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Irene pede licença

Primeiro álbum da cantora Irene Bertachini traça paralelos com obra de Manuel Bandeira

texto Itamar Dantas

Irene Bertachini lança álbum de estreia com bases na cultura popular e temáticas infantis. Foto: divulgação

Na poesia de Manuel Bandeira “Irene no Céu”, a protagonista pede licença para entrar no paraíso. A Irene dos versos, preta, boa e sempre de bom humor, ganha o aval do porteiro, São Pedro, sem pestanejos: “Entra, Irene, você não precisa pedir licença”. E é seguindo os atos da xará dos versos que a Irene Bertachini, de Belo Horizonte, pede licença para chegar com seu primeiro álbum solo: Irene Preta, Irene Boa, disponível para download gratuito em seu site.

Não é só o seu nome na poesia de Manuel Bandeira que levou Bertachini a se identificar com a obra. A Irene de Bandeira é negra e há na poesia um caráter de submissão e de libertação, expresso no fato de ela ter de pedir licença para entrar no paraíso. E a Irene cantora sempre se identificou com a cultura negra. Na outra proposta musical da qual faz parte, o grupo Urucum na Cara, o congado e outras manifestações populares são os pilares.

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“Conheço essa poesia do Bandeira desde criança. Mas eu só fui entender que o que ele escreveu tinha a ver com a cultura negra e com a submissão, que ela pedia licença para entrar no céu, há pouco tempo. E essa coisa da licença também tem outro aspecto. Quando vai se iniciar um ritual na cultura negra, eles pedem licença aos seus antepassados para começar, e eu peguei esse paralelo pedindo licença para começar um trabalho solo”, conta Irene.

Irene assina 8 das 13 canções de seu álbum, com parceiros que integram a nova geração de músicos da cena de Belo Horizonte. Entre os compositores presentes estão Gustavo Amaral, Leandro César, Luiza Brina, César Lacerda, Bernardo Maranhão, Makely Ka e Rafael Pimenta, além dos veteranos Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro. A atmosfera colaborativa do disco, segundo Irene, é um reflexo do companheirismo dessa nova cena musical da capital mineira. “É muito legal poder trabalhar em conjunto. Você se sente em uma cadeia de amigos que estão querendo trabalhar juntos. Eu e mais três amigos criamos o Festival Palavra Som. E isso foi muito representativo, porque a gente viu como as pessoas se ajudam. É muito gostoso! Vou à rádio e levo o CD de um amigo. O outro leva um amigo para cantar uma música no seu show. A gente cria o nosso próprio espaço”, explica.

Nos arranjos destacam-se os instrumentos feitos pelo parceiro Leandro César, pupilo de Marco Antônio Guimarães, do Uakti. As marimbas d’angelim e de porcelanato se mesclam a um instrumento chamado planetário e mesmo os simples sons de garrafas entre sopros e batidas podem ser ouvidos na incidental “Oração”. E, em meio às canções, há espaço para o imaginário fantástico infantil; e a poesia de Manuel Bandeira está sempre lá, entre todas as composições.

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