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O lado cancionista de Paulo Leminski

Livro Toda Poesia lança holofotes sobre a música do poeta curitibano

texto Itamar Dantas

Paulo Leminski canta durante o evento ArtShow, em Curitiba, em 1978. Foto: A Arte de Sergio Moura/reprodução

A imagem de Paulo Leminski com o violão, cantando, não é a primeira que vem à cabeça quando o assunto é o poeta curitibano morto em 1989 aos 44 anos de idade. Seu notório trabalho no campo literário esconde algumas facetas de sua atividade artística, que passeou pelo cinema, pelo grafite e pela música. E é com o lançamento do livro Toda Poesia, obra que reúne mais de 630 poemas de sua trajetória, que o lado compositor de Leminski é trazido à tona.

A família de Leminski foi quem levantou a bola para falar dos seus trabalhos como compositor. Para isso, convidaram o músico Zé Miguel Wisnik, que escreveu um texto no qual discute as atividades do poeta no meio musical. “As pessoas conhecem a música, mas acham que ele era apenas o letrista. O meu objetivo é que conheçam o lado do Paulo cancionista, esse lado cantautor, que pegava o violão, fazia a melodia”, conta Estrela Leminski, filha do poeta.

No texto de Wisnik são citadas músicas importantes da obra leminskiana, como “Verdura”, interpretada por Caetano Veloso (álbum Outras Palavras, 1981). A simplicidade melódica da canção é comentada pelo músico, em contraposição à proposta inovadora de seus versos: “Soluções muito simples dispõem às vezes de um frescor e de uma força criativa genuína”, destaca Wisnik. E Caetano Veloso, em seu texto publicado na primeira edição do livro Caprichos e Relaxos (Ed. Brasiliense, 1983) e reproduzido em Toda Poesia, também não dispensa elogios:
“ ‘Verdura’ é um sonho. É genial. É um haikai da formação cultural brasileira”.

Paulo Leminski, apesar de se situar bem como “poeta de vanguarda”, desejava que sua obra fosse mais popular. “Não há dúvida de que Paulo Leminski viveu intensamente a tentação da canção. O autor do Catatau, esse desconcertante moto-perpétuo de jingles joyceanos, de hits em alta velocidade, de uma temperatura informacional inapreensível pelo grande público, sonhava também com a cadência espraiada do refrão em massa, do reconhecimento horizontal do sucesso, não fosse ele um catalisador de polaridades”, aponta Wisnik em seu texto.

Estrela faz coro às palavras de Wisnik: “Para ele, a poesia era uma coisa tão séria, tão importante… Ele queria transpor a poesia para todos os suportes, que todas as pessoas fossem tocadas pela poesia”.

Leminski conviveu com vários artistas e teve incontáveis encontros musicais em sua trajetória. Entre seus parceiros, destaque para Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Guilherme Arantes e artistas locais como a banda Blindagem e Marinho Galera, com quem frequentemente se apresentava em Curitiba. “Quando acabou o grupo Novos Baianos, o Moraes Moreira perdeu o Galvão, que era o maior letrista. Nesse momento, o Moraes e o meu pai ficam amigos. Moraes é praticamente meu padrinho. As parcerias deles estão presentes nos próximos sete discos do Moraes Moreira”, conta Estrela. A música “Oxalá (Cesta Cheia da Sexta)”, por exemplo, é uma das faixas do LP Pintando o Oito, de 1983.

Em meio à Toda Poesia, há outros traços da obra musical de Leminski. Algumas de suas composições estão no livro, como “Verdura”, “Dor Elegante” e “Cesta Feira”. Para Sofia Mariutti, editora da Companhia das Letras, a obra musical de Leminski é simples, refletindo aspectos de sua poesia. “Apesar da originalidade, não acredito que a música dele apresente grandes dificuldades ou hermetismos. Vai direto ao coração. Como alguns poemas, que são de uma simplicidade arrebatadora. Deixo Leminski falar: ‘À pureza com que sonha/o compositor popular/Um dia poder compor/uma canção de ninar’ ”.

No dia 8 de abril, segunda-feira, às 19h30, o Itaú Cultural realiza um evento de lançamento do livro Toda Poesia na sede do instituto (Av. Paulista, 149), com a presença de Zé Miguel Wisnik, Estrela Leminski, Téo Ruiz e Swami Jr. Para outras informações, acesse o link. Também está em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, a exposição Múltiplo Leminski, que traz espaços ambientados com as diferentes linguagens artísticas de Leminski, como música, poesia, tradução, cinema, grafite e quadrinhos. A exposição permanece até o dia 5 de maio.

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