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O mundo numa picape

Alfredo Bello compartilha suas experiências de música da África ao Oriente Médio

texto Itamar Dantas

Alfredo Bello, o DJ Tudo, à frente de seu acervo de vinis. Foto: Itamar Dantas

Alfredo Bello é músico, DJ, produtor e viajante. Já rodou inúmeros países em busca de novas sonoridades. Em suas viagens, a música está sempre na linha de frente. Entre seus principais interesses, grava com músicos que conhece pelo caminho, registra o áudio de manifestações folclóricas e compra muitos discos para extrair samples e ritmos que vão alimentar seus projetos de DJ, produtor e compositor.

O DJ tem hoje mais de 12 mil LPs. Em sua coleção, músicas da África, do Oriente Médio, do Caribe, da América do Sul… Agora, além de produzir festas em que toca seu grande acervo de discos, Alfredo montou um projeto para compartilhar e explicar a origem de ritmos do mundo: O Viajante e Seus Discos. “A ideia é dividir um pouco dessas coisas que vou aprendendo. Por exemplo, tenho 150 discos do Suriname. Posso falar da kawina, que é a música vodu, a macumba deles. São ritmos da América Latina que ninguém conhece”, defende Alfredo.

A experiência como pesquisador e colecionador vem de longa data. Sua coleção teve início quando ainda morava em Brasília e estudava música, em meados dos anos 1990. Desde lá, foi comprando discos e ampliando o seu leque de interesses para a música popular como um todo. “Em uma visita à Casablanca, descobri as duas únicas lojas de disco no Marrocos. Comprei 50 discos. Depois, voltei e trouxe mais 150. Existe um tipo de música da balada, o Raï, cujas letras falam às pessoas que saiam de casa depois da meia-noite… Os dois produtores mais importantes do Raï moderno morreram assassinados em 1995 pelos grupos fundamentalistas”, conta o pesquisador.

O pesquisador também já gravou muitas manifestações folclóricas pelo Brasil. Pelo seu selo, Mundo Melhor, foram lançados 19 CDs, com maracatus, congados, folias de reis e afoxés, selecionados de mais de 2 mil horas de gravação. Esses registros devem integrar outro projeto, que é um programa de rádio. “Já está em andamento. Tenho esse compromisso com as minhas gravações também.”

Para o Álbum o músico e produtor separou alguns títulos que pretende utilizar no projeto O Viajante e Seus Discos.

1. Jil Jilala (1977)
Grupo dos anos 1970 que surge como uma afirmação cultural e política de Marrocos, contra a ideia de que todos os países árabes eram uma “nação árabe”. Com a formação desses grupos os jovens afirmavam ter cultura própria.

2. Sabri Brothers (1982)
Os Sabri Brothers é um grupo de música qawwali, música dos sufis do Paquistão e do norte da Índia. Cito essa região porque o sufi é diferente em todas as regiões onde existe.

3. Domingo Cura (1972)
Domingo Cura foi um dos mais importantes percussionistas da Argentina; procurou conhecer a música latina e recriá-la. Lançou dois discos importantes nos início dos anos 1970 em que reinterpreta ritmos latinos e árabes.

4. Kodo (anos 1990)
O taiko é a tradição japonesa de tambores, porém com o Kodo tem a perspectiva de música moderna. O Kodo não é somente um grupo de música, é uma associação cultural e o grupo que mais levou o taiko para o mundo, sempre colaborando com vários artistas internacionais.

5. Sukri Sani  Didon De (1990)
A kawina é a música da religiosidade afrossurinamense; o nome do culto é wintie (culto aos voduns). Essa música kawina foi a base para o surgimento do kaseko, música popular do país.

6. Kasai Allstars  The Chief’s Enthronement: Oyaye (2014)
O Kasai Allstars é um coletivo da região de Kasai (Cabinda Oriental), do Congo (Zaire). Eles fazem parte de um movimento Congotronics; o que faz ser “eletrônico” é somente a amplificação da música tradicional por meio de equipamentos de baixa qualidade.

7. Mazouni  Aiy Lail Yama (anos 1970)
Durante os anos 1950, 60 e 70 houve um grande movimento de liberação de valores. Eram pregadas a igualdade de direitos e uma vida mais moderna. Mazouni foi importante artista da Argélia que participou do movimento de libertação em 1962 contra a França.

8. Ti Céleste  Coucher Comp Chien (1977)
A presença da herança africana é muito forte no Caribe e a música popular dessa região tem uma grande variedade de estilos. Ti Céleste e Su Group é da ilha de Guadalupe. Todas as ilhas do Caribe têm uma riqueza musical impressionante.

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