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Crowdfunding viabiliza novo disco de Vitor Ramil

“Penso que funciona porque há uma combinação natural entre negócio justo e convicção ideológica”, afirma músico gaúcho

texto Patrícia Colombo

Vitor Ramil sobre o financiamento coletivo: “O público quer o artista livre, criando sem limitações. Por isso o apoia”. Foto: Ana Ruth/divulgação

Compositor, cantor e escritor gaúcho, Vitor Ramil tem público fiel, começou sua carreira lá nos anos 1980 com o lançamento de Estrela, Estrela, e decidiu viabilizar por crowdfunding (sistema de financiamento coletivo na internet) seu mais novo trabalho, Foi no Mês que Vem, que traz releituras de algumas de suas canções com a participação de nomes como Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Para tal, precisa da quantia de R$ 60 mil (tendo ultrapassado até o momento a faixa dos R$ 50 mil). Falta pouco mais de um mês para que a meta seja alcançada – se não rolar, o dinheiro retorna ao bolso dos fãs; se rolar, o trabalho é lançado e quem ajudou financeiramente é premiado com itens como o próprio disco (saiba mais aqui).

O Álbum conversou com Ramil sobre o novo trabalho e a decisão de optar pelo crowdfunding. “Acho que é uma excelente alternativa de financiamento, é boa e digna tanto para o público como para o artista.” Leia a entrevista abaixo:

Álbum – Foi no Mês que Vem é como se fosse uma coletânea, mas com novas versões para músicas de outras épocas da sua carreira?
Vitor Ramil -
Sim, pode ser visto dessa maneira. Eu quis fazer um disco para marcar o lançamento do songbook com 60 músicas minhas, que sai no segundo semestre deste ano. Então optei por uma seleção de canções de várias épocas que, por afinidades harmônicas, melódicas e poéticas, sugerissem a construção de uma linguagem ao longo dos anos, tudo feito a partir do meu ponto de vista atual e do modo como eu as canto e toco, inclusive como as componho hoje em dia. Além disso, acho que o disco terá um significado especial: meu público cresce muito a cada ano e grande parte do meu trabalho é desconhecido para quem está chegando agora. Em Lisboa toquei um repertório de várias épocas e a reação do público foi impressionante. Esse fato foi determinante para a minha decisão de fazer o disco nesses moldes.

Qual foi o critério de escolha das participações?
A ideia inicial era fazer um disco solo que expusesse o cerne das canções e milongas. Mas a certa altura convidei o Carlos Moscardini, que gravou Délibáb comigo e com quem tenho viajado muito para apresentações, para tocar em algumas músicas que andávamos tocando ao vivo. A participação dele alterou meu conceito original de um disco solo e terminei partindo para algo mais lindo e desafiador, algo que eu queria fazer há muito tempo: um disco em que meu violão e minha voz fossem gravados antes de tudo e depois servissem de tela em que artistas com quem tenho afinidade artística viriam dar suas pinceladas. Convidei então um elenco de músicos e cantores com quem eu tivesse colaborado em outras oportunidades ou com quem eu tivesse muita vontade de colaborar neste momento, artistas do Brasil, do Uruguai e da Argentina, pessoas que admiro muito. Além do Moscardini, já participaram Santiago Vazquez, Pedro Aznar, Fito Paez, Milton Nascimento e Ney Matogrosso. Vamos divulgando aos poucos. Haverá muitos outros. Vai ficar um disco com muita unidade e, ao mesmo tempo, muito rico em sonoridades. É muita gente criativa e original reunida.

Quando começou a trabalhar nesse projeto?
Já não lembro… Talvez tenha começado a arquitetá-lo no ano passado, enquanto concluía meu novo livro, que sairá em breve pela Cosac Naify. No início deste ano definimos estratégias de produção e em março parti para as gravações, que já interrompi mais de uma vez para viagens com o show Délibáb.

Como surgiu a ideia de financiá-lo por crowdfunding?
A ideia surgiu quando conheci o pessoal do Traga seu Show, empresa de crowdfunding de shows de Porto Alegre. Eles me contaram da experiência exitosa que haviam tido trazendo o grupo Playing for Change. Eu achei a ideia incrível, principalmente pela possibilidade de diálogo direto com o público e de consolidação da internet como espaço para a música independente – porque a sensação que se tem hoje em dia é que os músicos estão um pouco sem saber para onde ir. Claro, fui adolescente durante os últimos anos da ditadura, então as ações coletivas do bem, desvinculadas de um poder político ou econômico, sempre despertam o meu interesse. Por isso, propus ao Traga seu Show  fazermos uma campanha para o meu disco. Eles não estavam preparados para tocar o crowdfunding de um disco, mas se organizaram rapidamente.

Qual a importância desse modelo?
Acho que o crowdfunding é uma excelente alternativa de financiamento, é boa e digna tanto para o público como para o artista. Acho que é especialmente indicada para aquele tipo de artista que não desperta o interesse da grande mídia,  dos grandes patrocinadores nem, por outro lado, dos editais públicos de viés populista. Eu tenho esse perfil. Tenho também um público relativamente grande e fiel, que se interessa pelas minhas novas produções, não por meu último sucesso, ou seja, um público que gosta de correr o risco comigo. Talvez para um artista muito em começo de carreira seja mais difícil mobilizar as pessoas (nem para artistas com o meu perfil é fácil, porque a ideia é nova). Mas se ele souber divulgar bem sua ideia, especialmente se souber se movimentar bem nas redes sociais, pode chegar lá.  

Quando pensou na contrapartida, como decidiu o que seus apoiadores receberiam?
Primeiro nós estudamos outras campanhas. Logo entendemos que teríamos de oferecer coisas que tivessem a ver comigo e com o perfil do meu público. Há artistas que colocam um figurino seu entre as contrapartidas ou que se oferecem para um bate-papo pelo telefone. Sabíamos que esse não seria o meu caso. Planejamos um escalonamento de valores que satisfizesse desde aquela pessoa que gostaria ou poderia entrar com um valor bem baixo e simbólico àquela que gostaria de adquirir, entre outras coisas, uma obra de arte [a gravura em metal que vai dar origem à capa do disco] ou até mesmo ter seu logo na contracapa como apoiador – neste caso abre-se um espaço também para a pessoa jurídica, com a condição de ser aprovado por mim. Disponibilizamos LPs e CDs esgotados, manuscritos, songbooks… Buscamos sempre os valores o mais acessíveis possíveis para o apoiador, mas nos policiando para não corrermos o risco de terminar pagando para fazer a campanha. Penso que o crowdfunding funciona porque há uma combinação natural entre negócio justo e convicção ideológica. Imagino que o apoiador pense que vai patrocinar a produção de um trabalho artístico em que ele acredita e que, como contrapartida, ainda vai recebê-lo em casa por um custo igual ou menor que o de mercado – ou até mesmo que receberá em troca outras coisas que para ele são de um valor imensurável, econômico, emocional ou intelectual. Eu, pelo menos, pensaria assim. Para mim, como artista, a sensação de ver o público se mobilizando, comentando entre si, externando suas expectativas sobre o futuro disco é muito estimulante, tem interferido positivamente em meu desempenho no disco.

Você sente que se valer do crowdfunding na produção de um disco é quase que trocar a chefia – antes representada pela gravadora e agora de fato representada pelo público, já que é a verba dele que está colaborando para a elaboração desse trabalho?
Não sinto assim. O público não quer chefiar o artista. Ele quer o artista livre, criando sem limitações. Por isso o apoia.

Acredita que valer-se do sistema auxilia na divulgação desse seu novo trabalho, como forma até de aquecer os fãs para o lançamento?
Mais que acreditar, estou seguro disso, porque é exatamente o que está acontecendo conosco. Nunca se falou tanto previamente de um trabalho meu e nunca antes o público esteve tão sabedor do que estou fazendo. Estamos mantendo as pessoas em geral informadas com notícias e os apoiadores estão tendo acesso aos vídeos das gravações. Some-se a isto a ação dos internautas que compartilham as informações com suas respectivas redes sociais.

 Você está quase atingindo a meta. Qual o plano B se não der certo?
Os apoiadores sabem que o disco já está em andamento e que será lançado em dois – no máximo três – meses após o fim da campanha. Sempre houve apenas um plano A: realizar esse trabalho. Quando a ideia do crowdfunding surgiu ela foi incorporada ao plano. Se a meta não for atingida vou finalizá-lo com meus próprios recursos, como era o plano original. Neste caso o que eu mais lamentaria seria não ter o prazer de enviar as contrapartidas ao público, os downloads antes do lançamento, os discos, manuscritos e tudo mais. Esse disco é um pouco uma celebração para mim. Estou colocando na roda 32 canções em versões especiais, muito bem feitas, com participações incríveis.  Quero sentir meu público fazendo parte da festa.

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