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“Nossa música reflete aquilo que vivemos”

Acontecimentos políticos recentes inspiram novo álbum do Bixiga 70

texto Itamar Dantas

No segundo álbum, a banda paulistana Bixiga 70 homenageia o grupo Os Tincoãs. Foto: Nicole Heiniger

A big band Bixiga 70 lançou em 2011 seu disco de estreia e logo foi reconhecida como uma das revelações daquele ano. O som instrumental, carregado de referências africanas, com as guitarras rítmicas, as fortes percussões e os metais, os levou a ser identificados como uma referência do afrobeat, seguindo os passos do multi-instrumentista nigeriano Fela Kuti. No segundo álbum, homônimo, o grupo manteve as referências do primeiro trabalho, mas aumentou o volume das guitarras e da percussão, trazendo também outros elementos – indo da música do candomblé à Etiópia e ao carimbó paraense.

Os ensaios do grupo continuam no bairro do Bixiga, em São Paulo. Ali, a realidade se transforma em acordes de guitarra, em acompanhamentos percussivos e nas notas dos metais. O movimento Ocupaí Bixiga é reverberado na faixa “Ocupai”. Já as famosas cinco esquinas do bairro são traduzidas no título homônimo. “Retirantes”, por exemplo, foi composto baseado na desapropriação da comunidade de Pinheirinho, de janeiro de 2012, e nas recentes manifestações populares, de junho deste ano. Cris Scabello, guitarrista e compositor, comenta o processo criativo do grupo: “Nossa música reflete aquilo que vivemos. Estamos num período em que as desigualdades são muito evidentes e a música instrumental suscita muitas imagens. A relação com a cidade de São Paulo, sua beleza e sua brutalidade, pelo fato de ensaiarmos no Bixiga (centro de São Paulo), naturalmente transparece em nossa música, que, apesar de instrumental, carrega a mensagem de igualdade e esperança num mundo melhor. Esse dilema é questão central em nossa vida como cidadãos, músicos e atores sociais”.

A faixa que abre o novo disco é “Deixa a Gira Girar”, tema popular dos terreiros de umbanda e gravada pelo Os Tincoãs em seu álbum de estreia, de 1973. E foi nas pesquisas e nas trocas de sonoridades – hábito comum dos músicos – que a música integrou o repertório e entrou no novo disco.

Em entrevista ao Álbum, Cris Scabello comenta algumas peculiaridades da segunda empreitada do grupo.

ÁLBUM – Como chegaram ao tema “Deixa a Gira Girar”, gravada pelos Tincoãs, em 1973?
CRIS SCABELLO – Os Tincoãs são uma grande referência para o Bixiga 70 pela maneira maravilhosa como trabalham com a música de terreiro em suas composições – sendo esse um dos elementos fundamentais da música do Bixiga 70. Desde o começo da banda, a gente troca muitos sons, como forma de pesquisa, e quem trouxe essa música foi o Mauricio Fleury (teclado e guitarra), já com o arranjo para os metais baseado nas vozes da gravação original. Desde a primeira vez que tocamos essa música, ficamos com vontade de gravar, pois ficou com a nossa cara. “Deixa a Gira Girar” é uma canção muito forte, de abertura de trabalhos, e por isso é a faixa que abre o nosso segundo disco. É também um resgate desse grupo – pouco reconhecido aqui no Brasil e bastante cultuado lá fora –, da mesma maneira como fizemos com “Desengano da Vista”, de Pedro Santos, no primeiro disco.

A música “Retirantes” foi inspirada em Pinheirinho e nas manifestações populares de junho deste ano. Como a música de vocês reflete essas questões?
Nossa música reflete aquilo que vivemos. Estamos num período em que as desigualdades são muito evidentes e a música instrumental suscita muitas imagens. A relação com a cidade de São Paulo, sua beleza e sua brutalidade, pelo fato de ensaiarmos no Bixiga (centro de São Paulo), naturalmente transparece em nossa música, que, apesar de instrumental, carrega a mensagem de igualdade e esperança num mundo melhor. Esse dilema é questão central em nossa vida como cidadãos, músicos e atores sociais. Promovemos o Dia do Graffiti no Bixiga (parte do movimento Ocupaí Bixiga), que pensa a ocupação artística do bairro por meio de manifestações artísticas. Os acontecimentos no Pinheirinho e, mais recentemente, as manifestações de junho mexeram muito com a gente. Fomos todos às ruas e estamos sempre conversando sobre o momento que vivemos. Sem pretensão, mas com a consciência de nosso papel como cidadãos, achamos importante utilizar nossa música como elemento de transformação.

Há outra música que tenha alguma história curiosa, seja no processo de composição, seja nas inspirações?
Como falei, a relação com o bairro do Bixiga e a cidade de São Paulo é muito presente em nossas músicas. No primeiro disco em “Balboa da Silva” (Cris Scabello), fizemos uma homenagem ao lutador Nilson Garrido. Ele tinha uma academia de boxe aqui do lado do estúdio Traquitana e tirou muita gente da rua. Nesse segundo disco uma das faixas se chama “Ocupai” (Rômulo Nardes e Cuca Ferreira), uma referência ao movimento que citei, o Ocupaí Bixiga (que, por sua vez, é uma referência tupiniquim ao Ocupy Wall Street). Também tem ”5 Esquinas” (Décio 7), que fala de uma esquina famosa aqui no Bixiga. Outra história que acho bonita é a da faixa “Isa” (Marcelo Dworecki), que encerra o disco e é a mais diferente de todas: uma homenagem à filha do Marcelo (baixo).

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