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Campanha busca financiar livro com fotos inéditas dos Mutantes

Projeto de crowdfunding busca patrocínio para obra com 130 fotos inéditas da banda

texto Itamar Dantas

Mutantes e, à esquerda, Rita Lee em registros que integrarão o livro A Hora e a Vez. Foto: Leila Lisboa

Nada melhor do que estar entre amigos para conseguir captar os melhores cliques da turma. Os risos se mostram mais sinceros, a espontaneidade deixa as pessoas confortáveis e o que fica registrado na fotografia se eterniza como um universo mais próximo da realidade. E quando esses momentos são de uma das bandas que mudaram os rumos da música pop nacional? A fotógrafa Leila Lisboa era amiga dos integrantes do grupo Os Mutantes quando, entre 1969 e 1974, namorava o então baixista da banda e produtor Liminha.

No período, Leila registrou eventos como o Festival Colher de Chá, realizado em 1973 na cidade de Cambé (PR); e o festival Phono 73, realizado em São Paulo e que reuniu nomes como Raul Seixas, Jards Macalé, Toquinho e Vinicius, Elis Regina e Wilson Simonal. Arnaldo Baptista disse em depoimento ao projeto: “Ela registrou os nossos ensaios e era legal porque eu não conseguia posar”.

Agora, a ex-fotógrafa de shows faz uma campanha de crowdfunding, na plataforma de financiamento coletivo Kickante, para lançar o livro A Hora e a Vez, com 130 dessas imagens. Em entrevista ao Álbum, Leila fala de seu projeto e de suas percepções em relação ao material que agora busca disponibilizar em livro.

ÁLBUM – No período em que você acompanhou a banda, quais foram os momentos mais marcantes que você pôde registrar?
LEILA LISBOA – Acompanhei do fim de 1969 a 1974. Os registros são todos importantes, gostei muito de fotografar o festival de Cambé, em que tirei minhas melhores fotos (as que eu mais gostei). As mais emocionantes foram as do show da Phono 73, quando tocaram os Mutantes e as Cilibrinas (Rita Lee e Lucinha Turnbull). Sempre tive uma boa relação com todos e senti muito essa separação que coincidiu com a minha e do Liminha. Final de uma era: era Mutantes. Depois vieram muitas outras felizes para todos, mas aquele show foi punk e maravilhoso.

Você poderia destacar algumas fotos e narrá-las?
A foto 6 [da galeria de imagens que acompanha esta matéria] foi feita em Cambé e teve uma passagem engraçada. O festival foi em uma fazenda. Antes de começar, quando o pessoal já estava ensaiando, teve uma batida policial e um monte de gente foi enquadrada por causa de uns baseados… Mas eram tantas pessoas que a polícia levou só alguns e deu conselhos para o pessoal, que na verdade estava viajando com os cogumelos fornecidos pelos cocôs do gado da fazenda. Era tudo tão na paz que a polícia foi embora e não voltou. Foi um grande show, um dos melhores que vi. A foto 7 tem um detalhe que eu morro de rir, do lado esquerdo, atrás do Liminha, tem um cara que parece um fotógrafo tampando os ouvidos porque não aguentou a altura do som. Essa foi no Tuca. Coitado!

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Por que lançar o livro agora, depois de tantos anos?
Por falta de investidores. Depois dos Mutantes, segui minha vida com outra carreira, fiz administração hoteleira e trabalho até hoje com turismo. Fotografia de show de rock não sustentaria minha família, nunca fui paga. Há uns dez anos, juntei minhas fotos, sempre conservadas (fora algumas que achei recentemente um pouco riscadas), e vi que tinha um acervo de mais de 400. Resolvi pesquisar e ninguém tinha fotos dessa época. É um acervo único. Foi o início de um calvário. Nenhum órgão cultural, editoras, empresários, investidores, ninguém se interessou pelo meu projeto. Quase desisti. Se não fosse pela Simoni Bampi (marketing) e pelo Dado Nunes (produtor e conhecedor de Mutantes como ninguém), eu não teria seguido adiante.

Aí veio a ideia do crowdfunding, minha última saída. Escolhemos a Kickante por ser uma das mais confiáveis daqui. Segue difícil porque o brasileiro ainda não se acostumou com a ideia de colaborar com a cultura em geral e acha que estou mendigando por uma ação tão importante. Recebo ofensas todos os dias por isso. O financiamento coletivo já gerou  mais de 6 bilhões de dólares no exterior, principalmente para cultura e projetos humanitários, vide Festival Sundance e Médicos sem Fronteira. Nossa fatia no Brasil ainda é de 1% desses bilhões, mas temos esperança. Se não der, o pessoal recebe o dinheiro de volta, tenho mais um prejuízo e não vai ter livro nenhum. Voltam as fotos para a gaveta.

  1. Muito obrigada pela matéria, ficou ótima!!!! Abraços
    Leila Lisboa

    | Leila lisboa

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