//seções//notas

De olho no funk e no axé

Em seu segundo disco, Filarmônica de Pasárgada reinventa a canção a partir de ritmos populares

texto Itamar Dantas

Filarmônica de Pasárgada explora canções de estilos musicais considerados lixo cultural. Foto: Inês Bonduki

Com humor e umas pitadas de ironia, a banda Filarmônica de Pasárgada lançou no último dia 23 de agosto seu segundo álbum, Rádio Lixão, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. A apresentação contou com a participação de Ná Ozzetti, Luiz Tatit e Guilherme Arantes.

No disco estão presentes vários ritmos populares. A capa, criada pelo renomado artista plástico Guto Lacaz, traz imagens de outras capas de discos nacionais célebres retalhadas e dispostas aleatoriamente. Ali estão algumas influências do grupo, como Tom Zé, Caetano Veloso, João Gilberto e Chico Buarque. A primeira faixa, dedicada a Lacaz, traz a mesma proposta da capa: versos de canções de inúmeros compositores brasileiros retalhadas e dispostas de forma a criar uma nova composição.

Na segunda faixa, o grupo entra em território baiano com o axé “Amor e Carnaval”, que brinca com a canção “Não Existe Amor em SP”, de Criolo, e com o fato de o Carnaval na capital paulista não ser dos mais badalados. Ironia explicitada na história de um folião cujos amigos foram para outros cantos do país e ele teve de passar o feriado em casa, “pois amor e Carnaval não existem em SP”.

Já o funk carioca embala duas canções: “Fiu Fiu” e “Muro Muro Morumbi”. Na primeira, uma mulher rasga o verbo contra os assobios dedicados a ela pelas ruas. Na outra – assinada por um pseudônimo Julinho Addalady, brincadeira com o pseudônimo de Chico Buarque, Julinho da Adelaide – o relato de avanços e das desigualdades do Brasil. “Tem essa questão que eu queria explorar com a Rádio Lixão. A gente acabou usando esses gêneros que são tidos como lixo cultural, o funk carioca, o axé…”, conta o principal compositor do grupo, o vocalista e violonista Marcelo Segreto.

LEIA TAMBÉM: POPULAR, MAS SEM CLICHÊS

Outros ritmos são explorados em tom de sátira, como em “Ela É Dela” ou “Etc etc etc”. Tom Zé, um dos músicos que inspiram o trabalho, é homenageado em duas faixas: “Tilt” e “Estudando Tom Zé”. Nesta última, Segreto faz uso da própria forma de compor do mestre baiano. “No Estudando a Bossa, ele fica colocando nas letras coisas biográficas do João Gilberto. São várias coisas que ele se apropria para falar da bossa nova. Eu me apropriei da história dele e desses elementos musicais, a folha de fícus, que ele usa como instrumento, por exemplo”, conta Segreto.

O segundo álbum seguiu as trilhas do primeiro e teve produção musical de Alê Siqueira, gravado no estúdio Coaxo do Sapo, de Guilherme Arantes, que não dispensa elogios à turma: “Trabalhando com o rigor de excelentes partituras (noblesse oblige), coaching vocal impecável, letras desconcertantemente geniais, já no primeiro lançamento se transformam em sucesso absoluto e unanimidade entre os pensantes e apreciadores da famosa ‘linha evolutiva’. Um ‘must’, imperdível”.

Dividem a linha de frente as vozes de Paula Mirhan e Marcelo Segreto, acompanhados dos músicos Fernando Henna (piano, teclados, acordeom e eletrônica), Gabriel Altério (bateria), Migue Antar (contrabaixo elétrico), Maria Beraldo (clarinete), Ivan Ferreira (fagote) e Sérgio Abdalla (voz, samplers e bateria eletrônica).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Deixe um comentário

*Campos obrigatórios. Seu e-mail nunca será publicado ou compartilhado.
Enviar comentário
  1. Na íntegra, on-line (2013)

    Lista traz 27 discos nacionais disponibilizados para download ou audição on-line

  2. #Algorritmos_FilarmônicadePasárgada

    Terceiro álbum da banda usa a linguagem e questões da internet como mote para as canções

  3. Popular, mas sem clichês

    Filarmônica de Pasárgada lança seu primeiro álbum, O Hábito da Força

  4. Rua Teodoro Sampaio, 1091

    Dirigido por um de seus fundadores, Riba de Castro, documentário conta a história do teatro Lira Paulistana

  5. 30 anos em quatro letras: NáZé

    Zé Miguel Wisnik e Ná Ozzetti lançam álbum que celebra parceria de três décadas

  6. Quase ricos e xaropes

    A estética minimalista d'Os Mulheres Negras

  7. Da tradição para outro lugar

    Em A Carne das Canções, Marcelo Pretto e Swami Jr. fogem ao convencional na relação entre cantor e instrumentista

  8. Samba, vanguarda e estrelas

    Documentário sobre Arnaldo Baptista está na lista de Wandi Doratiotto

  9. “Sinto minha história parecida com a do Cem Anos de Solidão”

    Clássico do colombiano Gabriel Gárcia Márquez é uma das sugestões de Jerry Espíndola

  10. “Eu sempre fui um buscador”

    Em entrevista à Série +70, Walter Franco fala da vida e de sua criação artística

    1. Porcas Borboletas

      Banda universitária surgida em Uberlândia reverencia a música popular brasileira de laboratório, de Hermeto Pascoal a Caetano Veloso, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção

    2. Tião Carvalho: “Foi muito bom a Cássia Eller ter gravado uma música minha”

      Cantora carioca gravou Nós pela primeira vez para seu disco ao vivo de 1996

      1. Luiz Tatit: “O rap lembra o Rumo em seu estágio mais cru!”

        Professor e compositor comenta a trajetória e as heranças do conjunto que dissecou o canto falado

      2. Os malditos também sambam

        Abre-alas que Macalé, Itamar, Walter Franco, Mautner, Sérgio Sampaio e Tom Zé querem passar

      3. Gero Camilo: “Aguardei a coragem para assumir meu lado musical”

        Ator fala de suas influências musicais, como a Tropicália e o Pessoal do Ceará, e apresenta seu CD Canções de Invento

      4. Bocato: “Tenho um jeito meio esquisito de tocar!”

        Trombonista relembra o início da carreira, quando tocou com Elis Regina e Arrigo Barnabé, e comenta o álbum Hidrogênio

      5. Edvaldo Santana: “Criamos a primeira casa de cultura da periferia de SP”

        Parceiro de Paulo Leminski e Arnaldo Antunes fala do grupo Matéria Prima, que integra nos anos 1970, e de seus discos individuais

      6. Primeiro semestre em 18 discos

        Seleção contempla Passo Torto, Edi Rock, Andreia Dias, Wilson das Neves, Guilherme Arantes e Antonio Adolfo

      7. Maysa, Pato Fu e Conversa Ribeira

        Sexto programa de Zuza Homem de Mello traz vanguarda paulista e Milton Nascimento revistos por novos nomes da MPB

      8. Sons do Corpo

        Músicas compostas exclusivamente para espetáculos da companhia mineira de dança. Por Tom Zé, Wisnik, Caetano e João Bosco

      9. Sambando no trem

        O trem é um dos protagonistas das músicas de Moreira da Silva, Chico Buarque, Kiko Dinucci e Joyce

      10. Sons que fizeram o som do Inocentes

        Clemente lista músicas fundamentais para se entender uma das bandas símbolo do punk brasileiro