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Em busca do groove

Jovens pesquisadores musicais dividem suas experiências na caça de raridades

texto Itamar Dantas

Greg Caz (esq.), Júnior Santos e Marcello MBGroove. Fotos: reprodução

Você já ouviu falar de Pedro Sorongo? E de Waltel Branco? Supersom T.A.? Abílio Manoel? Os nomes podem soar incomuns para qualquer leigo no meio musical, mas não para alguns pesquisadores de discos. Esses jovens colecionadores percorrem sebos, procuram na internet, vasculham onde quer que seja para achar grooves e sonoridades de qualidade que não tenham alcançado sucesso comercial ou que tenham alcançado mas estejam há anos no esquecimento.

Eles correm atrás de músicas raras por inúmeros motivos. Para embalar as pistas onde tocam, para conseguir um sample para uma música ou mesmo por fetiche e curiosidade musical. No Brasil, nomes como os de DJ Nuts e Ed Motta são conhecidos por suas extensas coleções de álbuns. Greg Caz é outro pesquisador assíduo dos bolachões, CDs e compactos. Nova-iorquino nascido em 1971, o DJ é apaixonado por música brasileira e sempre buscou “novas” músicas para embalar os seus sets. Para isso, acumula em sua casa uma coleção com mais de 10 mil discos, entre os quais mais de 2 mil são do Brasil.

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Suas procuras já renderam resultados de grande importância para o resgate da música brasileira. Em 2009, por exemplo, os irmãos Simoninha e Max de Castro prepararam um box composto de nove CDs com a obra do pai, Wilson Simonal, lançados entre 1961 e 1971 pela gravadora Odeon. No box não constava o disco México 70, lançado por Simonal apenas no México e sem uma edição nacional até então. Sem conhecer o perdido disco do pai, o álbum não entrou no box e teve uma reedição posterior graças à pesquisa do DJ. “Descobri o LP México 70 do Wilson Simonal no eBay, em uma época em que eu comprava todos os discos dele. Um cara na Califórnia que vendia, bem barato. Eu me deparei com um dos melhores e mais suingados discos do Simona em seu auge, mas que só havia sido lançado no México. Pesquisei e fiquei sabendo que, fora quatro faixas num compacto duplo de 1970, o disco não havia tido edição nacional no Brasil. Digitalizei e compartilhei pelo Soulseek, e muita gente baixou, inclusive muitos brasileiros. Um deles, ao encontrar o Max de Castro, perguntou por que esse disco havia ficado fora da caixa de CDs Wilson Simonal na Odeon 1961-1971. Nem o Max nem o Simoninha sabiam da existência desse álbum. Dei uma força no relançamento em CD pela primeira vez no Brasil e ainda tenho meu nome citado no encarte”, conta Greg.

Já Júnior Santos é carioca e vive em Portugal desde 2009. Baterista, ele se mudou para o Velho Mundo e continuou sua busca por raridades brasileiras, que iniciou no Brasil quando morava em Carapicuíba e ia tomar cerveja com os amigos donos de uma loja de discos. Em Portugal, continuou buscando as raridades entre compactos e LPs.

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Quando fala da procura de discos brasileiros em outro continente, o músico afirma que vários dos bons discos nacionais já foram exportados por DJs, aficionados e outros pesquisadores estrangeiros. “Já conversei com o DJ Nuts sobre essa questão: nos anos 1990 muitos colecionadores, pesquisadores e DJs de várias partes do mundo foram ao Brasil e pegaram muitos discos. Essa migração durou muitos anos. Por isso, grande parte das raridades estão fora do país. Isso ainda acontece. É muito raro ver um estrangeiro em uma loja no Rio de Janeiro ou em São Paulo. E tudo que nos restou foram esses preços absurdos que vemos hoje. Eu já fiquei muito revoltado”, desabafa Santos.

É na internet que os pesquisadores dividem o conhecimento que adquirem com a compra de discos raros. Em canais no YouTube, em blogs e em grupos de música e por softwares de compartilhamento de arquivos, como SoulSeek ou Torrent, os investigadores sonoros disponibilizam os arquivos das músicas que vão angariando, criando uma forte corrente de compartilhamento.

Capa do LP do violonista Waltel Branco, um dos artistas-alvo dos pesquisadores. Foto: reprodução

Foi a partir dessa decisão, de dividir as músicas, que Júnior Santos ganhou um LP autografado do músico Rui Vital. Eu procurava um disco do Rui Vital, o LP Sua Natureza, que tem Paulinho Black na bateria, Claudio Jorge no violão, Paulinho Guitarra na guitarra, Luizão Maia no baixo e Gilson Peranzzetta nos pianos. Eu tinha ouvido uma vez em São Paulo e desde então comecei a procurar. Em um dos meus canais no YouTube havia uma música dele, de um outro disco. Alguém deixou um comentário dizendo que ele residia em Portugal. Então entrei em contato com ele e contei a minha história. Ele pediu meu endereço e duas semanas depois chegou em casa o LP que eu procurava havia quase cinco anos. Novo e autografado. Foi uma alegria muito grande; é o disco pelo qua eu mais tenho carinho”, conta Júnior.

Marcello MBGroove também é pesquisador de música das antigas. Com outros amigos, criou no início dos anos 2000 o coletivo Vinil é Arte, que hoje conta com seis integrantes, entre DJs e pesquisadores. Na sua estante, são 4 mil discos e 6 mil CDs, que se dividem entre os mais diversos estilos e nacionalidades.

E, quando o assunto é a procura por álbuns, são diversos os aspectos que podem levar alguém a se interessar por um disco. Pode ser a capa, o músico que participa da gravação, o arranjador ou todas as características técnicas da gravação que são levadas em conta. “Eu me lembro de ainda no começo da caça de discos, quando me interessava pelo lado não tão divulgado da música brasileira, topar com o primeiro disco da dupla Antonio Carlos e Jocafi, que até então eu só conhecia pelo hit ‘Você Abusou’, que eu não curtia. Mesmo assim, peguei o disco baseado na ficha técnica (um bom recurso para quando não conhecemos o álbum, é olhar quem são os músicos envolvidos; aprende-se muito nesse exercício), pois vi que o guitarrista Lanny Gordin participava. Isso me fez comprar o LP. Chegando em casa vi quanto o disco era bom e, a partir desse momento, eu me tornei fã da dupla”, garante Marcello MBGroove.

Nas trocas de arquivos pela internet é que o grupo ganha força e unidade. Uma comunidade no Facebook reúne esses e outros pesquisadores que trocam informações sobre os novos achados por aí. Disponibilizando músicas que estão fora de catálogo há anos, frequentemente é a partir desse trabalho que preciosidades são reencontradas por eles e qualquer outro curioso que navegue pelos seus canais de distribuição. “Creio que no meu caso, como DJ, a questão é muito mais informar e acrescentar um conteúdo musical pesquisado e elaborado. Isso, sim, gera a curiosidade e a vontade nas pessoas para irem atrás dos discos desses artistas”, defende MBGroove.

Já Júnior Santos teve alguns problemas com seus arquivos disponibilizados na internet, mas como em sua maioria são discos fora de catálogo essas questões não são frequentes. “Todos os vídeos em meus canais estão sujeitos a censura por parte dos copyrights. Isso é inevitável hoje. Já recebi ameaça de processo judicial por parte do empresário do jazzista americano Alan Broadbent, mas eu tento sempre abrir um diálogo com os autores ou donos da obra. Se alguém se sente lesado por isso, eu excluo na mesma hora. Sempre respondo que minha função é colocar a música para que as pessoas ouçam, procurem pelos discos e conheçam a história, especialmente a da música brasileira”, finaliza Júnior.

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