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“Ficar preso à história oficial é uma coisa perigosa”

Livro de Amaral Júnior traz pesquisa inédita sobre a história do choro em São Paulo

texto Itamar Dantas

O bandolinista Izaías de Almeida (centro) durante a Virada Cultural 2013, no Mercado Municipal em São Paulo. Foto: divulgação

O choro tem suas origens comumente relacionadas ao Rio de Janeiro, tendo como marco inicial o ano de 1870 com a figura do compositor e flautista Joaquim Antônio da Silva Callado. Segundo relatos históricos, o choro é o primeiro ritmo urbano “tipicamente” brasileiro, oriundo das classes trabalhadoras emergentes no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

Graças a essa ligação entre o gênero musical e a capital fluminense, poucos estudos sobre o choro foram realizados fora do Rio. E, pensando em suprir essa lacuna com relação à cidade de São Paulo, onde o gênero sempre esteve presente nas rodas de choro de bairro, em festivais de música e na televisão, foi lançado um livro que investiga a relação entre o ritmo e os mestres paulistanos do gênero.

José de Almeida Amaral Júnior é quem se arriscou a mergulhar na obra dos chorões de São Paulo com o livro Chorando na Garoa – lançado de forma independente –, que ganha as ruas pela editora Livro Novo. Economista, com formação nas áreas da política e da sociologia, o professor universitário sempre foi fanático por música. Estudou clarinete na Universidade Livre de Música (ULM) e é um assíduo frequentador das rodas instrumentais dos chorões na capital paulista.

>> OUÇA “ESPECIAL JACOB DO BANDOLIM”

Entre os personagens fundamentais do choro paulistano estão Antônio D’Áuria, um dos fundadores de um dos principais grupos da cidade de São Paulo – o Conjunto Atlântico, responsável pelo acompanhamento instrumental em diversos programas da TV Cultura.

Na casa de Antônio D’Áuria, no bairro Casa Verde, havia uma roda de choro conhecida pelos instrumentistas do Brasil. Quem vinha tocar em São Paulo entre os anos 1950 e 1980 sempre passava por lá para dar uma canja, como Dino 7 Cordas, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, Altamiro Carrilho e o pessoal do grupo Época de Ouro.

Ainda moleque, Izaías do Bandolim começou a frequentar as rodas de choro na casa de D’Áuria. Chegou a tocar ao lado de vários desses grandes nomes que por lá passaram e integrou o Conjunto Atlântico. Depois, fundou o Izaías e seus Chorões, grupo que segue em atividade. Foi a partir de suas indicações de personagens e de suas memórias que o livro de Amaral Júnior foi se desenhando. Na segunda parte da publicação, há uma compilação de entrevistas feitas pelo pesquisador com inúmeros representantes do choro na capital paulista, como Laércio de Freitas, Nailor Proveta, Zé Barbeiro, Toninho Carrasqueira e Antônio Gallani.

No centro de São Paulo, duas rodas de choro são também fundamentais. A da Casa Del Vecchio, fabricante de instrumentos de cordas, que tinha em uma de suas lojas uma roda de choro aos sábados. E a da loja Contemporânea (R. General Osório, 46 – Centro), que ainda hoje recebe dezenas de instrumentistas e admiradores do gênero todos os sábados de manhã. Enquanto essas duas rodas de choro existiam, era comum que todos os frequentadores da Del Vecchio saíssem em passeata rumo à roda da Contemporânea depois que a primeira fechava suas portas. “Eu já vinha pensando na ideia de fazer o livro há algum tempo, e foi quando o Miguel Fasanelli, dono da Contemporânea, faleceu, que falei: é a hora! Em 2009 iniciei os trabalhos”, conta Amaral.

Abaixo, um trecho da entrevista cedida por Amaral Júnior ao Álbum.

ÁLBUM Como se inicia a história do choro em São Paulo?
Amaral Júnior – Em 1876 você já tem um registro do choro, via imprensa, em Santos. O primeiro registro é atribuído ao Antônio Callado, por volta de 1870, no Rio de Janeiro. E aí surge a pergunta: será que eles foram os primeiros mesmo? O Carlos Henrique Machado Freitas tem uma pesquisa muito interessante no Vale do Paraíba, em que ele aposta que a origem do choro se dá de uma maneira ampla pelas fazendas de café. Ou seja, o Vale não é carioca, paulista ou mineiro. São os três, é uma região. E os negros tocando nas bandas. E muitos desses fazendeiros tinham bandas que tocavam em festas religiosas. E os negros aprendiam música. Quem é o Callado? É um negro. Quem é Anacleto de Medeiros? É negro. São músicos negros. São cariocas que têm a influência da cidade nova do Rio de Janeiro, que tem a influência dos negros que vieram da Bahia. Ou seja, fazendas de café, mobilização de negros, cruzamento da expressão negra com a música europeia, isso resulta no choro. Polca europeia tocada por brasileiro. Callado era mulato, Chiquinha Gonzaga era mulata. A tese do cara é boa. O ciclo econômico do café tem a ver com a criação do choro. É lógico que o carioca não consegue conceber a criação do choro do lado de fora do núcleo deles. Mas como brasileiro e curioso você tem de ir atrás. Ficar preso à história oficial é uma coisa perigosa. E a gente tem de ir atrás de outras referências que podem nos dar coisas excepcionais.

São Paulo teve algum período de mais proeminência no choro?
Existe uma entrevista com o Jacob do Bandolim retratada no livro, em que ele diz que viver de música no Rio de Janeiro estava difícil e que ele queria ir para São Paulo. Isso por causa da bossa nova e da jovem guarda que estavam no topo do mercado por lá. Nos anos 1970, São Paulo foi um referência interessante para o choro. O Conjunto Atlântico estava funcionando na época; a rede Bandeirantes promoveu dois grandes festivais nacionais de choro aqui em São Paulo. Quando o conjunto acaba, o sr. Izaías monta o Izaías e seu Chorões. Ele é, por exemplo, o primeiro cara que grava Beatles em choro, na virada dos anos 1960 para os anos 1970.

O livro está à venda na Livraria Cultura e diretamente com o autor (chorandonagaroa@gmail.com).

  1. Dado importante:
    No domingo, 29 de setembro de 2013, os 60 anos de carreira de Izaías do Bandolim ganharam homenagem no centro de São Paulo, na Praça das Artes, onde ele se apresentou com seu regional e convidados. E também foi feito, em conjunto, o lançamento do primeiro livro sobre o choro local: “Chorando na Garoa – Memórias Musicais de São Paulo”, inclusive, motivo desta matéria no espaço do Itaú Cultural . Foi uma publicação especial em pequena tiragem pela Fundação Theatro Municipal de São Paulo, que muito nos honrou.
    Obrigado.
    Prof. José Amaral

    | José de Almeida Amaral Júnior
  2. Antonio Amaral e Tânia Maria Amaral, existe uma pesquisa realizada pelo Carlos Poyares embora simples mas com informações fundamentais registrada no gravação do LP duplo “Real História do Choro” pela Clam Discos – Continental – CLAM – Clube dos Amigos da Música – formado e gerenciado pelo Zimbo Trio. Vocês conhecem este LP? Pois bem, na realidade não é fato consumado que a origem do Choro tenha sido através de Callado com o seu Choro “Flor Amorosa” mas sim atribuído a ele de acordo com os registros mais antigos que se teve acesso. Há sim a possibilidade de alguém ter composto algo cujas características musicais sejam as do CHORO. O CHORO está muito mais intimamente ligado à história da sociedade carioca desde a época em que Dom João IV preparava-se para a vinda ao Brasil. Esta discussão sobre a origem do Choro ela é muito mais complexa do que a simples atribuição a uma pessoa porém, muito mais relacionado à sociedade que se formava bem antes do “Flor Amorosa”. Acredito que uma pesquisa com bases nesta sociedade que se formava na época pré-Dom João IV até o final do século XIX pode ser uma fonte de informações muito importante mesmo que subjacentes. De fato, o Choro começou a surgir após os músicos tentarem reproduzir as músicas europeias de sucesso na época a seu modo e com instrumentos musicais mais acessíveis pois nem todos tinham condições de possuírem pianos, violinos, violas, violoncellos e outros em suas casas portanto, não me parece correto atribuir o surgimento do Choro a uma pessoa ou a uma data mas sim a um período da história onde muitos fatores colaboraram. Bom… esta discussão vai muito mais além ainda ! É necessário um estudo muito mais profundo incluindo mais vertentes para podermos emitir algum juízo de valor. ABRAÇOS !

    | Flair J. Carrilho S.
  3. Desculpem-me! O correto é “Dom João VI” !

    | Flair J. Carrilho S.

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