//seções//notas

“Fazemos uma caricatura do que acontece”

Guitarrista da banda Velhas Virgens fala de mercado, mídia e machismo

texto Itamar Dantas

Banda Velhas Virgens lança 14º álbum da carreira, Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida. Foto: divulgação

A banda Velhas Virgens já acumula 27 anos na estrada do rock independente. Em 2014, lançam o seu décimo quarto álbum, Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida, viabilizado por meio de crowdfunding (sistema virtual de financiamento coletivo). Com recompensas que variaram entre CDs, calcinhas usadas da vocalista Juliana Kosso e a participação dos fãs na gravação de uma das músicas, a campanha reuniu 830 colaboradores que patrocinaram a empreitada com 72,3 mil reais, superando os 61 mil reais propostos inicialmente.

No álbum, o desbunde que sempre caracterizou o grupo dá o tom. Letras sobre bebidas, sexo e personagens politicamente incorretos embalam os riffs rock and roll. Os temas vão desde a homenagem a Charlie Harper (personagem de Charlie Sheen no sitcom Two and Half Men) aos gays que construíram a história do rock. Em entrevista ao Álbum, Alexandre Cavalo Dias, guitarrista da banda e um dos compositores, comenta o processo de criação do disco e fala de mercado, mídia e machismo.

ÁLBUM – Hoje, com cerveja licenciada em nome de vocês e com ferramentas como o crowdfunding, é mais fácil ser independente?
ALEXANDRE CAVALO - Vamos lá. A cerveja não é simplesmente licenciada. Ela é um novo produto da marca Velhas Virgens. Nós fazemos desde a receita (todas do Tuca Paiva, nosso baixista) até o Mapa (tipo de RG do produto). Aí mandamos tudo para o nosso parceiro Ricardo Silveira, da Invicta de Ribeirão Preto, que fabrica e engarrafa. Depois, cuidamos da distribuição. Enfim, outro negócio junto com o bar temático que temos no Horto Florestal, em São Paulo. Já o financiamento é um lance que a gente vem usando desde 2011, quando fizemos para o DVD de 25 anos da banda. Essa ferramenta é fantástica, não só porque acaba ajudando a bancar os projetos, mas por aproximar muito o artista de seu público. Você faz um trampo diretamente para quem gosta e conversa com eles durante o processo. No nosso caso a participação foi real. Mais de cem pessoas nos mandaram a gravação do coro da primeira música do disco. Nosso produtor, Paulo Anhaia, mixou tudo. Ficou sensacional! Só devemos usar com parcimônia. Não esgotar nem irritar o público com qualquer coisa é importante.

 

A Velhas Virgens sofre censura?
Acho que censura é muito pesado. Claro que muitas das nossas músicas não podem ser colocadas em determinados horários, mas muitas delas podem ser tocadas. O que acontece é que ainda vivemos um momento em que se você não pagar não toca. E não vamos fazer isso. Com a melhora da internet de banda larga, a tendência é que as pessoas só ouçam as músicas que quiserem. Acho que esse tipo de prática (de pagar para tocar) está com os dias contados.

A banda é machista? Sofre “patrulha” nas redes sociais e na vida por causa das letras?
Muito pelo contrário. Quem observa com um mínimo de atenção vai notar que fazemos uma caricatura do que acontece. Quem é machista é a sociedade. Nós nos consideramos uma banda que tem por obrigação lutar pela liberdade de expressão e pela liberdade sexual. Quanto à patrulha, faz muito tempo que isso não acontece. As pessoas estão entendendo a proposta. Depois de 27 anos, isso é um alento.

Você pode destacar duas músicas que melhor definam o conceito do álbum? 
“Balada para Charlie Harper (Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida)” por um lado trata do perdedor que encontra no bar a salvação. É uma clara sátira ao monte de pastores que se arvoram em ser parceiros de Deus. E “O que Seria do Rock”, que fala da importância dos gays no rock e na música em geral.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. “A gente quer viver sempre no verão”

    Gaúchos da banda Selton fazem sucesso na Itália e falam de sua experiência no exterior

  2. “Para evoluir é importante arriscar”

    Silva fala de seu terceiro álbum, "Júpiter"

  3. As pequenas casas na dinâmica cultural de São Paulo

    Texto de Marcel Fracassi analisa fatores que estimulam o movimento das pequenas casas de shows em São Paulo

  4. De volta ao presente

    Musicoteca é um site em que é possível baixar os álbuns produzidos nos anos 2000 de figuras como Curumin e Eddie

  5. A indústria da música como “laboratório”

    Como as tecnologias digitais têm transformado a cadeia produtiva da música

  6. “O cenário independente brasileiro está cada vez melhor”

    A opinião é de Arthur Pessoa, vocalista da banda Cabruêra

  7. O Brasil pode ser um país de ouvintes?

    Jornalista discute a importância da circulação da música fora de suas regiões de origem

  8. “Se algo me aproxima de Ney, é a vontade de traçar o meu caminho”

    Filipe Catto grava seu primeiro CD e DVD ao vivo no Auditório Ibirapuera em fevereiro

  9. Rua Teodoro Sampaio, 1091

    Dirigido por um de seus fundadores, Riba de Castro, documentário conta a história do teatro Lira Paulistana

  10. Para estranhar

    Segundo disco de Iara Rennó traz power trio com sonoridade pop, pero no mucho

    1. Pena Schmidt: “Marcus Pereira desapareceu do radar, sumiu!”

      Para o produtor, acervo da gravadora que lançou o 1º LP de Cartola deve ser redescoberto

      1. Especial Kuarup Disco (Parte 1)

        Criada no fim dos anos 1970 por Mário de Aratanha e Janine Houard, gravadora foi reduto de artistas independentes, como Elomar e Sivuca

      2. Especial Kuarup Disco (Parte 2)

        Segunda parte do especial sobre a gravadora carioca focaliza a música instrumental. Com Dino 7 Cordas e Raphael Rabello, Carlos Poyares e Paulo Moura

      3. Especial Marcus Pereira

        Pena Schmidt apresenta discos que garantiram fama e pioneirismo à gravadora nos anos 1970