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Com a ajuda do acaso

Banda Entrevero Instrumental prepara segundo álbum com participação de Hermeto Pascoal

texto Itamar Dantas

Entrevero Instrumental durante apresentação em Paris, em turnê pela Europa. Foto: divulgação

Vindo do sul do país, o grupo Entrevero Instrumental mistura a música tradicional de sua região à música contemporânea. A miscelânea entre o regional e o global vai além da mera retórica e se demonstra na história do grupo. Os músicos Filipe Maliska (bateria), Rodrigo Moreira (baixo) e Israel Álvares (sax e acordeom) se conheceram em Barcelona durante um curso realizado no Conservatori del Liceu. Lá, formaram o trio Mandacaru. Quando voltaram ao Brasil, com a entrada do violonista Arthur Boscato, nasceu o Entrevero, em 2008.

Atualmente, o grupo tem outra formação. Saiu Israel Álvares e entraram o acordeonista Diego Guerro e o saxofonista Jota P. Barbosa. O agora quinteto retorna de uma pequena turnê pela Europa e prepara o segundo álbum da carreira, Êxodo, gravado com a participação de Hermeto Pascoal, uma obra do acaso. “Quando estávamos mixando nosso DVD em Curitiba, nós o encontramos no estúdio. Ele quis ouvir nosso som e assim mostramos a primeira música do DVD, que ele adorou e na sequência aceitou o convite para participar do nosso CD. Esse foi com certeza um dos momentos mais emocionantes que já passei dentro da breve história do grupo”, conta Filipe Maliska. Hermeto toca na faixa “Dunundje”, composição de Rodrigo Moreira.

O Entrevero Instrumental participou do projeto Itaú Cultural Rumos Música 2010-2012 e foi um dos vencedores do concurso Novos Talentos do Jazz 2011. Em entrevista ao Álbum, Maliska conta um pouco sobre os projetos mais recentes do grupo.

ÁLBUM - Como estão os trabalhos para o novo disco? Qual é a ideia geral do álbum?
FILIPE MALISKA – O disco está praticamente pronto e se chamará Êxodo. O nome faz referência à maneira que vemos nosso som atualmente: a música regional, rural e tradicional do sul do Brasil saindo da sua zona de conforto em direção ao global, urbano e moderno. A ilustração da capa e a escolha do artista que fez a pintura reforçam a ideia. Nela, vemos uma curucaca, ave típica do sul do Brasil, distorcida pela arte do grafiteiro paulista Diego Dedablio.

Vocês gravaram com Hermeto Pascoal. Qual é a importância dele para o som do quinteto?
Certamente é uma das maiores influências para o grupo, não somente como músico genial que é, mas também como pessoa. Um fato curioso é que, sem querer, cruzamos com ele todas as vezes que registramos algum material novo. Em 2010, quando voltávamos do Rio de Janeiro, gravação do nosso primeiro disco, nós o encontramos no aeroporto e trocamos uma ideia. Em 2012, quando estávamos mixando nosso DVD em Curitiba, nós o encontramos no estúdio. Ele quis ouvir nosso som e assim mostramos a primeira música do DVD, que ele adorou e na sequência aceitou o convite para participar do nosso CD. Esse foi com certeza um dos momentos mais emocionantes que já passei dentro da breve história do grupo. Esperamos que essas coincidências continuem acontecendo, e que ele continue aparecendo e abençoando nossas gravações.

Conte um pouco da viagem à Europa realizada agora.
Ela foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil. O legal foi que tocamos em lugares bem diversificados. Um deles no Voyage Vers un Autre Bresil, isto é, viagem para outro Brasil, evento organizado pelo produtor curitibano radicado em Paris Thiago Lima e que, como o nome já diz, pretende mostrar outras faces musicais do Brasil. Outro lugar onde tocamos em Paris foi no Bab-ilo Jazz Club. Já em Barcelona tocamos no Conservatori del Liceu, fundado em 1837 e onde já estudaram nomes da música como Montserrat Caballé. Mas, na minha opinião, o lugar mais especial onde tocamos foi o espaço Art Just, que fica em uma das sete exclusivas obras de Antoni Gaudi, figura emblemática de Barcelona, que é a Casa Vicens. Digo isso não somente pelo valor histórico da casa, mas também pela proposta ousada e vanguardista do Art Just, idealizado por Marina Albero e Anna Herrero.

Como foi a viagem? Algum perrengue? Conte um pouco do que rolou fora dos palcos.
Um fato curioso ocorreu no dia em que tocamos na Casa Vicens. Quem apareceu para dar uma não na passagem de som foi ninguém mais, ninguém menos que Chano Domínguez, um dos maiores pianistas da Espanha e precursor do flamenco jazz. Ele ajudou todo mundo, trocou ideia, depois pegou o cajon e fez um samba com o pessoal. O mais engraçado foi que alguns integrantes do grupo não o reconheceram, acharam que era alguém da produção, e até ficaram curiosos quando pedi para tirarmos uma foto juntos.

Qual foi a impressão da receptividade da música instrumental brasileira na Europa?
Estávamos curiosos quanto à receptividade da nossa música, já que para a maioria dos europeus a primeira coisa que vem à cabeça quando ouvem falar em música brasileira é samba, bossa nova; nosso som vem de outra escola. Nossa principal influência vem da música do sul do Brasil, com ritmos que muitos europeus não fazem nem ideia que façam parte da música brasileira. Aliás, em um país tão grande, miscigenado e rico em cultura como o nosso, é difícil até mesmo para os próprios brasileiros diferenciar os ritmos de cada região. O resultado foi excelente, já que o público reagiu muito bem, ficou curioso, fez perguntas, enfim, abriu a cabeça. A retórica de que a música brasileira é muito cultuada e consumida na Europa continua verdadeira e podemos ver que eles estão de braços abertos para receber outros ritmos também, outras cores, de outras regiões do Brasil, como já aconteceu também com a música nordestina. Há muito ainda a ser mostrado para o mundo do que é feito aqui e isso traz alegria, esperança e realização para novos grupos de música instrumental brasileira.

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