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“Música Eletrônica”, de Jorge Antunes, será relançado

Disco de Jorge Antunes lançado em 1975 será relançado pelo selo Guerssen Records

texto Itamar Dantas

Jorge Antunes no Laboratório de Música Eletrônica do CLAEM (Centro Latinoamericano de Altos Estudios Musicales), em Buenos Aires. Foto: divulgação.

O disco Música Eletrônica, de Jorge Antunes, será relançado na Espanha pelo selo Mental Experience, vinculado ao selo Guerssen Records. Com influências dos compositores eruditos Pierre Henry, Pierre Schaffer e Stockhausen, Jorge Antunes se utilizou de aparatos que construiu durante sua formação musical no Brasil, na Argentina e na França, entre as décadas de 1960 e 1970. O disco é pioneiro da música eletrônica no Brasil.

O relançamento trará novidades e uma correção histórica. No álbum, lançado em 1975 pela Mangione Discos, dois temas que sofreram cortes para evitar problemas com a ditadura militar terão seu conteúdo apresentado de forma integral. “As duas obras continham trechos musicais com sons que se reportavam aos generais e com citação da Internacional Comunista”, conta Jorge Antunes.

Para Alex, do selo Guerssen Records, o relançamento se dá pela qualidade sonora do álbum, que, com pouquíssimos recursos, apresentava uma música à frente de seu tempo: “Essa capa misteriosa e interessante me chamou a atenção. E, quando escutei, fiquei encantado. Como pode ser que uma pessoa no Brasil, durante aqueles tempos difíceis, criasse obras eletrônicas e eletroacústicas tão impressionantes e com tão poucos recursos? Além disso, soa anos à frente de seu tempo. Há faixas de Música Eletrônica, como “Valsa Sideral” (1962) ou “Auto-Retrato sobre Paisaje Porteño” (1969-1970), que soam muito semelhantes a algumas das músicas eletrônicas minimalistas das décadas seguintes. Muito incrível”. A arte da capa é do artista visual Joselito, que assinou capas de diversos artistas nos anos 1960 e 1970 no Rio de Janeiro.

Em entrevista ao Álbum, Jorge Antunes fala um pouco sobre Música Eletrônica.

ÁLBUM – Quando foram compostas as obras que estão no disco?

JORGE ANTUNES – O vinil conterá as mesmas obras do vinil original. São três realizadas em meu estúdio no Rio de Janeiro – “Pequena Peça para mi Bequadro e Harmônicos” (1961), “Valsa Sideral” (1962) e “Contrapunctus contra Contrapunctus” (1965). E duas realizadas no Laboratório de Música Eletrônica do Claem do Instituto Torcuato Di Tella, em Buenos Aires: “Auto-Retrato sobre Paisaje Porteño” (1969-1970) e “Historia de un Pueblo por Nacer o Carta Abierta a Vassili Vassilikos y Todos los Pesimistas” (1970).

Poderia descrever brevemente alguns dos aparatos que utilizou nas obras?

Nas três realizadas no Rio de Janeiro, usei equipamentos construídos por mim: gerador de ondas dente de serra, teremim e reverberador de mola. Trabalhei com gravadores de rolo amadores: Phillips, Geloso e National.

Nas duas realizadas em Buenos Aires, usei equipamentos profissionais do Claem: geradores de onda senoidal, filtros de terça e de oitava, modulador em anel, envelope follower e reverberador de placa. Usei também voz humana (minha voz) e o trecho de um tango de Francisco Canaro, de um disco antigo e defeituoso. Trabalhei com gravadores profissionais Ampex.

Na época, quais foram as influências musicais diretas de sua pesquisa para a construção dos temas?

Foram minha teoria da correspondência entre sons e cores, além de obras eletroacústicas de Pierre Henry, Pierre Schaffer e Stockhausen.

Como se deu a sua decisão de realizar cortes nas obras “Historia de un Pueblo por Nacer o Carta Abierta a Vassili Vassilikos y Todos los Pesimistas” e “Auto-Retrato sobre Paisaje Porteño”?

Entre 1969 e 1974, vivi em exílio no exterior, com bolsas da Olivetti Argentina, do governo holandês e do governo francês. Estava em Paris, no Groupe de Recherches Musicales (GRM), e começando o doutorado quando me convidaram para dar aulas na Universidade de Brasília (UnB). Aceitei voltar ao Brasil, decidindo praticar a autocensura para sobreviver. As duas obras continham trechos musicais com sons que se reportavam aos generais e com citação da Internacional Comunista. Cortei esses trechos para a edição em vinil (1975).

Há planos de relançar o disco no Brasil?

Eu não tenho planos para isso. Ouvi dizer que alguns empresários estão começando a fabricar, de novo, edições em vinil. Mas não os conheço.

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