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Giana Viscardi lança terceiro álbum

Orum, novo álbum da cantora, tem arranjos de Letieres Leite e abre espaço à tradição baiana

texto Itamar Dantas

Giana Viscardi e a capa de seu novo álbum, Orum. Fotos: divulgação

Giana Viscardi chega ao seu terceiro álbum em 2013. Produzido por Alê Siqueira e com arranjos de Letieres Leite, Orum (que na língua iorubá significa céu ou paraíso) faz a ponte entre a compositora e a intérprete, com cinco canções assinadas pela cantora [e o violonista Michi Ruzitschka], seis interpretações de músicas de Chico César, Celso Viáfora, Dani Black e Caê Rolfsen e uma releitura de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Desta dupla, a composição escolhida foi “Canção do Amor que Chegou”, gravada apenas no LP da peça Pobre Menina Rica, de 1964.

O primeiro álbum de Giana foi lançado em 2001. Tinge já revelava o seu lado autoral. Recém-chegada dos Estados Unidos, onde estudou na Berklee College of Music, a cantora viu sua obra inicial conquistar ótimos comentários. Arnaldo Antunes, o padrinho musical Chico César e o crítico Carlos Calado foram receptivos ao seu trabalho. Quatro anos depois, ela apresentou o segundo disco, 4321, em que privilegiou mais uma vez suas composições. Das 12 canções do álbum, apenas uma não era de sua autoria, “Vem Morena”, de Luiz Gonzaga.

Para o seu mais recente álbum, os arranjos de Letieres Leite foram feitos com base no já consagrado trabalho de sua Orkestra Rumpilezz. O maestro criou os arranjos identificando as claves de ritmos que melhor se encaixavam às canções de Giana. “Era pérola cada frase melódica que vinha da inspiração do maestro”, confessa.

Do repertório de 45 canções que a cantora dispunha, foram selecionadas as que integrariam o disco, unidas às canções de compositores contemporâneos, já citados. No aspecto visual, outra característica dá contornos únicos à sua obra: ela mesma confeccionou as dez gravuras que compõem a capa e o encarte do disco. Em entrevista ao Álbum, Giana comenta as particularidades de Orum.

ÁLBUM – Quando começou a produção do disco?
GIANA VISCARDI – Conheci Letieres e a Rumpilezz, em São Paulo, na Virada Cultural em 2009. Fiquei apaixonada por aquele som. Naquele dia já empatizamos de imediato e ficou uma vontade de trabalharmos juntos. Meses depois, chamei o Alê Siqueira e nós três começamos a imaginar o repertório (eu tinha 45 composições minhas inéditas) e a arregimentação. Era São João de 2010 quando fui a Salvador para junto do Letieres Leite e do Jurandir Santana começar a esboçar os arranjos das canções escolhidas. Era pérola cada frase melódica que vinha da inspiração do maestro.

Qual é a marca que o Letieres Leite traz ao trabalho?
Letieres pensou este disco para que ele fosse permeado de silêncio, para que os instrumentos fossem tocados “na ponta do dedo”. Ele traz também arranjos baseados em ritmos centrais da cultura afro-brasileira. E tudo isso faz o Orum soar fresco, inédito.

A música “À Espera” você fez pensando no universo feminino para uma adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, certo? Que outras canções do álbum você poderia destacar? Há histórias curiosas sobre alguma outra canção?
Ah! Toda canção tem uma história. “Silêncio”, por exemplo, é a mais antiga das minhas composições. Era para ter entrado no meu primeiro disco, Tinge, de 2001, e mesmo para o 4321, meu segundo disco, de 2005, mas ela parecia não ficar pronta. Procurei parceiros, poetas, mas todos diziam que ela estava finalizada. Resolvi gravar daquela maneira e ainda não estava 100% convencida dos primeiros versos. E foi no estúdio, nos últimos segundos antes do registro definitivo da canção, quando os músicos esperavam em silêncio a palavra “gravando” do produtor, que me vieram os versos que faltavam. Parece até que um anjo passou por ali para soprar em meus ouvidos o que durante anos eu procurava.

Gostaria de acrescentar alguma coisa em relação ao álbum? 
Orum significa céu em iorubá, tanto no sentido concreto quanto no figurado. Na verdade, ele é um grande sonho realizado. Orum também nos remete a “ouro”, e esse trabalho de fato foi feito com um cuidado de ourives. Cada detalhe foi tratado com o maior carinho. A capa, por exemplo, foi ilustrada por mim e levou um ano para que eu finalizasse as dez gravuras que ilustram o encarte.

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