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Educação pelo hip-hop

No Brasil, o ativista e educador Moises Lopez fala da importância do gênero para a educação

texto Itamar Dantas

Moises Lopez está no Brasil para buscar exemplos de educação por meio do hip-hop. Foto: Itamar Dantas

O hip-hop possui quatro elementos básicos: o break (a forma de se expressar pela dança), o MC (a expressão pelas palavras), o DJ (pelos acompanhamentos musicais) e o grafite (pela comunicação visual). Mas existe um quinto elemento, frequentemente esquecido: o conhecimento. 

Para desenvolver essas cinco habilidades surgiu, em 2010, o Hip Hop Education Center, localizado em Nova York – instituição que busca reunir nomes da cena do hip-hop pelo mundo afora, especialmente aqueles que usam a música como ferramenta de educação. Atualmente, o grupo conta com a colaboração de artistas e ativistas do hip-hop de 25 países, incluindo o Brasil, cujo representante é Toni C., educador e escritor que acaba de lançar a biografia Sabotage – um Bom Lugar, lançado pela editora LiteraRua com apoio do Instituto Itaú Cultural.

Moises Lopez é um dos responsáveis pelas visitas a outros países em busca de educadores e ativistas sociais que se utilizem do hip-hop como instrumento de ensino. No Brasil desde junho deste ano, o jovem educador conheceu algumas instituições que trabalham com o rap em São Paulo e no Rio de Janeiro. E irá levar esses exemplos brasileiros para Nova York, ampliando o escopo de atuação do projeto. Natural de Chicago, Lopez se interessou ainda adolescente pelo hip-hop. Fã de Tupac Shakur (1971-1996), começou a escrever poesia e conheceu o Hip Hop Education Center quando se mudou para Nova York. Hoje é um dos responsáveis pelas relações internacionais do instituto. “Muitas pessoas não sabem o trabalho maravilhoso que é feito nas comunidades aqui no Brasil. E nós precisamos nos conectar e construir relações mais fortes”, conta o educador.

Em entrevista ao Álbum, Lopez fala do hip-hop pelo mundo e como ele pode ajudar na educação.

 ÁLBUM Como funciona o Hip Hop Education Center?
MOISES LOPEZ – Marta Dias é a diretora. Ela abriu o Hip Hop Education na New York University, na Colombia University e no The Black Center of Research. Temos três lugares em Nova York. Trabalhamos com ativistas sociais e pessoas de comunidades que usam o hip-hop como ferramenta de mudança social. Nós estamos tentando profissionalizar o campo da educação com o hip-hop. Estamos criando uma série de programas, vídeos de educação, e entrevistando pessoas das comunidades. Começamos uma pesquisa nacional em 2010 nos Estados Unidos e tivemos respostas de 200 educadores. Aí começamos a trabalhar também em âmbito internacional. Visitamos 25 países e procuramos educadores de hip-hop em cada um desses lugares. Viajei para Argentina, Chile, Uruguai, Canadá, Santa Luzia, Porto Rico e República Dominicana. O hip-hop não está apenas na América Latina, é global. Há diferentes organizações e pessoas desenvolvendo trabalhos incríveis em diferentes países. Queremos criar o diálogo entre eles. Podemos criar um programa social promovendo o intercâmbio de informações. E no futuro queremos trabalhar com os governos e falar com eles do trabalho que fazemos especialmente com os jovens. Queremos profissionalizar o campo. Temos descoberto que há dificuldades entre os governos e a comunidade hip-hop.

Como está o hip-hop nas diversas partes do mundo?
Neste ano se comemoram 40 anos do hip-hop. E o que nós queremos também é que as pessoas conheçam a história e entendam os cinco elementos básicos dele. As pessoas falam muito de quatro elementos, mas o quinto é muito importante, o conhecimento. O conhecimento gera consciência. Para que se busquem justiça e organização social é importante que as pessoas conheçam a história. Quem foram os pioneiros? O que eles fizeram? E assim desenvolver o hip-hop como ferramenta de ensino.

>> LEIA “O RAP NO BRASIL E NA ALEMANHA”

O que você conhece do hip-hop brasileiro?
Eu conheço os Racionais MC’s, os primeiros a levar o hip-hop para as escolas. E rappers como Sabotage e Criolo. Uma das ferramentas da educação pelo hip-hop é entender as letras deles, o que dizem. Estão falando muito de movimentos que acontecem agora. Você pode usar o hip-hop para mostrar o que está acontecendo nas comunidades, nas favelas. Você pode aprender com os rappers. Você pode usar a dança como uma maneira de se expressar, usar a poesia. Você pode começar a escrever, desenhar. Usar o sentimento para expressar suas frustrações. É um momento muito bonito. O movimento está muito grande. A Casa do Hip Hop está fazendo um ótimo trabalho, viajando por diferentes partes do Brasil, criando músicas. Já existe um grande mercado. Queremos nos conectar às pessoas e aprender com elas, retirar exemplos de seus trabalhos. Uma das coisas importantes que ainda devem acontecer no Brasil é que precisamos arquivar todos os tipos de informação: as músicas, a história, os documentos, as gravações. Assim como Toni C. escreveu a história do Sabotage, precisamos arquivar documentos e criar uma timeline. Precisamos traduzir livros como o de Toni C. para o inglês. Outras pessoas podem aprender sobre a cultura hip-hop na América ou na África. No nosso instituto, registramos tudo para produzir documentários e fornecer informações às pessoas.

>> OUÇA A PLAYLIST “ESPECIAL SABOTAGE”

E qual é a sua história com o hip-hop?
Comecei a me interessar quando era adolescente. Meu artista favorito era o Tupac Shakur. E Tupac foi um grande exemplo para mim, porque ele era radical e um organizador de movimentos sociais. Era um poeta. Eu queria fazer a minha poesia e comecei a escrever letras para me expressar. Cresci em Chicago e me mudei para Nova York; comecei a trabalhar para o Hip Hop Education Center, o maior centro de ensino de hip-hop da América. Tenho uma paixão pelas relações internacionais, então comecei a gerenciar as relações com os educadores. Agora, trabalhamos com 25 ativistas, com quem trocamos informações e documentos. E hoje trabalhamos com Marta Dias. Ela é uma pessoa maravilhosa. Comecei a viajar e a pesquisar sobre o hip-hop em outros países. E estamos reconhecendo o trabalho de outras pessoas também. Muitas delas não sabem o trabalho maravilhoso que é feito nas comunidades aqui no Brasil, por exemplo. E precisamos nos conectar e construir relações mais fortes.

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