazendo uma pequena homenagem em alguns trechos do disco, emulando efeitos de música eletrônica, como o glitch, em nossos instrumentos.

E como foi a concepção da capa do disco?
MALISKA –
 A capa tenta resumir em um personagem o som do disco. Mostra um homem de terno com um lenço gaúcho atirando uma torta na própria cara ao mesmo tempo que tira uma máscara do rosto. Existe na foto uma referência a um efeito analógico chamado multiple exposure, que mostra o movimento das mãos até a torta chegar ao rosto; depois há um efeito digital fazendo referência às camadas eletrônicas do disco, com os mesmos princípios de granulação, dando origem a novas texturas e cores.

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