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“Villa-Lobos gostava muito de nós”

Os Cariocas contam um pouco de sua longa trajetória na música popular brasileira

texto Itamar Dantas

A atriz Lúcia Veríssimo ao lado do pai, o Maestro Severino, e de outros três integrantes d’Os Cariocas. Foto: Itamar Dantas

Os Cariocas é um dos mais antigos grupos musicais em atividade no Brasil. Formado no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, em 1942, o conjunto vocal inicia a carreira profissional cantando na Rádio Nacional em 1946, no programa “Um Milhão de Melodias” sob a regência de Radamés Gnattali. Dois anos depois, grava em disco pela primeira vez, um 78 rotações com as canções “Nova Ilusão”, de Luís Bittencourt e José Menezes, e “Adeus América”, de Geraldo Jacques e Haroldo Barbosa.

Formado originalmente por Ismael Netto (arranjador, primeira voz e violão), Severino Filho (segunda voz e percussão), Emmanoel Furtado, o Badeco (terceira voz e violão), Waldir Viviani (percussão e quinta voz) e Jorge Quartarone, o Quartera (quarta voz e percussão), o grupo – que passa por diversas escalações depois da morte de Ismael Netto em 1956 – é integrado Elói Vicente (violão e voz), Neil Carlos Teixeira (baixo e voz), Fábio Luna (bateria e voz) e por seu único remanescente, Severino Filho (piano, arranjos e voz).

Agora, para comemorar 70 anos de estrada e 50 anos da apresentação do clássico “Garota de Ipanema” – revelado ao público em agosto de 1962 durante um show na casa Au Bon Gourmet, no Rio de Janeiro –, os Cariocas subiram no palco do Auditório Ibirapuera com o espetáculo “Os Cariocas Abraçam São Paulo”. No repertório, além do clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, sucessos da carreira e canções de paulistas, como as de Toquinho e Eduardo Gudin. O show contou com a atriz Lúcia Veríssimo – filha do maestro Severino –, que anunciou e contou histórias de algumas canções do quarteto vocal.

Em entrevista exclusiva ao Álbum, Os Cariocas contam fatos curiosos de sua trajetória e, em homenagem a Tim Maia, que faria 70 anos em setembro, relembram a gravação com o “Síndico” [disco Os Amigos do Rei, 1996].

ÁLBUM – Está completando 50 anos da primeira apresentação de “Garota de Ipanema”. Vocês a cantaram ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes em 1962. Como foi essa história?
Maestro Severino - 
O Tom e o Vinicius já tinham lançado algumas músicas juntos. Eles estavam sentados no bar Veloso e viram a Helô Pinheiro passar. E aí tiveram a ideia da música. Eles falaram que a escreveram em um guardanapo, porque não tinham papel na hora. Nós preparamos a canção para cantar no Au Bon Gourmet [clube carioca do bairro de Copacabana]. Estávamos Os Cariocas, o Tom Jobim, o Vinicius de Moraes, o João Gilberto e também o Milton Banana na bateria e o Otávio Bailly no contrabaixo. Na plateia, 90% do pessoal estava vestido de terno e gravata, porque o Vinicius era diplomata.Verdadeiramente, fomos os primeiros a cantar essa música. O negócio bombou. Depois que fechou o Au Bon Gourmet, a bossa nova foi para o Beco das Garrafas [Copacabana, RJ]. Aqui em São Paulo, foi para o Teatro Paramount, para a TV Record… O (programa) “Fino da Bossa”, com a Elis Regina e o Jair Rodrigues, também teve papel importante na divulgação da bossa.

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Na época havia outros grupos vocais. O que diferenciava Os Cariocas?
Severino - 
Aqui em São Paulo tinha um grupo maravilhoso de seis deficientes visuais, Titulares do Ritmo, nossos amigos. O Demônios da Garoa também é muito bom. Havia também outros conjuntos, como Garotos da Lua, Trio Irakitan, Quatro Ases e um Coringa… Foi uma época muito boa. Agora não tem quase ninguém. Acabamos de perder o Magro, do MPB-4. Um rapaz muito competente, fazia arranjos vocais e também sabia escrever para orquestra. Tínhamos uma maneira de vocalizar um pouco diferente. E os arranjos do meu irmão eram muito arrojados. Mas sabe por que nessa época havia muitos grupos de arranjos vocais? Porque tinha rádios como a Rádio Nacional e a Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. Aqui em São Paulo tinha a Bandeirantes e a Record. E elas davam trabalho para os artistas. Tinha orquestra na rádio. A Orquestra da Rádio Nacional tinha 70 figuras. Trabalhar lá foi uma escola. Eles gostavam de nós, o Radamés (Gnattali) dava força. Como também ajudei outros arranjadores depois. É o ciclo natural.

Quem são os herdeiros dos Cariocas?
Severino - 
O pessoal do MPB-4, que era de Niterói, e assistiu a um ou dois ensaios lá na minha casa, no Leblon. Mas eles criaram um estilo próprio. Depois apareceu um grupo muito bom aqui em São Paulo, o Quarteto em Cy.
Elói - O Boca Livre…
Severino - Sim, muito bem lembrado. Uma vez fizemos aqui no Sesc um show com o Boca Livre, o Quarteto em Cy, o Demônios da Garoa. Foi muito bacana!

O que não pode faltar em um show dos Cariocas?
Severino - 
Se não cantarmos essas músicas que eu vou citar, o pessoal sai correndo para bater em nós: “A Minha Namorada”, “Samba do Avião”, “Ela é Carioca”, “Garota de Ipanema”, “Sabe Você”, “Pra que Chorar”, “Tem Dó” e “O Rio”.

Como andam os trabalhos do grupo atualmente?
Severino - 
Enquanto Deus quiser, eu estou aí. Estou mantendo minha diabetes com cuidado. De vez em quando exagero um pouco. Fizemos um show com a Wanda Sá; vamos fazer outro com a Leny Andrade. Tivemos uma participação do Marcos Valle em um show nosso. Os trabalhos vão seguindo…

Como foi a escolha do repertório e das participações no último disco de vocês (Nossa Alma Canta, 2010)?
Severino - 
Resolvemos entre nós. Às vezes os diretores também dão ideia. Tem que ter a aprovação da maioria. Nesse disco, tivemos convidados maravilhosos, como o Milton Nascimento, o João Donato e o Eumir Deodato. E a ideia era essa, valorizar os músicos também, principalmente os pianistas.

Estão envolvidos em algum novo projeto?
Elói - 
Estamos reunindo algumas ideias. Inclusive, tivemos que fazer alguns arranjos para esse show e pensamos em inclui-los em um próximo trabalho. Agora, queremos experimentar uma nova forma de gravar. Todo mundo está gravando em casa. Estamos pensando em fazer umas pré-gravações em casa mesmo. Mudar aquele esquema em que todo mundo tem que ir para o estúdio e ficar esperando enquanto grava o violão…

O Tim Maia faria 70 anos em setembro. Como foi a gravação com ele em 1996 [disco Amigos do Rei]?
Elói –
Não acreditávamos que iria acontecer porque era o Tim Maia. Ele era fã do grupo. O Severino morava ali na Tijuca, onde surgiu a Jovem Guarda, e conhecia o pai do Tim e ele desde garoto. E mais tarde estariam gravando juntos… O Tim ficava ligando e falava: “Eu gosto de tocar, sou vocalista, sou não-sei-o-quê”. Ligava para o Severino três horas da manhã, ligava para o Badeco às quatro: “Vamos fazer, vamos fazer!”. Até que um dia ele falou: “Vem aqui!”. Ele tinha um estúdio nos fundos da casa. Marcou o dia e nós fomos. Gravamos metade do repertório dele, metade do nosso repertório. As músicas dele, ele fez a base com a banda Vitória Régia. E as músicas de bossa nós fizemos a base. Mas nós e ele cantando. Foi um período muito legal; um ano de gravações. Ele era uma figura maravilhosa, mas completamente louco.

Como é o contato entre as gerações no grupo?
Fabio Luna - 
Existe a experiência, o respeito e a admiração. Mas quando o som rola mesmo não tem muita idade. É todo mundo menino. Lembro de nos primeiros shows ter visto o Severino contando história: “porque a gente ia na casa do Tom Jobim, etc.”. Isso até hoje não é uma coisa normal.
Neil - Estávamos em um bar tomando um chope e comecei a falar do filme Heleno: “Filme muito bom, em preto-e-branco, imagens sensacionais”. Chega o Severino e diz: “Conheci o Heleno!”. Isso de vez em quando nos assusta. Esquecemos quem é esse cara, né?
Elói - Às vezes ele conta umas histórias: “O Villa-Lobos gostava muito de nós…”.
Neil - Villa-Lobos aplaudia Os Cariocas… Para mim, o Villa-Lobos era de um outro planeta.
Fabio - Então, ao mesmo tempo que é uma responsabilidade, é um aprendizado constante. Todo dia é um aprendizado, um privilégio.

Severino, fale um pouco do período de 21 anos em que Os Cariocas ficaram separados e como se chegou à formação atual.
Severino - 
Foi uma época em que o iê iê iê entrou forte e os trabalhos diminuíram, não somente para nós, como para outros artistas. Aí resolvemos parar para pensar, mas a ideia era parar por uns dois anos e acabou se esticando. Mas os pedidos eram tantos para que voltássemos, que nós voltamos. O Luiz Roberto já estava mais ou menos “baleado”. Ele abusava muito. Eu, o Badeco, o Luiz Roberto e o Quartera nos reunimos e voltamos a cantar no Jazz Mania. Foi muito bom, casa cheia. Depois, fizemos uma noite em Niterói e voltamos para o Rio de Janeiro. Foi em uma noite dessas que o Luiz Roberto faleceu. Ele pediu para descansar por 10 minutos porque não estava se sentindo bem e não voltou mais do camarim. É uma história triste, mas faz parte da vida. Mas voltamos de vez. Tinha um amigo do Luiz Roberto que gravava comigo em um coral, o Edson Bastos, fizemos um disco. Depois ele saiu e entrou o Elói.
Elói - Em 1994, o Badeco teve que sair e eu entrei por um tempo. Depois o Badeco voltou, o Edson saiu e eu fiquei em definitivo.
Neil - Tinha medo do Tim Maia. [risos]
Elói - Exatamente. Quando começou essa história do Tim Maia, ele pediu as contas. [risos]
Severino - A primeira mulher do Elói disse que tinha um garoto que tocava na banda da Orquestra Tupi. Ele foi lá fazer o teste e foi bem, só que quando ele viu uma nota mais aguda que eu escrevi, fechou as coisas e falou assim: “Não, não vai dar!”. Mas sou macaco velho: “Não, você vai ficar!.
Neil - A nota nem era tão aguda assim… [risos]
Elói - Ele estava falando comigo ao telefone. Falei pra ele fazer a segunda voz. A segunda voz é alta, sacrificada. Ele disse: “Mas a minha voz é grave! E tem outro problema também: sou cabeludo!”.
Neil – Pensei: “Estou esperando a hora que vão me mandar cortar”.
Elói - Toda vez que chegávamos em um aeroporto, ele sumia. Estava sendo revistado. [risos]
Severino - Ele estreou no disco do Tim Maia e foi muito bem. De vez em quando eu ouço algumas faixas, gosto muito. Mas agora que saiu um componente ele pediu para fazer a terceira voz, que não é tão aguda. Deixou a bomba para o Fábio.

  1. muito legal este desenho do show da luna minha fila ama d+

    | show da luna

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