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O disco na era digital

Debate sobre mercado fonográfico não traz soluções, mas aponta caminhos

texto Itamar Dantas

Benjamim Taubkin, Maurício Tagliari, João Paulo da Silveira Bueno, Silvio Pellacani Jr. e Pena Schmidt. Foto: Monica Herculano

Casa do Núcleo e o site Uia Diário promoveram no dia 5 de junho a segunda edição do ciclo de conversas sobre a produção musical contemporânea no Brasil. Desta vez, o tema proposto foi “E agora, o que faço do meu disco?”. Estiveram presentes à rodada Benjamim Taubkin e Silvio Pellacani Jr., ambos do Núcleo Contemporâneo; João Paulo da Silveira Bueno, responsável pela área musical da Livraria Cultura; Maurício Tagliari, do selo ybmusic; e Pena Schmidt, produtor musical.

Entre os assuntos abordados no debate: o fim do CD, a volta do vinil às lojas, o mercado digital e o novo papel do músico no novo panorama da produção e distribuição musicais.

CD: mídia morta?

O CD e suas possibilidades de geração de renda foram o ponto de partida do debate, mostrando a pluralidade de visões sobre o assunto. Maurício Tagliari, do selo ybmusic, defendeu o CD como uma marca no processo de produção do artista, que o ajuda a conseguir shows e trabalhos em geral, mas não deve ser pensado como um gerador de renda. “Nesses últimos anos, para o tipo de artista que a gente trabalhou, o CD é mais uma marca, um registro histórico. Estou neste momento da minha carreira e isso vai me ajudar a fazer outras coisas, aparecer na televisão, fazer outros projetos etc. Ele deixou de ser uma fonte de renda. Com exceções, claro!”, defendeu o empresário.

João Paulo da Silveira Bueno, da Livraria Cultura, falou um pouco sobre a realidade da livraria e da fatia de mercado da música dentro dos negócios da empresa. Segundo ele, muitas características do negócio musical o levam a acreditar que a venda de música na empresa vai acabar, mas não tão cedo, já que ainda é uma das partes importantes do negócio da livraria como um todo. “A música ainda representa uma fatia muito generosa dentro do nosso mix. As pessoas sempre falam: ‘Ninguém mais compra disco’. Não é bem o que eu acho. Existe muita gente que compra disco, seja em formato de CD, seja em formato de vinil. São 25 milhões de discos vendidos por ano. Tudo bem que mais da metade é voltado para o público evangélico ou gospel, mas ainda é um número alto, representativo”, defendeu Bueno.

Já Silvio Pellacani Jr. destacou a desvalorização do CD, com o seu uso desenfreado para os mais diversos fins. “O CD é uma mídia vulgarizada. Não sei se vocês se lembram, mas há dez anos quando se comprava uma revista vinha um CD do Discador AOL. Isso para o consumidor é uma confusão imensa. O CD na loja custa R$ 50, a mídia virgem custa R$ 0,50. Eu ganho CD de graça a toda hora. Acho que isso contribuiu para dar uma vulgarizada na mídia”, ressaltou.

Benjamim Taubkin começou o seu negócio de produção e vendas de CDs em 1997 e garantiu que, de 1997 a 1998, conseguiu vender bastante, apostando na qualidade de seus produtos. “Na época, era comum um disco vir acompanhado de ‘desculpa’: Desculpa, esse é meu disco. Desculpa, é instrumental. Desculpa, o som não está bom. Desculpa, não deu para fazer melhor. E você ficava pensando: ‘Claro, não tem futuro’. Então a gente pensou em inverter o processo. Resolvemos fazer uma coisa que fosse muito bem-acabada, sem pensar no custo. Claro, deveria ser o custo que a gente conseguisse pagar. E enquanto havia um mercado, entre 1997 e 1998 – quando começa a crise –, vendemos muito disco”, conta Taubkin.

>> LEIA TAMBÉM: “SEM CONCESSÃO”

Vinil: solução?

O vinil foi creditado por alguns como uma mídia que tem atraído mais o público, como um fetiche do mercado. Sem pretensões de ter a mesma importância que teve no passado, os debatedores defenderam o bolachão como um bom exemplo de mídia a ser trabalhada, que poderia render novas possibilidades de negócios.

Para Pena Schmidt, a mídia do vinil é superior e deveria ter a atenção do mercado mais que seu sucessor, o CD. “O material do vinil é inerte o suficiente para durar milênios. O objeto é perfeito. Deve haver hoje nove fábricas no mundo. Não tenho a menor dúvida que muito rapidamente, daqui a dois ou três anos, os vinis serão impressos em impressoras 3D. Acaba o problema da fábrica e é altamente factível. É da mesma família o material que se usa na impressão”.

Maurício Tagliari comentou o aspecto do vinil sob o prisma de um produto mais colecionável, chegando a compará-lo com carros antigos, que sempre despertaram a atenção de colecionadores. “O CD é o Fiat Uno e o vinil o Opala. Acho que a molecada está sentindo isso. Quando você está acostumado com o som de um MP3, pega um vinil e ouve um grave na orelha [e pensa] ‘Agora estou ouvindo um disco de verdade!’ ”, garantiu o executivo.

Disco na mão: E agora?

Ao final, o assunto se voltou para a questão do artista e para a proposta inicial do debate: “E agora, o que faço do meu disco?”. Nesse ponto, os debatedores defenderam a criatividade como proposta de trabalho.

Pena Schmidt comentou que a resposta para um artista conseguir uma carreira duradoura é a mesma de anos atrás: o público. O artista ”precisa, obrigatoriamente, encontrar o seu público. Precisa dirigir o trabalho na direção do público. É dele que virão todas as respostas, como empresários, contratos, discos, shows etc.”, comentou.

Para Silvio Pellacani, o músico deve procurar parceiros que conversem com sua proposta artistística. “Você tem de achar os seus pares. Deve buscar gravadoras ou distribuidoras que tenham um trabalho parecido com o seu, ou que trabalhem com algum artista com uma proposta parecida. Se todo mundo te negar, aí você tem de fazer por conta própria, mas tem de colocar o seu trabalho na rua”.

Benjamim Taubkin defendeu não haver fórmulas para a criação artística ou para a divulgação de venda dos trabalhos. “Queria dizer que o músico tem de pensar. Temos essa capacidade de criação, que deve ser utilizada em outras coisas”.

Abaixo, o vídeo com o debate na íntegra.

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