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Caymmi nas ondas do rádio

Livro baseado em memórias do compositor refaz o percurso da música nos anos 1930, 1940 e 1950

texto Itamar Dantas

Dorival Caymmi se apresenta na rádio Tupi (esq.) e grava com seu violão na época de ouro das emissoras brasileiras. Fotos: divulgação

Por dez anos, a neta de Dorival Caymmi, Stella, entrevistou o avô sobre as trajetórias de vida e artística do compositor, material que já lhe serviu de referência para dois livros: Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo [Editora 34, 2001] e Caymmi e a Bossa Nova [Ibis Libris, 2008]. Em 2013, a professora e escritora mostra o resultado de mais um mergulho nas memórias do avô: o livro O que É que a Baiana Tem? Dorival Caymmi na Era do Rádio será lançado agora pela editora Civilização Brasileira.

A era do rádio é comumente conhecida no Brasil por compreender o período entre as décadas de 1930 e 1950, em que importantes emissoras cariocas, como a Mayrink Veiga, a Rádio Nacional e a Rádio Tupi, eram responsáveis exclusivamente pela apresentação de músicas e intérpretes. A TV chegou ao país em 1950.

Em 4 de abril de 1938, Dorival Caymmi desceu do navio Itapé e chegou à Cidade Maraviilhosa. Tinha a recomendação de ninguém menos que Assis Valente, e nos seus primeiros dias na capital federal bateu à porta da rádio Mayrink Veiga, sem sucesso.

Tempos depois, fez uma participação no programa de Lamartine Babo na Rádio Nacional, Clube dos Fantasmas, quando interpretou uma composição sua, “Noite de Temporal”. Ali, Caymmi já demonstrava algumas de suas características marcantes: a batida diferente de seu violão e os temas praianos e, mais que isso, baianos. “Em ‘Noite de Temporal’, minha primeira canção praieira, procurei tocar acompanhado pelo toque de berimbau de capoeira. Sempre pus esses elementos, por isso meu violão era diferente”, disse ele em uma de suas entrevistas narradas no livro.

E, com esse diferencial nas letras e no violão, não demorou para que o compositor ganhasse destaque no Rio de Janeiro. Ainda no mesmo ano, Caymmi teve uma de suas músicas, “O que É que a Baiana Tem?”, interpretada pela estrela Carmen Miranda (1909-1955) para o filme Banana da Terra.

Na época, um compositor que vendesse sua música para um filme deveria ceder todos os direitos da canção no exterior. Ary Barroso, autor já consagrado, foi convidado a vender “Boneca de Piche” e “Na Baixa do Sapateiro”, mas pôs um preço muito alto e teve suas canções retiradas da produção. Para substituí-la, lembraram-se de um baiano e sua música, no caso Caymmi e “O que É que a Baiana Tem?”.

Fizeram uma gravação rápida para demonstrar a composição à Carmen Miranda, que sem entender muito bem do que tratava a letra pediu ao compositor que a apresentasse pessoalmente. “A Carmen não sabia o que era torso, então pediu ajuda ao Caymmi para traduzir a letra. Depois, ela o convidou para gravarem juntos. O músico participou da sonorização do filme cantando [não aparece nas filmagens]. Ela sabia que ele cantava muito bem, com graça. E ela era muito brejeira”, conta Stella.

A boa fase de Caymmi, porém, gerou inveja na classe de compositores carioca. Mesmo sem ter alçado o mesmo voo que sua música na voz de Carmen, Caymmi entrava para o seleto grupo de compositores que atendia a estrela luso-brasileira. “Ele foi combatido. O próprio Ary Barroso ficou mordido. O compositor dependia do intérprete, Caymmi não. Ele cantava, tocava violão. Tinha uma independência e era muito bom no que fazia”, ressalta a autora.

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