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Lenine, Grupo Corpo e os limites

Pela segunda vez, músico é o autor de trilha sonora da companhia mineira de dança

texto Itamar Dantas

Cena do espetáculo Triz, com trilha sonora assinada por Lenine. Foto: divulgação

O Grupo Corpo apresenta em São Paulo seu novo espetáculo, Triz. Por meio dele, questiona limites: da própria criação, do cenário e dos bailarinos. Lenine é o compositor da trilha sonora e, desta vez, criou sua obra somente com instrumentos de cordas. Sons de violinos, violões, pianos e berimbaus embalam os corpos.

É a segunda vez que Lenine faz a trilha para um espetáculo da companhia mineira de dança contemporânea. A primeira experiência se deu em Breu, em 2007, e foi a mais complicada, como afirmou em entrevista ao Álbum, já que estava lidando pela primeira vez com a linguagem da dança. Segundo o músico, na segunda empreitada as coisas ficaram mais fáceis. “A segunda experiência com o grupo Corpo foi infinitamente mais divertida e por isso todo o processo foi menos sofrido. Da primeira vez, com Breu, até achar o tom e o relevo da trilha foi um pouco mais penoso; era minha estreia nesse tipo de expressão, a dança. Natural que eu tenha me sentido mais à vontade para voar mais alto e ir mais fundo na criação da trilha”, conta o compositor.

>> OUÇA A PLAYLIST “SONS DO CORPO” 

Lenine é apaixonado por instrumentos de cordas e, durante sua carreira, foi colecionando violões, cavaquinhos, violas de 10 e 12 cordas, balalaicas, berimbaus. Como motor para sua criação, o músico resolveu tirar desse banco de sonoridades todos os timbres que ambientam o espetáculo. “Esse é um banco de sons muito interessante, e foi o estímulo inicial do projeto. Já a composição da trilha foi uma experiência nova e especial para mim; fiz inspirado na mecânica do fazer operístico, um tema central que vai se desdobrando de infinitas maneiras, como movimentos de uma mesma melodia”, conta. O músico pegou uma frase musical e a levou às últimas consequências, repetindo, colocando de trás para a frente, espelhando… No acréscimo de inúmeras camadas sonoras das cordas, ainda se pôs a alternar ritmos, andamentos, criando uma atmosfera de contrapontos e melodias complementares.

Foram as circunstâncias que levaram o Grupo Corpo a chamar seu novo espetáculo de Triz, afinal, por um triz o grupo não conseguiria se apresentar em 2013. Em fevereiro, quando recebeu a trilha sonora de Lenine e iniciava os ensaios, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras teve de se ausentar para uma cirurgia no ombro. Em maio, estourou o joelho e teve de fazer outra cirurgia. Assim, o coreógrafo precisou mudar seu jeito de trabalhar com os dançarinos. Antes, ensinava na prática, demonstrando o que pensava no próprio corpo. Já com os movimentos limitados, verbalizou suas ideias. Com os problemas, a estreia foi adiada e o que era para ser um fardo se tornou a proposta da peça: os limites do tempo, da criação e do próprio ser humano são os questionamentos que dão a tônica a Triz.

“Nessa situação, com tudo no limite, o Pedro [Pederneiras, irmão do coreógrafo, iluminador e cenografista] começou a criar umas coisas, com um cenário que foi me dando elementos para eu trabalhar dentro dessa ideia. Ele criou um cenário que questiona os limites do palco. Uma cortina de cabos de aço, em que os dançarinos se apresentam tanto na frente quanto atrás dela. E aí nós fomos trabalhando com essa ideia”, revela Rodrigo. O figurino também investiga os limites do corpo dos bailarinos. “A Freusa [Zechmeister, figurista da companhia] teve uma sacada genial. Quando acontece uma coisa em duo, ou trio, as pernas se confundem. Não dá para perceber onde começa um bailarino e termina outro”, elogia Pederneiras.

O espetáculo está em cartaz em São Paulo até o dia 29 de novembro, no Teatro Alfa. Além de Triz, o grupo apresenta o espetáculo Parabelo, de 1997, com trilha sonora composta por Tom Zé.

  1. Olé,olé,olé!!! Para cuando el grupo Corpo en Catalunya y España? OS ESPERAMOS. Enhorabuena por vuestro trabajo.

    | Carles

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