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Feitiçarias a 78 rotações

Projeto Goma-Laca lança álbum e promove show com repertório de discos de 78 RPM

texto Itamar Dantas

Disco e show apresentam reinterpretações de músicas afro-brasileiras gravadas entre 1920 e 1950. Foto: divulgação

O projeto Goma-Laca, encabeçado por Ronaldo Evangelista e Biancamaria Binazzi, teve início em 2009 e, desde então, pesquisa músicas das primeiras décadas do século XX gravadas em discos de 78 rotações. O início do trabalho se deu no acervo da discoteca Oneyda Alvarenga, idealizada por Mário de Andrade e localizada no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista. Depois de dois shows e um vasto leque de informações publicadas no site do projeto, o Goma-Laca lança um álbum com regravações de músicas afro-brasileiras gravadas entre 1920 e 1950 com show de lançamento e outras atividades no próximo dia 23 de agosto no Centro Cultural São Paulo.

No álbum, disponibilizado na íntegra na internet, Juçara Marçal, Russo Passapusso, Lucas Santtana e Karina Buhr dividem as reinterpretações de 11 músicas de feitiçaria, termo cunhado por Mário de Andrade e utilizado para definir as composições que constam no repertório, indo do candomblé à macumba e passando por outros motivos folclóricos. Em entrevista ao Álbum, Ronaldo Evangelista comenta as diretrizes do projeto e conta um pouco sobre o processo de produção e os resultados alcançados.

ÁLBUM – Conte um pouco sobre o início do projeto Goma-Laca. 
RONALDO EVANGELISTA – O projeto como ideia de centralizar a pesquisa, com o nome mesmo Goma-Laca, começou em 2009 quando conheci a Biancamaria. Eu trabalhava na Rádio Cultura, criando um site deles. Atualizei a programação, fiz o programa Cultura Livre. A Biancamaria comandava o 78 RPM. E eu já tinha esse interesse fortíssimo. É raro achar gente interessada nesse universo, que não seja pelos caminhos de sempre. Não que não sejam maravilhosos. Estou falando de Carmen Miranda, Pixinguinha, das marchinhas de Carnaval, de Ary Barroso. Essas coisas são maravilhosas, mas o Goma-Laca nasceu mesmo como um projeto quando eu e a Biancamaria começamos a conversar sobre isso. Muitas coisas já estavam plantadas ali, há quase cem anos, e não tinha muito trabalho dedicado a isso. Começamos a fazer o site, a falar com as pessoas, a agregar acervos, e em 2011 fizemos o primeiro show, que foi o primeiro resultado prático, com direção e participação do Thiago França, com o Sambanzo.

Como você foi fechando nesse universo da música afro-brasileira?
Em 1927 é quando chega a gravação elétrica no Brasil. Então muda muito a qualidade das gravações; em 1927, 28, 29 começa a nascer a música moderna brasileira. Começam as primeiras gravações com microfone. Nesse período, entre 1927 até o final dos anos 1940, há muitas coisas novas – época em que se começou a gravar. Eram muitos pontos de vista. E com certeza a cultura afro-brasileira era uma das coisas mais fortes, em vários sentidos. Se você pensar que o próprio samba vem da Bahia, da Tia Ciata, das baianas do morro da pequena África… o próprio Pixinguinha, um arranjador supremo. Era muito recente também a Abolição. Estamos falando de 1928. É claro que o interesse por essa cultura afro-brasileira vem de uma curiosidade nossa, mas é muito porque é realmente uma influência. A gente foi buscando a origem das coisas. Buscamos a primeira gravação solo de Caymmi. A primeira vez que alguém gravou uma música de feitiçaria. O Mário [de Andrade] chamava assim as músicas do candomblé, da macumba. Essa raiz dos “primeiros” foi sempre um guia das buscas. Tudo passava pela música afro-brasileira. Isso veio por causa do Thiago França com o Sambanzo também. Eles já tocavam o “Sino da Igrejinha”. Com eles, a gente achou um 78 rotações, o Tranca Rua, do J.B. de Carvalho, uma versão anterior, mais antiga. No caso do disco novo, uma grande influência foi o Letieres [Letieres Leite, maestro e idealizador da Orquestra Rumpilezz]. A gente já estava com essa pesquisa desenvolvida. Eu publiquei no site do Goma-Laca um artigo bem longo. Pesquisamos a primeira vez que gravaram um disco com um rótulo de macumba; a primeira vez que gravaram um disco com um rótulo de candomblé. Quando o Letieres foi chamado para o trabalho, a coisa toda fez sentido, né? Meio que simbiótico essa ideia do afro-brasileiro, do negro. Tudo foi sendo desenvolvido nesse sentido.

Como se deu a construção do repertório desse álbum?
Pegamos toda nossa pesquisa para obter um recorte dessas músicas de feitiçaria. O Mário de Andrade tem um ensaio que se chama Música de Feitiçaria. É um termo que eu adoro. É uma maneira de definir, né? Porque você fala macumba, candomblé, que são culturas diferentes. Essas culturas afro-brasileiras têm um sincretismo muito grande. A gente não queria que fosse um disco de candomblé. Pensamos neste primeiro recorte, de colocar coco, maracatu, embolada… Variações rítmicas… Pensar mesmo de onde vem tudo isso que a gente chama de afro, mas que tem muita coisa com sotaque indígena, por exemplo… A cultura do Nordeste é bem forte nesse lance, tem muita essa coisa dos malês. Mesmo que não seja uma coisa nagô, dá ainda pra chamar de afro-brasileiro. A partir disso pensamos em quem poderia estar no disco. E aí fomos lançando as músicas e vendo o que gerava retorno. Mas na verdade o repertório nasceu mesmo depois que o Letieres topou participar. Apresentamos os recortes que já tínhamos pesquisado e fomos decidindo a partir de uma lista de nomes que apresentamos a ele. A Juçara Marçal tem muito a ver com essa coisa ritualística mesmo. A Karina Buhr toca percussão; era do Comadre Florzinha. Ela foi pra outro universo, virou roqueira, e muita gente se esquece de quanto ela vem desse universo, assim, de uma maneira moderna. Uma das ideias era criar um atrito criativo diferente, o que a pessoa vai entender, o que está querendo dizer e incorporar isso. Fechei com o Letieres e apresentamos aos cantores. Foi uma conversa com cada um pra ver o que rendia.

Que música você destacaria do repertório escolhido?
Das músicas que escolhemos várias têm histórias maravilhosas. “Batuque”, a primeira que colocamos no ar, com gravação do Russo Passapusso, é uma música atribuída ao Quilombo dos Palmares. A gravação do início do século XX era meio que uma dança que lembra a canção lá do quilombo. E é uma música maravilhosa. Se você pensar na letra: “Folga nego, branco não vem cá, se vier pau há de levar. O senhor já tá dormindo, nego de manhã vai trabalhar, mas agora tá batucando. A gente trabalhou o dia inteiro, o senhor tá dormindo, mas a gente quer batucar”. Essa música tem um peso superforte. Ela é meio que o coração da coisa. Outras que têm muito peso são “Ogum” e “Exu”, de 1930. É o primeiro disco, pelo menos encontrado em nossas pesquisas, que leva o nome de candomblé como característica. Tem uma música da Chiquinha Gonzaga que se chama candomblé, mas era um tema de piano inspirado. Esse disco se chamava Candomblé, cantado em iorubá, que era basicamente o terreiro levado pra gravar. Não tinha nenhum tipo de interferência, nenhum tipo de adaptação. A pessoa pegava uma música do candomblé e fazia algumas adaptações. Como todo mundo faz, como o Jorge Ben Jor já fez, o João Donato e Os Tincoãs faziam. Tem outro da mesma época que se chama Macumba. A gente desconfia que seja a primeira gravação, pelo menos não é uma gravação de campo.

  1. MARAVILHOSO ESSE ÁLBUM. BELO TRABALHO. QUERO ENCONTRAR ESSE ÁLBUM EM CD OU VINIL. MERECE SER GUARDADO E OUVIDO SEMPRE. PARABÉNS!!!

    | Benedito Carlos Vieira

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