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Imperfeições à Guinga

Compositor carioca comenta seu primeiro álbum gravado somente com voz e violão

texto Itamar Dantas

Guinga durante apresentação de seu novo disco em show realizado no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Foto: Itamar Dantas

Guinga lança o primeiro disco solo de sua carreira: Roendopinho. Outros álbuns já foram lançados levando seu nome, este, no entanto, é o primeiro registro apenas com o artista e seu violão. Gravado na Alemanha, na cidade de Osnabrück, em dois dias e meio, o Roendopinho vem sem maquiagens e com poucas interferências na pós-produção. O músico apresenta 15 temas registrados apenas com as cordas e os vocalises.

O violonista estava fazendo uma turnê pela Europa com o Quinteto Villa-Lobos quando surgiu o convite da Acoustic Music Records, do também violonista alemão Peter Finger. Com pouco tempo para gravar e trabalhar o álbum, Guinga chegou a hesitar em assumir o projeto, mas acabou topando: “O cavalo passou selado, monta”, resume.

No repertório, temas novos e antigos de sua autoria se misturam, revelando um pouco da obra do compositor. Entre músicas que fez para a filha (“Constance Nº 2″) e para o pai (“Sargento Escobar”), há espaço para temas mais recentes, como a “Pucciniana”, em homenagem ao compositor Giacomo Puccini (1858-1924) ou “Elingtoniana”, tributo a outro ídolo, Duke Ellington.

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O nome do álbum, Roendopinho, une duas palavras para formar uma aglutinação com referência à madeira usada para construir muitos violões, o pinho. “Minha vida com o violão é essa. Aprendi a tocar violão assim, roendo pinho mesmo”, ressalta. Confira a entrevista exclusiva cedida ao Álbum.

ÁLBUM – Conte um pouco sobre o novo disco. 
GUINGA – Eu estava fazendo uma turnê com o Quinteto Villa-Lobos pela Europa quando surgiu esse convite. É pegar ou largar. A vida é assim, né? O cavalo passou selado, monta. Preciso trabalhar e surgiu a oportunidade de gravar um disco sozinho… É um retrato meu, não tem maquiagem, não! Ficam evidentes as minhas dificuldades com as qualidades positivas também. Esse disco tem três emendas somente. O resultado artístico vale a pena, mas o resultado técnico poderia ser muito melhor. Se dispusesse de tempo para fazer todas as emendas necessárias, mexer no Auto-Tune [programa de áudio para ajustar imprecisões e erros], fazer tudo o que todo mundo faz… Quero dizer, o que todo mundo faz não; mas, sim, utilizar tudo o que se tem disponível hoje em dia. As circunstâncias foram essas. Achei que deveria fazer porque trabalho assim. No fim, fiquei propenso até a não deixar por conta de um preciosismo, de que tudo tem que estar perfeito. Mas não sou perfeito. Sou esse cara aí mesmo. É um retrato real de mim. Também me emocionei com o disco, cheguei a chorar em algumas partes. Isso é uma coisa rara. Não choro com os meus discos; nem os escuto.

E essa decisão de fazer um disco sozinho… É uma necessidade que você já tinha?
Eu tinha que fazer isso. Não foi totalmente do jeito que eu quero fazer ainda no Brasil. Quero fazer um disco com a minha voz cantando as minhas canções. Este é um disco instrumental, ele tem canções, mas eu não canto a letra, eu só vocalizo.

Sua gana de criação continua? Continua roendo pinho?
O título do álbum é outra declaração. Continuo roendo pinho. Gostou do título? Minha vida com o violão é essa. Aprendi a tocar violão assim, roendo pinho mesmo.

A “Pucciniana” tem uma harmonia muito difícil…
A “Pucciniana” me emociona. Ela foi composta de um dia para o outro. Nos últimos tempos nem é uma característica minha compor assim de relance. Eu me emocionei muito com essa música. Tinha acabado de compor e achei que deveria cantá-la como vocalise. O Thiago Amud está fazendo uma letra para ela.

Depois de ter tido contato com tantos músicos do mundo, sua forma de compor mudou?
O artista quando é verdadeiro fala de si mesmo. Vou continuar falando de mim, da minha vida, através da música. Falo das pessoas que amo, das coisas que acontecem. Falo do meu cotidiano. Já que não sei verbalizar em palavras, verbalizo com a forma musical. Não sou diferente de ninguém, não, não sou especial. Dizem que minha música é nova, não tem nada disso. Não acredito nisso. Primeiro pelos caras que eu gosto: Ravel, Stravinsky, Villa-Lobos, Tchaikovsky, Chopin… Tanta coisa moderna, tanta maravilha que se fez. Mas isso não invalida de eu estar acompanhando o que está acontecendo. Se você me perguntar quem está na ativa que eu gosto, posso te falar. Adoro o russo Nikolai Kapustin e tantos outros que estão aí fazendo uma música arrojada, moderna.

Algo a acrescentar com relação ao disco?
O disco é isso mesmo: sou um cara nervoso, imperfeito, mas me emociono muito. Tem uma música que fiz para o meu pai, “Sargento Escobar”. A valsa que fiz para minha filha, “Constance Nº 2″. Já estou louco para fazer outro disco de inéditas. Já tem repertório pra caramba. Uma das novas é uma moda de viola em homenagem a essas músicas interioranas paulistas. Tenho composto muito com o Thiago Amud.

O que você tem ouvido de novo?
Estou sempre procurando ver o que me emociona. Uma vida só é muito pouco para você conviver com a grande música. Há compositores de quem nunca ouvi falar, e quando você ouve diz: “Meu Deus, preciso saber quem é”. Por exemplo: Alexander Kukelka. Eu o descobri num documentário sobre formigas. Aí pedi a uns amigos para me ajudar a procurar, descobri que esse cara é um fera. Vivo correndo atrás de coisas novas para ver se melhoro o que consigo fazer. Não é para fazer coisa nova, não, é para melhorar mesmo. Música vem pela música também. Você se engravida da música e acaba criando a sua própria. E, segundo, a vida é vivida, né? Se você sai pela rua, o que não falta é estímulo para a composição. Ou vem pela própria música ou vem pela vida. Não tem outro jeito.

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