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“É o meu disco mais intenso, e isso se deve à literatura”

Celso Viáfora lança CD e estreia como romancista

texto Itamar Dantas

Capa do romance Amores Absurdos (esq.) e seu autor, Celso Viáfora, em show no Auditório Ibirapuera (2010). Foto: Dani Gurgel

É entre histórias e canções que Celso Viáfora traça o enredo de seu primeiro romance, o recém-lançado Amores Absurdos. Cantor e compositor com mais de 20 anos de estrada, o músico apresenta em livro a trajetória de Antônio Terra, compositor que, nos anos 1980, participava de festivais pelo interior do Brasil e, ao fim da vida, se tornou um publicitário de sucesso. Como fio condutor, o amor entre Antônio e Lídia Saviola, também cantora de festivais.

O livro não é autobiográfico, mas tem algumas semelhanças com a realidade de seu criador. Viáfora, assim como alguns de seus contemporâneos (Zeca Baleiro, Lenine e Chico César), se projetou a partir dos festivais realizados no interior do país na década de 1980. E, como não podia ser diferente, algumas das histórias do autor foram incorporadas ao livro. “A gente ia aos festivais para mostrar nossa música e depois de dois, três meses, voltar na cidade e fazer shows”, recorda Viáfora.

Quando começou a escrever o romance, teve a ideia de compor também canções que fossem ao encontro de seu enredo. Compôs algumas e resgatou outras que pudessem se enquadrar. “De repente, o compositor ficou com medo de perder o emprego e resolveu voltar”, ironiza. Assim, o livro é lançado juntamente com 14 músicas que permeiam a história. Paralelamente, Viáfora lança Amores Absurdos em livro, CD e e-book, onde reuniu as duas plataformas – o leitor pode ouvir as canções no momento preciso em que cada uma delas se encaixa à narrativa.

Em meio ao percurso de seus personagens, Viáfora narra acontecimentos políticos brasileiros e faz uma viagem pelo interior do país. Antônio é de São Paulo e Lídia de Porto Alegre. O casal se conhece em Tiradentes, Minas Gerais. “Tem um viés da política brasileira. Fala do mensalão, fala dessa prática do mercado de colocar uma margem para tudo, que alguém sempre tem que levar uma grana a mais. E tem também essa viagem. A música me deu a felicidade de conhecer o Brasil inteiro. O livro começa no interior de São Paulo e termina em Belém.”

Viáfora destaca algumas diferenças em relação ao seu principal ofício e garante que a exploração de outra plataforma o levou mais fundo na música. “É o meu disco mais intenso, e isso se deve à literatura. Espontaneamente, a cena literária tem toda uma densidade para surgir. Você faz uma canção de coisas cotidianas, que não tem necessariamente essa densidade dramática. Para merecer uma cena na literatura, tem que ter certa densidade. Quando você está revisando o que escreveu, acaba retirando muitas coisas que não alcançam essa densidade. Na música é diferente, você faz uma canção sobre a feijoada, um jogo de futebol, coisas mais cotidianas”, garante o compositor.

“Memória” é uma canção de Celso Viáfora, composta há anos junto ao parceiro Vicente Barreto, e que ainda não havia sido gravada por nenhum dos dois. Na realidade, foi criada para integrar o festival de Santa Rosa, no sul do país. Já na ficção, ela se tornou a canção apresentada por Antônio Terra no Festival de Porto Alegre. Em meio a seu acervo, o músico encontrou a letra, ideal para a cena que narrava, mas não achava a melodia. “Essa música tem gosto de erva e cheiro de carne, era propícia para essa cena do livro. Mas nem eu nem o Vicente havíamos gravado… Então, numa noite liguei para ele e falei: pode deixar que já refiz”, afirma Viáfora.

O álbum conta com arranjos de Neymar Dias e parcerias novas: Sérgio Santos, Paulo Monarco, Breno Ruiz, Rafael Altério, Pedro Altério, Jorge Hélder e Nilson Chaves são os companheiros de criação nas canções. O disco ainda conta com a participação de Toninho Ferragutti (acordeom), Dandara Modesto, Trio Manari (percussão), Manoel Cordeiro (charango) e o quarteto  de cordas formado por Edgard Leite e Daniel Moreira (violinos), Daniel Pires (viola) e Vana Bock (violoncelo).

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