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Canibalismo contemporâneo

Livro discute a obra de Arnaldo Antunes pelo prisma da antropofagia modernista

texto Itamar Dantas

 

Livro da pesquisadora Alessandra Santos situa Arnaldo Antunes como um dos herdeiros da antropofagia modernista. Foto: divulgação

Arnaldo Antunes é um artista multifacetado: poeta, artista plástico, músico, ele explora várias plataformas para trabalhar a sua arte. Entre 1982 e 1992 foi integrante da banda Titãs, com vários sucessos e álbuns clássicos na discografia do rock nacional, como o Cabeça Dinossauro, de 1987. Desde que saiu do grupo, atua em seu trabalho solo, faz participações em discos de parceiros e mantém sua produção poética e artística em projetos paralelos à música.

Essa característica de trabalhar em diversos meios e a intensa produção de Antunes levaram a pesquisadora Alessandra Santos a escrever o livro Arnaldo Canibal Antunes, lançado pela editora nVersos, como fruto de sua tese de doutorado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Nele, a autora analisa a obra do artista, situando-o como um dos herdeiros da antropofagia modernista proposta por Oswald de Andrade na década de 1920. “O movimento antropofágico promoveu a ruptura com valores patriarcais e arcaicos e com normas e regras literárias antigas e repressoras. (…) Além disso, a antropofagia é consciente da situação de dependência cultural brasileira (em termos estéticos, ideológicos, econômicos e políticos), no sentido em que ela também promovia a absorção de certas técnicas e ideologias”, explica Alessandra na obra.

O “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade foi publicado na primeira edição da Revista de Antropofagia, lançada em 1928. No mesmo ano, Tarsila do Amaral mostrava o seu quadro Abaporu, outro ícone da Antropofagia. Uma das premissas era a deglutição de elementos externos à cultura brasileira, passando por uma síntese com elementos locais, para a construção de uma arte brasileira de fato.

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Segundo a autora, longe de querer aprisionar a obra de Arnaldo a uma categoria antropofagista, o livro-tese busca uma ligação conceitual entre a proposta modernista e os traços da obra do autor. No capítulo em que se dedica ao trabalho musical de Antunes, Alessandra se utiliza da expressão “poética da bricolagem”, fazendo alusão tanto à maneira de compor do autor quanto aos principais aspectos tratados em suas letras. “Bricolagem é um termo da antropologia. Quem usa a bricolagem é quem usa os elementos do seu dia a dia, da vida. No caso do Arnaldo, o termo é válido pelo uso desses temas cotidianos e também pela questão da colagem sonora, que ele utiliza muito.”

Quando vai falar da fusão entre as diferentes artes com as quais Arnaldo Antunes trabalha, Alessandra Santos destaca uma das músicas presentes no disco Cabeça Dinossauro, “Que Não É o que Não Pode Ser”. “Ele consegue passar elementos visuais para a música, trabalha com imagens e também com jogos de palavras. ‘Que Não É o que Não Pode Ser’ é circular. Foi impresso como um círculo. Na música, ganha outra dimensão”, diz a autora. Uma característica importante que também une Arnaldo à proposta antropofágica está no caráter ideológico de sua obra. “Outra coisa que os aproxima é o aspecto da utopia. A proposta antropofágica era criar um mundo artístico que promovesse um mundo melhor. Arnaldo faz isso”, acredita Alessandra.

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