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“O brega habita o rock, o clássico e o pop”

Livro de contos Assim Você me Mata é inspirado na música cafona

texto Itamar Dantas

Cena do filme Domésticas (2001), dirigido por Fernando Meirelles e Nando Olival, que também é permeado pelo brega Foto: divulgação

Depois de ouvir uma música da banda goiana  Pedra Letícia, o editor Cláudio Brites propôs um desafio aos seus amigos do grupo Escritores de Segunda: criar contos sobre um único e amplo tema: o brega. Mas, ao lançar a ideia, começaram os questionamentos: “afinal, o que é o brega?”. Na apresentação do livro Assim Você me Mata, lançado em dezembro de 2012 pela Editora Terracota, Brites fala sobre o assunto, mas sem defini-lo concretamente. “Dar definições sobre o que é o brega é tão difícil quanto responder de onde viemos e para onde vamos”, diz Brites no início de seu texto. Porém, ao final, já garante com mais firmeza: “O brega nasceu numa bem dada no quartinho de empregada”.

Inspirados na temática, 20 escritores foram convidados a escrever os contos. Entre eles, Marcelino Freire, Xico Sá, André de Leones e João Anzanello Carrascoza. Sem ter uma definição fechada do que poderia ser brega ou não, o resultado é um livro heterogêneo. Logo no primeiro conto, Xico Sá narra a história de um casal que só discutia recitando letras de músicas, bregas, claro. O título, “Aparências, nada mais, sustentaram nossas vidas”, é uma referência à música “Aparências”, de Márcio Greyck. Afinal, como conta em sua história, “Em matéria de amor tudo já havia sido dito mesmo. Estavam certos. Só os estúpidos acreditam na criatividade quando o assunto é a vida a dois”.  Já em “O Jardim”, de Marcelo Maluf, a história gira em torno de um pinguim de geladeira que é transferido para a frente da casa e passa a conviver com os anões de jardim.

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Caio Silveira Ramos discute o brega pela forma de seu texto. Ao satirizar uma sinopse da peça Romeu e Julieta, Ramos escreve de um jeito diferente, com notas de rodapé muito maiores do que o próprio texto, ironizando os textos acadêmicos. “Criei uma forma de criticar uma coisa que acho brega, esse academicismo retórico e vazio. A gente vê muito trabalho acadêmico por aí com muitas notas de rodapé e pouco conteúdo. Para fazer um brega autêntico, tem de estar inserido no meio. Quem faz não acha que é brega”, diz o autor.

Em entrevista ao Álbum, o editor Cláudio Brites fala um pouco sobre o livro e as suas impressões sobre o brega no Brasil.

ÁLBUM - Como você chegou a esse tema? Teve algum motivo especial?
CLÁUDIO BRITES -
 Ouvindo o CD da banda Pedra Letícia. Gostei muito do trabalho que eles fazem revisitando o brega, dando ênfase ao que o brega tem de melhor: o humor. Sempre gostei do drama que o brega evoca, talvez por sempre ter sido um dramático, desses apaixonados cheios de pieguice. Ouvi a banda e escrevi um conto, então pensei que a ideia poderia dar frutos, talvez uma coletânea. Tenho um grupo literário em São Paulo, os Escritores de Segunda, que costuma executar alguns exercícios estabelecendo restrições de forma ou tema, e uma vez por ano, partindo de algo que apareceu no grupo, organizo uma coletânea, pego um tema que deu assunto e saio convidando autores conhecidos e desconhecidos. Foi assim que comecei a ser editor e dessa dinâmica surgiu o Assim Você me Mata. E me surpreendi com o resultado.

Tim Maia costumava falar que no Brasil música romântica é chamada de brega. Você concorda com essa afirmação?
Na apresentação do livro eu coloco a questão, que surgiu mais de uma vez na organização do livro: o que é o brega? E a única certeza que tenho é: a paixão é brega. Não tem jeito, quando apaixonados habitamos o arquétipo do brega, esse modelo existencialmente dramático e dolorido, cheio de cores fortes e suicídios. Contudo, o brega vai além: ele habita o rock, o clássico e grande parte do pop.

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Você fala do pop, do kitsch e do cult que viram brega, e vice-versa. É necessário o brega se revestir de outra descrição para ser aceito em outros meios?
Não é o brega que se reveste, são os outros que vestem o brega e lhe dão outros nomes e maquiagens. Depende de quem está costurando o cetim, ou de quem está cantando que “Esse Cara Sou Eu” e logo se dá outro nome. Sempre soube que o termo era marcado por disputas ideológicas, mas nunca imaginei quanto isso era forte até que o livro começasse a ser divulgado. Nem tudo o que é brega é popular, mas o brega é marcadamente ligado ao popular, ao povo da classe C e D. O brega “recupera-se” na mesma medida de seu público consumidor. Talvez seja mais uma questão de mercado que uma questão “política”, muito embora exista o desejo em alguns autores de tornar o brega “importante” politicamente, e há pontos levantados nesses trabalhos que eu concordo. Envelhecemos, adquirimos celulares e aparelhos de MP3 e queremos botar as músicas que ouvíamos no Chacrinha para circular novamente. Embora haja uma mudança do brega. Antes eram comuns as tragédias (amorosas, por falta de dinheiro, relacionadas a doença, filho, separação). Hoje, sumiram todas elas e, como diz um amigo, “sobrou só um trepa-trepa desgraçado e a mulher tentando cantar de galo para cima do homem (e vice-versa e versa-vice)”. Brega não é palavrão, essa é a questão.

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