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Coisas de cinema

Site disponibiliza partituras de obras compostas por Moacir Santos para a telona

texto Itamar Dantas

O músico pernambucano Moacir Santos tem parte de sua obra para cinema disponível na web. Foto: divulgação

O site Trilhas Musicais de Moacir Santos, projeto desenvolvido por Lucas Bonetti e apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural, vem jogar luz sobre a obra do maestro construída para o cinema. Dono de uma respeitada discografia, o pernambucano Moacir Santos (1926-2006) iniciou seu trabalho como compositor de trilhas de filmes na década de 1960. Em 1962, criou a trilha sonora de Seara Vermelha, de Alberto D’Aversa. No trabalho de pesquisa conduzido por Bonetti foram catalogadas pelo menos seis obras no Brasil e três no exterior.

Bonetti começou a fazer a pesquisa sobre Moacir Santos em seu projeto de fim de curso de música, na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo (SP). Depois, no mestrado, focou o trabalho composicional de Moacir para o cinema. Bonetti sentiu a necessidade de fazer a transcrição do material sonoro que ambienta as películas que estudava. No site, estão disponíveis as partituras das trilhas compostas para quatro filmes no Brasil durante a década de 1960.

No processo de transcrição, André Mehmari tomou conta da revisão musical geral e outros músicos renomados trataram de revisar cada tipo de instrumento. Nailor “Proveta” Azevedo (sopro), Ari Colares (percussão popular), Fernando Hashimoto (percussão sinfônica), Fernando Corrêa (violão, guitarra e contrabaixo), Paulo Celso Moura (voz), Sérgio Schreiber e Marisa Silveira (cordas arcadas) e Douglas Berti (piano, acordeom e bandoneon) completam o time de revisores.

Em entrevista ao Álbum, Bonetti fala sobre o projeto e como a obra de Moacir Santos nas trilhas de filmes guarda relação com a autoral.

ÁLBUM – Como se deu o início de sua relação com a música de Moacir Santos?
LUCAS BONETTI – A minha relação com a música do Moacir começou em 2007. Na primeira vez em que eu ouvi, lembro que foi uma coisa totalmente insana. Comecei a ir atrás. Na época já existiam os songbooks do Mario Adnet, o projeto Ouro Negro; já havia esse redescobrimento da obra dele dos anos 2000. Em 2010, na minha conclusão de curso na Santa Marcelina, peguei o Choros & Alegria para estudar um pouco de composição. Queria fazer um mestrado. Conversei com amigos sobre as trilhas para cinema e vi que havia um caminho ali.

E como chegou às transcrições das partituras?
Eu queria transcrever porque essas partituras estão perdidas, não se sabe se existe alguma cópia em algum lugar. Então eu pensei “Vamos embarcar nessa” e fui atrás, comecei a transcrever. Eu levei uns seis meses para transcrever esses quatro filmes na época do mestrado. Fazendo isso sozinho, eu tinha vários problemas, era difícil pegar algumas coisas. Várias das cópias a que tive acesso eram bem ruins, tinham nível de ruído alto, então era difícil lidar com esse material. No projeto do Itaú, depois, nesse último ano, eu preferi passar por vários revisores. Esse foi um dos processos mais legais de todo o projeto. A gente contratou o Proveta, o Fernando Corrêa, o Ari Colares… Teve um revisor específico de sopro, um revisor específico de percussão sinfônica, um de percussão popular… E, no fim, quem fez uma revisão geral, de não deixar passar nada, foi o André Mehmari.

Quais são os filmes englobados no projeto?
Dos filmes em que o Moacir trabalhou, a gente só transcreveu de fato quatro. Ele trabalhou em seis filmes no período brasileiro e em três, com créditos, no período norte-americano. Tem alguma especulação de ghost writer, mas são três de creditação formal nos Estados Unidos e seis no Brasil. Do filme Santo Módico, por exemplo, não conseguimos achar nenhuma cópia até hoje. E um desses outros filmes é A Grande Cidade, no qual ele não foi propriamente compositor, mas diretor musical. Então, não fizemos a transcrição. Os outros quatro foram os que a gente transcreveu – o Ganga Zumba (1964), do Cacá Diegues; O Beijo (1964), do Fábio Tambelini; Os Fuzis, do Rui Guerra (1964); e o Seara Vermelha (1963), do Alberto D’Aversa.

Ele segue a mesma linha de composição que a gente ouve em seus discos autorais, como no álbum Coisas (1965)?
Sim. É até engraçado pensar que esses quatro filmes que a gente transcreveu no projeto foram lançados antes ou ao mesmo tempo do Coisas, que foi o primeiro disco autoral dele. O Moacir já tinha um trabalho enorme, de vários anos na rádio como arranjador, tinha composições. Mas ele não tinha nenhum disco. No Ganga Zumba e em O Beijo tem um monte de material composicional que ele usou depois nos outros discos. No Ganga Zumba, você já vai ver “Coisa no 5”, “Coisa no 4”  e “Coisa no 9”. A introdução de “Mãe Iracema”… O tema principal dos “Fuzis” é a introdução da trompa do blueshment, que acho que está no The Maestro. Em vários dos temas, foi bem recorrente usar algum material dos filmes nos discos dele. Na maior parte, ele pegou algum trechinho e usou outro arranjo, outra instrumentação, tinha outra ideia. Tem alguns casos em que o arranjo do Coisas já aparecia bem. Não é a mesma gravação, mas era um arranjo supersimilar. A “Coisa no 2” e a “Coisa no 8” que a gente ouve em O Beijo têm um arranjo praticamente idêntico ao que a gente vê no [disco] Coisas. E eles foram lançados praticamente no mesmo ano.

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