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“Deixamos a música nos levar”

Composição coletiva marca quarto álbum da banda Cérebro Eletrônico

texto Itamar Dantas

Cérebro Eletrônico lança quarto álbum, Vamos pro Quarto, criado durante isolamento em sítio. Foto: divulgação

Todas as canções do quarto álbum do Cérebro Eletrônico, Vamos pro Quarto, são assinadas pelos cinco membros da banda. Diferentemente dos predecessores, o grupo resolveu viajar para um sítio sem levar ideias preconcebidas, talhando o projeto coletivamente. Em um fim de semana, em dezembro de 2012, foram para o Recanto Rural do Mestre Pui, em Bragança Paulista, e experimentaram sonoridades, trocaram experiências e criaram diversas canções das quais retiraram as nove que compõem o novo disco.

A sugestão desse processo criativo veio de André Abujamra, lembrado na dedicatória do trabalho, que está disponível para download no site oficial da banda. A parceria na produção não se concretizou, mas o grupo abraçou a ideia e a levou às últimas consequências. Nas letras, personagens de baladas como as “Ninfas da Voodoo Hop” se misturam aos faunos e pássaros. E o som agitado abre espaço também para experimentações sonoras mais complexas, como a derradeira “A Internet Parou”, em que uma narrativa surreal é acompanhada por uma jam session psicodélica. “Ela [a faixa] foi composta em um fluxo de improviso de mais de 15 minutos. Seguimos com o instrumental a narrativa de um texto jornalístico absurdo, que escancara o sentimento de aversão à internet e aos processos virtuais nos quais diversos amigos e pessoas que conhecemos entraram, uma espécie de badtrip virtual”, conta Fernando TRZ, tecladista e violonista da banda.

Cérebro Eletrônico é formado pelos músicos Tatá Aeroplano (vocal), Fernando Maranho (guitarra), Gustavo Souza (bateria), Fernando TRZ (teclados e violão) e Renato Cortez (baixo). Em entrevista ao Álbum, a banda comenta o processo criativo do grupo e os resultados do novo projeto.

ÁLBUM – O que motivou o grupo a mudar o processo de composição e criar coletivamente as canções do novo álbum?
FERNANDO TRZ  – Quando fizemos o show de dez anos do Cérebro, o André Abujamra reforçou essa ideia de que deveríamos fazer um disco a partir do zero. Na verdade, ele produziria nosso quarto álbum ou faríamos um em conjunto. Mas aconteceu de irmos para o sítio e acabamos com ideias bem fechadas para dois ou três álbuns. Mas ainda estamos doidos para trabakhar com o Abu!

Onze anos de estrada, quarto álbum… Em relação ao início da banda, como é o momento atual de vivência no cenário alternativo?
TATÁ AEROPLANO – Em dez anos ficamos amigos de muitas bandas que nos inspiram. Fizemos shows incríveis em diversos festivais e hoje pela facilidade de comunicação proporcionada pela internet estamos em contato com a galera que acompanha nossa carreira. Isso facilita muito na hora de lançar um disco. Há dez anos era muito diferente.
FERNANDO TRZ  – Além da experiência em festivais, conhecemos muitas bandas e artistas em São Paulo. E ainda participamos de outros projetos: o Renato Cortez toca no Seychelles, banda que admiramos muito. Eu toco com Pipo Pegoraro, Lucas Santtana, Lavoura e Kika e trago todas essas referências musicais para o Cérebro. O Gustavo Souza também toca com muita gente legal da nova e da velha guarda. O Tatá tem mil projetos: Zero Um e o próprio trabalho solo. O Fernando Maranho gravou o CD da Mayana Moura e também é guitarrista do Jumbo ElektroEnfim, são experiências musicais que se acumulam e se complementam;  fatalmente trazemos isso para a sonoridade da banda.

“A Internet Parou” faz uma contraposição entre a vida virtual e a vida noturna na cidade. Qual é a relação de vocês com esse universo virtual?
FERNANDO MARANHO – Uso diariamente a internet, mas percebo que algumas pessoas estão sendo engolidas pelo mundo virtual. Acredito que o meio-termo é sempre uma boa medida para tudo na vida. A internet é a grande revolução no sentido da liberdade e da democratização da opinião, mas não acho saudável as pessoas ficarem presas a smartphones em situações em que a realidade é muito mais interessante (shows, baladas, por exemplo). Nosso cérebro é uma máquina muito mais incrível e já vem com HD de série.
FERNANDO TRZ  – Com relação à faixa, com certeza é a mais estranha, completamente diferente de tudo o que já compomos, e ela é bem simbólica no disco, pois sintetiza todo o lado mais experimental que buscamos no processo de composição no sítio. Ela foi composta em um fluxo de improviso de mais de 15 minutos. Seguimos com o instrumental a narrativa de um texto jornalístico absurdo, que escancara o sentimento de aversão à internet e aos processos virtuais nos quais diversos amigos e pessoas que conhecemos entraram, uma espécie de badtrip virtual. Isso me lembra muito o universo de Arrigo Barnabé em Clara Crocodilo e Tubarões Voadores, obras fantásticas que admiramos muito. Essa crônica imaginária também se inspira em grandes amigos e personagens, como Paulinho Fluxus, Pedro Rocha, Flávio Guaraná, Marcelo Ozório, Gui Calzavara e Mike Motoqueiro.

Como vocês veem o resultado deste trabalho em relação aos outros discos da banda? Há novas referências sonoras?
TATÁ AEROPLANO – Cada integrante trouxe sua gama de referências. A gente se surpreendeu o tempo inteiro, cada um estava muito seguro do que fazia, buscando sonoridades, texturas e tals. Eu fiz os vocais bem diferentes, cada música uma história e foi assim com todos. Foi um disco delicioso de compor e gravar!
FERNANDO TRZ  – Assim como não levamos para o sítio nenhuma canção preconcebida, não levamos nenhuma referência para criar as músicas, simplesmente partimos do zero, em um processo surreal quase totalmente inconsciente; deixamos a música nos levar. É claro que podemos perceber sonoridades que nos remetem a algumas bandas clássicas, como Mutantes, Secos e Molhados, Jupiter Maçã, o que é natural e impossível de evitar. Mas não tivemos nenhuma referência direta para compor as faixas.

  1. É ORIGINAL,ESSE É O LANCE!!!

    | RAFAEL COSTA DA SILVA

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