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O fole e as cordas

Marco Pereira e Toninho Ferragutti lançam álbum conjunto em que revisitam suas obras em violão e acordeão

texto Itamar Dantas

Marco Pereira (à esq.) e Toninho Ferragutti durante ensaio para o disco Comum de Dois. Foto: Gal Oppido

Marco Pereira com seu violão e Toninho Ferragutti com seu acordeão são duas referências no Brasil em seus instrumentos. E, apesar de se conhecerem há muitos anos, fazia tempo que não se encontravam no palco. Foi durante a 31ª Oficina de Música de Curitiba, realizada em janeiro de 2013 e idealizada pelo curador do evento, Sérgio Albach, que o hiato se desfez.

No palco, a sintonia foi grande. Os músicos, então, decidiram dar continuidade à parceria com outros shows e, agora, com o lançamento do disco Comum de Dois, em que apresentam releituras do repertório de cada um. Três músicas de Marco Pereira (“Amigo Léo”, “Flor das Águas” e “Bate-Coxa”) são acrescidas de outras quatro de Ferragutti (“Flamenta”, “Victoria”, “Nova” e “Sanfonema”). Completam o disco “Caymmi x Nazareth” (releituras da obra de ambos) e “Mulher Rendeira” (Zé do Norte), para as quais Marco Pereira já tinha arranjos prontos.

Em entrevista ao Álbum, o violonista Marco Pereira fala do novo trabalho e faz um rápido panorama de sua visão do mercado instrumental no Brasil.

ÁLBUM – Com relação ao nome do disco, Comum de Dois, que tipo de referências musicais os aproximam?
MARCO PEREIRA – São tantas as referências musicais que nos aproximam que fica difícil responder. Nossa área de interesse é bastante ampla, muito vasta mesmo! Tanto eu quanto o Toninho sempre tivemos o ouvido e a mente abertos para todo tipo de informação musical que consideramos “instigante” para os nossos trabalhos como compositor, arranjador e intérprete. Nesse balaio entra não somente a tradição brasileira popular e folclórica de cada um dos nossos instrumentos, mas também toda a linha criativa que se pode encontrar na música clássica europeia e em todas as vertentes da linguagem jazzística. No meu caso particular, ainda existe grande interesse pelo universo da ópera e do hip-hop.

Como se dá a dinâmica de criação dos arranjos entre vocês? Há muita improvisação ou alguém já leva uma proposta pronta?
Como temos uma identidade musical bastante forte, as propostas individuais de arranjo são sempre bem-aceitas. Com relação à oposição “improvisação x proposta pronta” , é bom que se quebre o mito de que certos músicos ”inventam-criam música no momento da performance”. Isso tem um lado verdadeiro mas também dá margem a interpretações mentirosas. O que ocorre dentro da linguagem do jazz é que se cria o “repertório para improvisação” sobre estruturas abertas que são combinadas, às vezes, aleatoriamente, no momento da performance. O chamado ”músico clássico” toca sempre obras fechadas, o que significa que, independentemente do dia, do local, do estado de espírito etc., sua execução seguirá sempre o mesmo roteiro de notas, ritmos, dinâmica e tal. No caso do Comum de Dois existe os dois aspectos. Parte das músicas que tocamos e gravamos são “obras fechadas”, com arranjos previamente definidos, cabendo a cada um dos músicos tocar exatamente aquilo que está escrito; a outra parte é “aberta”, dando margem a um tipo de improvisação baseada na linguagem do jazz.

Como anda o mercado para a música instrumental no Brasil?
Desde que se criou o rótulo “música instrumental” na década de 1980, a coisa piorou consideravelmente! Antes disso o universo musical era mais simples e democrático; na época do [programa] Fino da Bossa ninguém anunciava um número musical “instrumental” quando o Zimbo Trio ou mesmo o Baden Powell tocavam alguma coisa em seus instrumentos. Era simplesmente a música acontecendo com a contribuição tanto de músicos quanto de cantores. Com a criação desse rótulo, é como se os “cientistas da imprensa” tivessem isolado um vírus perigoso que agora pudesse ser “controlado”… No início dos anos 1990, em uma reportagem sobre as “fatias do bolo” da música popular brasileira, a tal música instrumental aparecia no gráfico com zero por cento! Entretanto, de lá para cá, o que temos visto é uma verdadeira enxurrada de talentos musicais, nos mais variados instrumentos, provando que a verdadeira força da nossa música está na mão dos músicos instrumentistas e não (como, às vezes, temos a impressão) na mão de cantores comprometidos com o gráfico de vendas das multinacionais da música.

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