//seções//notas

Edmundo Villani-Côrtes é homenageado em CD

Obra é revisitada pela pianista Karin Fernandes; disco traz peça criada para o projeto

texto Itamar Dantas

Karin Fernandes ao lado de Edmundo Villani-Côrtes durante ensaio para a capa do disco. Foto: Dani Gurgel

Em 2010, Edmundo Villani-Côrtes completou 80 anos de vida. Para homenageá-lo, a pianista Karin Fernandes se propôs a gravar um álbum e fazer um concerto com obras nunca gravadas do compositor mineiro.

Para o projeto, Villani compôs ainda um tema inédito para piano, vibrafone e cordas chamado “Ânfora”. “É uma peça que eu fiz baseada em uma pintura da minha filha, Maitê Villani. Eu gosto muito de pinturas que têm essa coisa meio misteriosa. E era um tema que eu já estava querendo fazer há muito tempo, então aproveitei a oportunidade. Para mim, soou muito bem”, conta Villani.

No dia 27 de outubro de 2012, foi realizado o concerto de lançamento do álbum, no Theatro São Pedro, em São Paulo. A apresentação foi baseada no repertório do disco e contou com a participação da Orquestra Sinfônica do Theatro São Pedro (Orthesp) e dos maestros Emiliano Patarra e Lutero Rodrigues.

Villani comenta as dificuldades em se gravar um disco erudito no Brasil, principalmente com repertório nacional. “Gravar um disco de música erudita nacional é muito difícil. As pessoas se cansam de gravar os Beethovens, os Mozarts da vida… Eu fiquei surpreso quando vi que conseguimos a verba para realizar esse projeto. Fiquei muito feliz!”

Em entrevista ao Álbum, Karin Fernandes conta o que a motivou a realizar o projeto: “O Brasil já faz parte dos países interessantes para as orquestras e solistas em suas turnês, mas mesmo assim é difícil para quem vive aqui. Para mim, o desafio é ainda maior, porque gosto do repertório novo, principalmente da música de vanguarda. As pessoas ainda torcem o nariz para a música contemporânea, e vão torcer sempre”, desabafa.

ÁLBUM – Quais os aspectos da obra de Villani que a atraem e motivaram a gravação do álbum?
KARIN FERNANDES – Conheci o Villani quando participei de um concurso de piano, cujo prêmio era tocar o “Concerto nº3″ com a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. O “Concerto nº3″ foi composto para piano e orquestra de sopros ou banda sinfônica. Essa versão que gravei – piano e orquestra sinfônica – foi feita pelo Villani alguns anos depois disso e eu fiz a primeira audição dela em 2000, com a Sinfonia Cultura e o Lutero Rodrigues. Por causa de tudo isso resolvi tentar um patrocínio e gravar esse concerto e outras peças do Villani. Mandei um projeto para a Petrobrás e ele foi escolhido entre milhares de propostas.

Como se deu a escolha do repertório para o disco?
Escolhi peças que já havia tocado e decidi fazer uma encomenda, para que o CD tivesse algo inédito. Além disso, todas as peças escolhidas nunca haviam sido gravadas anteriormente. A encomenda foi a “Ânfora”.

>> LEIA TAMBÉM: KARIN FERNANDES HOMENAGEIA VILLANI-CÔRTES

Como é ser uma pianista erudita no Brasil?
Ainda é complicado. O Brasil está entrando no circuito internacional da música de concerto há alguns anos. Já fazemos parte dos países interessantes para as orquestras e solistas em suas turnês, mas mesmo assim ainda é difícil para quem vive aqui. Acho que isso vai mudando aos poucos, conforme as pessoas conquistam um nível cultural e de educação melhor. Mas é um processo um pouco lento. Para mim, o desafio é ainda maior, porque gosto do repertório novo, principalmente da música de vanguarda. As pessoas ainda torcem o nariz para a música contemporânea, e vão torcer sempre. Com Beethoven não foi assim? Diziam que ele compunha o que compunha por estar surdo, como se o fato de ter uma doença justificasse a “estranheza” das peças dele, e não o gênio musical que era. Acho que isso nunca vai mudar.

Quais são os seus compositores preferidos da música de concerto para piano?
No que diz respeito ao gosto, sou um pouco mais aberta do que na proposta artística. Gosto muito da música feita no Brasil, especialmente de Flo Menezes e Roberto Victorio, mas também amo Ludwig van Beethoven, Iannis Xenakis, Dmitri Shostakovich, Maurice Ravel, Bela Bártók e muitos outros que em sua época quebraram regras e fizeram algo realmente original. Acho que para mim é sempre importante ver algo de original. Se consigo descobrir isso num compositor, passo a gostar de seu estilo, seja ele qual for.

Quais são os planos para 2013?
É certo que começo a gravar outro CD em fevereiro, S’ilo Esca Vivo, um álbum inteiro dedicado às peças do compositor brasileiro radicado na Espanha Edson Zampronha. Em março, lanço o segundo CD do meu trio, Trio Puelli 3 Américas, com trios de Leonard Bernstein, Claudio Santoro, Mauricio Kagel, Alejandro Cardona e Roberto Victorio. E tenho outros quatro projetos de gravação e circulação de concertos em fase de análise. Em abril, vou tocar com o Trio Puelli no Festival de Mendoza, na Argentina, e também serei solista junto à Osusp e ao maestro Ricardo Bologna, da Seresta de Camargo Guarnieri, em concerto na Sala São Paulo no dia 21.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. “Meu desafio é não tentar agradar todo mundo!”

    Pianista Felipe Scagliusi fala de sua carreira, de Nelson Freire e de Schumann

  2. Passando a baqueta

    Professor de percussão da Unesp, o norte-americano John Boudler conta sua história ao Álbum

  3. Seguindo os passos de Mangoré

    Com show e disco, Berta Rojas e Paquito D'Rivera homenageiam Agustín Barrios

  4. Música clássica para todos

    “Temos que mostrar para as novas gerações que é possível escutar sem cair no tédio”, diz o clarinetista belga

  5. Atenção, torcida brasileira: hoje é dia de clássico!

    Vasco X Santos ou um sinfonia de Beethoven?

  6. Vitor Araújo: “Eu me desespero com o (disco) independente”

    Ouça o segundo álbum do pianista pernambucano

  7. “Villa-Lobos é o pai da música brasileira contemporânea!”

    Mario Adnet comenta seu novo álbum, dedicado à obra do autor de "Trenzinho do Caipira"

  8. “O mercado europeu de música instrumental acabou!”

    Clarinetista italiano, Gabriele Mirabassi comenta sua relação com a música brasileira

  9. “Éramos chamados de quadrados”

    Izaías do Bandolim fala do período em que o choro ficou esquecido em meio à invasão de ritmos estrangeiros

  10. Rolinhos vietnamitas à Léa Freire

    Filha da flautista e compositora, Tita dá a receita de um prato que faz a cabeça da mãe

    1. “Sempre quis desafiar os dogmas consolidados pelo tropicalismo!”

      Criado pelo baixista Munha, grupo de música instrumental mescla influências de Mahler, bossa nova e rock

    2. Ricardo Herz e Samuca do Acordeon

      Duo de violino e acordeom interpreta a autoral "Novos Rumos"

    3. Zé Menezes: “Tocador de violão não tinha valor nenhum”

      Músico cearense relembra a Rádio Nacional, as orquestras e Garoto

    4. Mistura e Manda, por Banda Pequi

      Choro que batiza disco de 1983 de Paulo Moura ganha versão de big band pelo grupo goiano

    5. Vovô Manuel, por Banda Mantiqueira

      Música foi lançada originalmente no CD Terra Amantiquira, de 2006

      1. Especial Kuarup Disco (Parte 2)

        Segunda parte do especial sobre a gravadora carioca focaliza a música instrumental. Com Dino 7 Cordas e Raphael Rabello, Carlos Poyares e Paulo Moura

      2. A música de Paulinho da Viola pela Escola do Auditório Ibirapuera

        Cinco formações da Escola interpretaram músicas do sambista e de outros artistas brasileiros

      3. Marcelo Brissac: “A Orquestra Sinfônica Nacional começou na Rádio MEC”

        Flautista aponta os destaques do acervo da emissora carioca

      4. Heloísa Fisher: “Não existia um catálogo de quem fazia música clássica no Brasil”

        Jornalista fala do Anuário VivaMúsica! e que o gênero tem de se mostrar contemporâneo

      5. “O diferencial do Paulinho Nogueira eram os acordes”

        Ele começou sua carreira como desenhista de publicidade e, anos depois, assumiu o violão profissionalmente. Juju Nogueira recorda a trajetória do pai

      6. Série Instrumento: Violão

        Seleção lista interpretações de Dilermando Reis, Rosinha de Valença, Vera Brasil, Geraldo Vespar e Sebastião Tapajós

      7. Série Instrumento: Baixo

        Playlist reúne os titulares do ritmo Luizão Maia, Luiz Chaves, Liminha, Jamil Joanes e Arthur Maia

      8. Série Instrumento: Bateria

        Com os craques do ritmo João Barone, Milton Banana, Edison Machado, Zé Eduardo Nazário, Nenê e Chico Batera

      9. Sons que fizeram o som do Duofel

        Genesis, Los Indios Tabajaras, Pink Floyd e Baden Powell estão na lista de Luiz Bueno e Fernando Mello

      10. Hector Costita homenageia Astor Piazzolla

        Em show no Auditório Ibirapuera, músico argentino revê carreira e homenageia o renovador do tango