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“O sintetizador virou um parque de diversões”

João Donato se une a nova geração de músicos e lança o disco "Donato Elétrico"

texto Itamar Dantas

João Donato apresenta álbum gravado em São Paulo ao lado de músicos da nova geração. Foto: Caroline Bittencourt/divulgação

João Donato é um músico altamente intuitivo. Gosta de compor de maneira espontânea, deixando-se levar pela inspirada criatividade. Com essa leveza, tornou-se um dos pilares da bossa nova; viajou pela psicodelia setentista do funk; foi à música cubana, tocando ao lado de Mongo Santamaría, assim como de ícones do jazz, entre inúmeros outros movimentos nos quais tem atuação de destaque como músico, compositor e arranjador.

Seguindo sua multifacetada carreira, aos 81 anos de idade, em 2016, apresenta o álbum Donato Elétrico, no qual retoma características de sua fase mais elétrica, representada por A Bad Donato, lançado em 1970. Com produção de Ronaldo Evangelista, Donato Elétrico é realizado ao lado de músicos da banda Bixiga 70 e de outros expoentes da nova cena musical paulistana. Sobre o encontro com os músicos, Donato declara terem se entendido facilmente por meio da linguagem musical. “Os músicos, na primeira vez que se encontram, já se entendem um com o outro. Os músicos de Nova York, de Los Angeles foram se encontrando naturalmente. Aconteceu da mesma forma como quando eu conheci o Count Basie, o Herbie Hancock…”

Até no nome das músicas é possível perceber essa naturalidade dos encontros que resultaram no álbum. Em uma ligação telefônica, Ronaldo Evangelista perguntou se Donato tinha gostado de um dos ensaios, e ele respondeu: “muy bueno!”. Evangelista entendeu “Urbano!”, e acabou sendo esse o nome dado à segunda faixa do álbum. Quando perguntado sobre o resultado final, João Donato destaca algumas faixas preferidas, como “Resort”, “Espalhado”, “Urbano” e “Frequência de Onda”.

Os encontros para a realização de Donato Elétrico tiveram início no segundo semestre de 2013. No mesmo período, Donato trabalhava com vários dos músicos que atuariam nesse novo trabalho também na recriação de outro álbum, o Quem É Quem, de 1973, que completava 40 anos de seu lançamento. O processo de composição com os músicos foi espontâneo, com o grupo deixando-se levar em longas jam sessions. As sessões eram gravadas e Ronaldo Evangelista apresentava alguns temas que poderiam ser trabalhados. Segundo ele, os demorados ensaios tinham a intenção clara de deixar a sonoridade do álbum mais quente. “Os momentos não planejados tinham mais o espírito do que estávamos procurando. Era para ser uma coisa quente, elétrica. ‘Tartaruga’ foi a primeira música composta e a célula dela surgiu daqueles músicos tocando juntos e improvisando”, conta o produtor.

Participaram do álbum Décio 7 (bateria), Marcelo Dworecki (baixo), Mauricio Fleury (guitarra), Guilherme Kastrup (percussão), Bruno Buarque (bateria), Zé Nigro (baixo), Gustavo Ruiz (guitarra), Marcelo Cabral (arranjo de cordas), Mauro Refosco (percussão), Beto Montag (vibrafone), Aramís Rocha (violino), Robson Rocha (violino), Daniel Pires (viola), Renato de Sá (violoncelo), Cris Scabello (guitarra), Richard Fermino (clarone), Anderson Quevedo (flauta), Cuca Ferreira (sax barítono), Douglas Antunes (trombone), Daniel Nogueira (sax tenor), Daniel Gralha (trompete), Gustavo Cecci (percussão), Rômulo Nardes (percussão) e Laércio de Freitas (arranjo de cordas).

Os instrumentos utilizados por João Donato nas gravações também são um capítulo à parte. O músico mergulhou na sonoridade de um Fender Rhodes, um Clavinet, um Farfisa, um Moog e um Pro One, instrumentos analógicos que marcaram os anos 1970. “Essa série de teclados analógicos: Fender Rhodes, Farfisa… todos a gente foi usando… O sintetizador virou um parque de diversões, eu me diverti com eles todos e deu um resultado bem interessante. É um disco alegre, né?”, diz Donato. E Evangelista arremata: “É um disco que soa totalmente novo, mas à moda antiga”.

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