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E a crítica, jaz?

Crise do jornalismo dá o tom ao seminário sobre os rumos da crítica musical no país realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo em parceria com o Itaú Cultural

texto Cristiane Batista e Adriana Ferreira Silva

Claudia Assef defende que a busca por cliques têm prejudicado o conteúdo: Foto: Christina Rufatto.

Para onde caminha o jornalismo cultural, mais especificamente a crítica musical brasileira, em tempos de crise na profissão? Nos dias 9 e 10 de setembro (sexta e sábado), dez jornalistas especializados se reuniram no Itaú Cultural para tratar do tema no seminário Crítica e Autocrítica – os Novos Dilemas da Crítica Musical, com curadoria de Julio Maria, repórter do Caderno 2, suplemento do jornal O Estado de S. Paulo.

Editor do caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo, o jornalista Ivan Finotti estaria na abertura, mas alterou a data de sua participação para o sábado, pois na noite de sexta teve de reduzir sua equipe. Demonstrando abatimento, que contaminou os colegas e o público, Finotti vaticinou: “A reportagem cultural está morta e não é possível revivê-la”.

Por mais hiperbólica que a frase pareça, o descontentamento com os rumos do jornalismo cultural deu o tom ao evento, que reuniu cerca de 180 pessoas e, além de Finotti e Julio Maria, teve a participação de Pedro Antunes, Renato Vieira e João Paulo Carvalho (O Estado de S. Paulo), Carlos Calado (Folha de S.Paulo), Bernardo Araujo (O Globo), Ricardo Alexandre (escritor e blogueiro), Mauro Ferreira (G1), Claudia Assef (do site Music non Stop) e Sergio Martins (Veja).

“Estamos vivendo um momento delicado, no qual predominam textos superficiais em busca de cliques”, disse a jornalista Claudia Assef, em referência à demanda pela audiência em mídias digitais. Como se não bastasse o dilema de ter de fazer a melhor cobertura e ser cobrado por furos e reportagens que rendam grande repercussão – realizadas por redações cada vez mais enxutas, com menos espaço para os textos e pouco tempo para análise, apuração e cobertura –, a exigência do mercado musical, tanto o independente como o mainstream, não mudou. Ao contrário, desde o início dos anos 2000, a revolução tecnológica promoveu um boom nos meios de produção, facilitando tanto a gravação e o lançamento de discos quanto o acesso aos lançamentos.

Como lembrou o jornalista Sergio Martins, repórter e crítico da revista Veja, entre os anos 1980 e 1990 só era possível adquirir determinados álbuns no exterior. Hoje, nem mesmo as gravadoras têm o monopólio dos lançamentos; artistas relacionam-se diretamente com seu público por meio de sites e redes sociais, e os jornalistas se desdobram para acompanhar a criação interna e a internacional.

Retorno imediato

De uma época em que máquinas de escrever, livros, lojas de discos e arquivos eram seus principais aliados, os jornalistas presentes sentiram na pele a mudança drástica nas plataformas, na relação com as fontes e no acesso às informações. “Esperávamos a chegada de revistas especializadas para checar os lançamentos, visitávamos as lojas de discos para conferir as novidades. O universo da música perdeu muito do seu charme”, lamentou Bernardo Araujo.

“Eu me lembro de que na equipe havia uma pessoa só para selecionar as cartas dos leitores, que eram muitas”, contou Claudia, que trabalhou na Folha de S.Paulo de 1997 a 2002, período no qual se dedicou a coberturas, reportagens e críticas sobre a então novíssima cena eletrônica, antes de se tornar diretora de redação do site Vírgula e, mais recentemente, lançar seu próprio canal, a plataforma Music non Stop, no ar desde o ano passado. “Com as redes sociais, o retorno é imediato, e isso é positivo”, destacou. “Mas tem sempre um chato que não vai gostar do que lê; já fui até perseguido”, discordou Martins.

Destoando dos colegas que trabalham em jornais e revistas, Claudia tem uma visão positiva sobre todas essas mudanças. “Nunca se ouviu tanta música como hoje. Precisamos nos reinventar”, acredita ela. “Não tem essa de que ninguém lê textão. Na internet, não há limite de espaço para escrever, e as pessoas que se interessam por determinado assunto querem, sim, maior profundidade, mais conteúdo, apuração e reportagem.”

Questionado sobre a sobrevivência do crítico em tempos de internet, Mauro Ferreira, autor de um blog com bastante audiência no portal G1, relatou sua experiência: “O on-line tomou uma proporção irreversível. Com o tempo, formei uma plateia de leitores e usei o Facebook para manter o blog ativo. Agora, no G1, conquistei um público adicional. Mudam as plataformas, mas o ser humano é o mesmo”, resumiu.

Para Carlos Calado, diante do fluxo de informações e da grande quantidade de páginas e blogs sobre música, o papel do crítico é cada vez mais o de um curador. “Em tese, todos têm tudo no computador, no iPad e no iPhone, mas qual é o critério para discernir o que é ou não relevante? Cada vez mais o crítico pode apontar e apresentar obras e contextualizá-las, mais do que referendar os trabalhos de medalhões já conhecidos.”

Relações perigosas

Com as redes sociais, a proximidade dos críticos com os artistas também mudou, assim como o comportamento de alguns profissionais, que passaram a se expor em selfies nos camarins, arriscando (ou não) sua credibilidade perante os leitores. Sobre esse tema, Calado, veterano na reportagem musical e um dos mais importantes especialistas em jazz do Brasil, resumiu o que pensa mencionando uma frase do crítico teatral Sábato Magaldi (1927-2016): “Crítica = independência. A conta sempre chega”.

Outro ícone da crítica de teatro, Barbara Heliodora (1923-2015) foi mencionada para respaldar a opinião de Mauro Ferreira sobre o fato de que, hoje, os críticos parecem estar mais bonzinhos e condescendentes com os artistas, talvez por medo de ser rechaçados publicamente ao alcance de um clique: “Ela dizia que, se você fala bem de todo mundo, é uma grande sacanagem com quem é bom de fato”, descreveu. “Na verdade, não entendo tanto de música como meu texto supõe. A música é uma experiência sensorial, para mim a mais emocional das formas de arte. Pode ser rebuscadíssima e levar uns às lágrimas e outros à indiferença, assim como pode ser paupérrima e emocionar outros tantos. Esse fluxo incessante é o que nos alimenta.”

Para Ricardo Alexandre, também veterano da cobertura musical, com passagem por diversas publicações e autor de livros (entre eles Nem Vem que Não Tem: a Vida e o Veneno de Wilson Simonal), “o artista acha que crítica construtiva é fazer um apontamento positivo”. “O que coloca o crítico sempre em posição delicada, mas necessária”, acredita.
Mérito ou amizade?

Também foi tema de discussão a escolha do que deve ganhar menção, nota ou destaque. Seja por lobby comercial ou simplesmente por gosto pessoal do jornalista, muito da produção musical brasileira não é referendada pelos grandes veículos. Mesmo artistas superpopulares, como o sertanejo Cristiano Araújo, passam despercebidos pelos críticos. Ivan Finotti lembrou que os jornais, assim como outros meios de comunicação (inclusive parte dos canais de TV), só descobriram que o cantor era um fenômeno quando ele morreu em um acidente de carro em junho de 2015, causando grande comoção em todo o país. “Tivemos de correr atrás para entender quem era Cristiano Araújo.”

Da plateia, o músico Magnu Sousa, de 42 anos – ex-integrante do grupo de samba Quinteto em Branco e Preto, e atualmente na banda Os Prettos –, levantou a bola a respeito dessa falta de diversidade. “Estamos quase no final do debate e ninguém ainda falou sobre o samba. E o samba? A música tem de ser democrática! Os veículos deveriam dar mais ênfase à sonoridade do Maranhão ou do Sul, por exemplo”, destacou Sousa. “Só se fala de música pop norte-americana. Temos de valorizar o que é verdadeiramente brasileiro, porque há uma tendência em dar mais peso à música do outro. Quando se trata da criação nacional, as coisas ficam complicadas, pois entram em cena o viés editorial e o gosto pessoal. Acaba se tornando uma cobertura pejorativa”, acredita ele.

O também músico e estudante de jornalismo Thomas Augusto Sampaio, de 20 anos, foi um dos que se manifestaram sobre o mesmo tema. “Procuro me informar pela grande imprensa, mas também por blogs especializados e grupos de discussão na internet, que não têm uma grande cobertura midiática”, afirmou. “Foi bacana entender o ponto de vista dos jornalistas e dos veículos em que trabalham; compreender o motivo pelo qual as pessoas eleitas para ser destaque são sempre as mesmas.”

Curador do seminário, o jornalista Julio Maria fez um balanço da experiência. “Achei bacana essa divergência entre os jornalistas. Pensei que fôssemos mais uníssonos, mas representamos diferentes escolas. Isso é importante para repensarmos a maneira de trabalhar”, diz. “Existe um Brasil para o qual não olhamos. Temos de parar de prestar atenção somente em nossos queridinhos. Sairemos do debate com essas ideias e, amanhã, ao fazer uma nova crítica, espero que todos repensem o espaço que estamos dando aos diferentes artistas. Eu ficaria muito feliz se cada um de nós levasse daqui uma nova ideia para a sua publicação. Precisamos começar a pagar essa conta, expandir a cobertura para além do eixo Rio-São Paulo. Esperávamos que o público fizesse o contraponto, e isso aconteceu. Foi ótimo!”

  1. Gente, faz de novo! Eu quero ir! Hahahahaa!

    | alessandra

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  1. 25 anos, 25 vozes

    Livro "Cantadas", de Mauro Ferreira, analisa a obra cantoras entre os anos de 1987 e 2012