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Diálogos musicais para além-mar

Projeto Casa de Bamba reúne os pianistas André Mehmari e Mário Laginha. Confira a entrevista

texto Itamar Dantas

Os pianistas André Mehmari (e.) e Mário Laginha no Auditório Ibirapuera (SP). Foto: Itamar Dantas

Nos dias 20 e 21 de julho foram realizados no Auditório Ibirapuera (SP) os concertos da segunda etapa do projeto Casa de Bamba, promovido pelo Itaú Cultural e que destaca o trabalho de um músico brasileiro em uma série de três apresentações ao longo do ano. Para esta edição, o brasileiro André Mehmari convidou o português Mário Laginha para um duo de pianos em que revisitou a carreira de ambos e também apresentou temas elaborados especialmente para o encontro.

Um exemplo é “Chorinho Feliz”, composição de 2000 de Mário Laginha. Como provocação, Mehmari compôs a resposta “Fadinho Feliz”, brincando com o tradicional gênero português. Já no tema “Jogo com Mehmari”, Laginha convidou o colega à improvisação. E esse bom humor marcou a estreia do duo sobre o palco.

O Álbum Itaú Cultural conversou com os dois pianistas. Na pauta, o processo de criação e a intenção de fazer um disco juntos.

ÁLBUM – Como se deu esse encontro?
André Mehmari – Sou admirador da música do Mário de longa data. Mas o que propiciou essa parceria musical, no plano material, foi o Casa de Bamba. No ano passado, ele esteve no Brasil fazendo um show com outros dois pianistas na Sala São Paulo. Ele me escreveu dizendo que estaria aqui e que deveríamos nos encontrar. Passamos uma tarde conversando e eu falei: “Mário, estou com esse projeto lá no Auditório Ibirapuera, o que você acha de fazermos um duo?”. Ele topou. Cá estamos.

Vocês usam temas compostos anteriormente e também criaram temas específicos para esta apresentação. Por onde passeia o repertório?
AM –  Na nossa apresentação tem uma boa pitada de humor, jogo, brincadeira e diálogos. É muito gostoso você estar com dois pianos; isso propicia uma paleta de cores muito ampla…
Mário Laginha – O modo como cada um escreve e o nosso jeito de tocar piano têm muitos pontos em comum. Digamos que é um daqueles casos em que esses pontos nos aproximam. E as diferenças também nos unem [risos]. Nós somos músicos com muito prazer e acho que isso é transmitido ao público.

Vocês também estão trabalhando com o improviso. Como essa afinidade se demonstra no palco?
AM – Você sabe que, ao longo dos trabalhos, acabamos usando muito material escrito, muitas composições. Porém, o improviso também existe de forma muito forte na apresentação, mas dentro de estruturas preestabelecidas. O Mário preparou, por exemplo, um tema que se chama “Jogo com Mehmari”, que eu imagino que seja para mim porque meu nome é estranho [risos]. É uma espécie de pretexto para a improvisação. Você não fica em uma sala totalmente escura, é como se fosse uma sala de brinquedos, é uma boa imagem. Tem muitas coisas assim no repertório. O Mário também compôs choro que se chama “Chorinho Feliz”, composição antiga que eu adoro. Eu falei: “Mário, a gente vai tocar essa!”. Então, ele veio com um arranjo especialmente para esse projeto. E eu respondo com o “Fadinho Feliz”. O coral que abre a apresentação eu fiz inspirado nos trabalhos que conheço do Mário. E eu também escrevi “Lagoa da Conceição” para esse Casa de Bamba. Apesar de ser a nossa primeiríssima apresentação, o público percebe uma afinidade muito grande.

O que os aproxima tanto?
ML – Há correntes de músicos que gostam de compartimentar muito a música: jazz é jazz, clássica é clássica, popular é popular. Nós não fazemos outra coisa senão….
AM – Temos essa estranha mania de ter fé na vida [risos].
ML – As paredes estão completamente jogadas ao chão. Nós deixamos que essa contaminação aconteça. É claro que nós temos critérios que passam pelo nosso gosto pessoal, mas deixamos nos contaminar pelas várias influências.

Essa parceria vai render outros trabalhos?
ML – Quando há uma primeira reunião, isso gera uma expectativa, mas não dá para ter certeza se vai resultar em outro trabalho. Porém, depois desses quatro dias por aqui, já posso dizer com certeza absoluta [risos]. Agora que montamos um repertório, faz todo o sentido que esse trabalho ande; façamos um disco, quem sabe?

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