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“O cenário independente brasileiro está cada vez melhor”

A opinião é de Arthur Pessoa, vocalista da banda Cabruêra

texto Itamar Dantas

À esquerda, Arthur Pessoa durante a gravação do álbum. À direita, a capa do disco Nordeste Oculto. Fotos: divulgação

Com 14 anos de estrada, a banda Cabruêra já é velha conhecida no cenário alternativo nacional. Em 2012, o grupo lança o seu quinto álbum, Nordeste Oculto, inserido em um projeto mais amplo, Visagens Nordestinas, que explora traços religiosos do nordeste brasileiro por meio da música, da imagem e da literatura.

O disco vem acompanhado de um livro de fotografias de Augusto Pessoa, fotógrafo com extenso trabalho na região; e de textos relacionados à espiritualidade redigidos por Alberto Marsicano, músico brasileiro responsável por introduzir a cítara no país.

Músicas como “Aboio Indiano” e “Filhos do Vento” tratam do sincretismo entre religiões nordestinas e tradições orientais. As faixas são marcadas pela presença da cítara em meio ao cancioneiro popular e à música eletrônica. A banda Cabruêra é formada por Arthur Pessoa na voz, no violão e em outros instrumentos, Leo Marinho na guitarra, Pablo Ramires na percussão e Edy Gonzaga no baixo.

Em um bate-papo com o Álbum, Arthur Pessoa explica as diretrizes do novo trabalho e garante: “O cenário independente brasileiro está cada vez melhor”.

ÁLBUM - Conte um pouco do processo de criação do disco Nordeste Oculto e do projeto Visagens Nordestinas.
Arthur Pessoa -
Esse projeto nasceu a partir da amizade entre nós da Cabruêra e o citarista Alberto Marsicano. Ele trouxe essa ideia de fazer um disco que criasse uma relação entre a música nordestina e a oriental. Como nós tínhamos o projeto de um livro de fotografias do meu irmão, Augusto Pessoa, que teria trilha sonora da Cabruêra, resolvemos fazer um projeto de artes integradas, que unisse, a princípio, a música e a fotografia. Depois, o Marsicano sugeriu escrever os textos sobre o universo das músicas. A ideia foi abordar um tema místico, essa força da religiosidade no Nordeste. E, ao mesmo tempo, mostrar as conexões entre várias tradições religiosas e o universo oriental. O disco nasceu desse mote trazido pelo Marsicano. E, a partir daí, desenvolvemos o repertório, com algumas composições em parceria, e todas abordando esse tema do universo místico do Nordeste.

As fotografias do Augusto Pessoa foram selecionadas de um acervo de fotos produzido  por ele desde 2001. Vocês fizeram as composições com base nas fotografias? Como se deu essa parceria?
Na verdade, foi ao contrário: ele procurou fazer uma seleção de imagens que tivessem a ver com as músicas. Ele sempre teve inspiração na religiosidade, na crença dos nordestinos, isso faz parte do universo que ele aborda nas fotografias. O Marsicano também criou os textos com base no que estava sendo tratado em cada canção, e então a gente uniu a fotografia, a música e a literatura. O trabalho do Augusto acompanha o da banda Cabruêra desde o primeiro disco. Nós sempre utilizamos as fotografias dele como encarte dos nossos álbuns. O nosso disco anterior se chama Visagens (2011). O Augusto sugeriu esse título para uma exposição e nós pegamos emprestado para colocar no álbum. E então reaproveitamos o nome no projeto, Visagens Nordestinas. Como o disco ficou com o nome Nordeste Oculto, resolvemos chamar o livro de Nordeste Desvelado, fazendo essa brincadeira entre o que está escondido na música e o que se mostra por meio das imagens, da fotografia. Sempre que temos oportunidade, fazemos uma exposição das fotos juntamente ao show. E, quando não é possível a exposição, fazemos pelo menos a projeção das fotos durante as apresentações.

Você comentou da influência da música oriental no disco. Quais referências musicais desse universo distante vocês buscaram?
No caso da música oriental, a presença se dá pela cítara do Alberto Marsicano, que morou por muitos anos na Índia e é estudioso desse universo. Por exemplo, uma das faixas, “Aboio Indiano”, faz uma conexão entre o mantra do Oriente e o aboio nordestino. Mostramos que a origem do aboio nordestino é evidentemente oriental. É uma influência que veio com as caravelas, quando os portugueses vinham de Lisboa e passavam em Goa, na Índia portuguesa. Junto das especiarias, das frutas, eles trouxeram essa técnica milenar de tanger o gado. Então, essa harmonia sofisticada dos mantras está presente nos aboios também. Nessa música, convidamos o Chico César, da região do Catolé do Rocha (PB), que tem essa força do aboio. Marsicano gravou a cítara e Chico Correa fez a programação eletrônica. Em relação aos ciganos, tem uma música que se chama “Filhos do Vento”. Ela mostra toda a importância dos ciganos, sua sabedoria e seus conhecimentos, que se demonstra até hoje no Nordeste.

Você comentou que o Chico César fez uma participação no disco. Houve também outras participações, como Oliveira de Panelas, Chico Correa e Macaxeira Acioli. Como essas pessoas se somaram ao projeto?
Estamos sempre convidando pessoas que fazem parte do universo independente, como nós. O Chico César já tinha produzido um trabalho com o Marsicano, então já tínhamos uma amizade em comum e queríamos aproveitar a relação dele com o aboio. Convidamos também o Luiz Carlos Vasconcelos [ator paraibano] para gravar a vinheta que abre o disco, um poema do William Blake traduzido pelo Alberto Marsicano. Chamamos o Macaxeira Acioli e o Nildo Gonzalez, do Sonora Samba Groove, um grupo novo aqui da Paraíba; e o Chico Correa, velho amigo que já produziu o nosso terceiro disco e tocou conosco durante um bom tempo. São pessoas do mesmo universo, são amigos. E sempre agregamos pessoas com quem trabalhamos há alguns anos. O Erivan Araújo já tinha trabalhado conosco em outros álbuns e fez o arranjo dos metais. Haley Guimarães, tecladista da banda Burro Morto, produziu o disco. Dois integrantes da Cabruêra fazem parte dessa banda: o Pablo, baterista da Cabruêra, toca percussão, e o Leo Marinho, nosso guitarrista, também toca com eles. Ensaiamos no mesmo estúdio onde o CD foi gravado. Então, fizemos o trabalho nesse clima de irmandade com pessoas próximas.

Como anda a produção musical alternativa na Paraíba? E no Brasil?
Cada vez melhor. A Paraíba sempre contribuiu musicalmente para o país. Desde os tempos do Jackson do Pandeiro, do Geraldo Vandré, até a geração mais nova, com Chico César. E tem toda uma outra geração, de dez, 15 anos para cá, que está nesse universo da música independente e tem conseguido gravar, viajar, participar de festivais, mostrar o seu trabalho. Estamos vivendo uma época de fortalecimento dos coletivos culturais, circuito Fora do Eixo e festivais. Atualmente, artistas independentes têm a oportunidade de formatar o seu trabalho e dar continuidade: construindo uma discografia, viajando para outros estados, mostrando o seu trabalho até fora do Brasil. A Cabruêra já fez 11 turnês pela Europa; o Chico Correa acabou de voltar de um show na França; o Sonora Samba Groove está indo para a Espanha. O mercado está cada vez mais aberto para esses sons. Antes, os grupos apareciam e tinham muitas dificuldades: primeiro para gravar um disco, depois para conseguir lançar. E, geralmente, as bandas acabavam se desfazendo, por conta dessa dificuldade de conseguir criar sustentabilidade para o seu trabalho. Hoje em dia, o artista independente já começa visualizando uma possibilidade. Desde que tenha um trabalho legal, feito com profissionalismo, ele já consegue circular e criar o seu público a partir da própria região, sem precisar ir para o eixo Rio-São Paulo. Vivemos um momento muito bom para a música independente não só na Paraíba, mas no Brasil.

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