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Caixa Cubo lança seu primeiro álbum

Música instrumental do baterista João Fideles e do pianista Henrique Gomide chega à França

texto Itamar Dantas

Os músicos do duo Caixa Cubo e a capa de seu primeiro álbum. Fotos: divulgação

O projeto Caixa Cubo é formado pelos jovens músicos João Fideles (bateria) e Henrique Gomide (piano). Atualmente morando na Holanda, onde fazem o mestrado no Conservatório Real na cidade de Haia, os brasileiros transitam entre a improvisação, a música erudita e o sambalanço. Com essa fórmula, participaram de um dos principais festivais da Europa, o Jazz à Vienne, realizado na França em junho deste ano.

O CD de estreia (homônimo) foi lançado em 2012 e gravado no estúdio do baixista Célio Barros, que toca em algumas faixas (o músico foi vencedor, ao lado do pianista André Mehmari, do Prêmio Visa de Melhor Instrumentista em 1998). O álbum, que conta ainda com a participação do baixista brasileiro radicado na França Arthur Decloedt, se divide em três partes: na primeira, os músicos passeiam pela música brasileira, flertando ali com o sambalanço com um trio de baixo, bateria e piano; na segunda, João e Henrique improvisam; e, na terceira, há um tributo a Claude Debussy (1862-1918), resultado de um estudo feito por Henrique sobre o compositor francês.

Foi nos corredores da ECA/USP, onde a dupla se gradou em música, que nasceu uma especial atração pela improvisação. Ao lado de amigos, formaram em meados de 2007 a Banda do Canil, que se reunia toda última quinta-feira do mês para fazer um som, em meio a improvisos e experimentações durante as Quintas & Brejas, festa semanal promovida pelo centro acadêmico da ECA.

Com essa formação, fizeram das apresentações um celeiro de experimentações sonoras, misturando a música popular aos improvisos instrumentais, característica que seria levada depois ao Caixa Cubo. Apesar do pouco tempo de estrada, os músicos acumulam alguma bagagem. Henrique Gomide já se apresentou ao lado do mineiro Marku Ribas (ícone do funk nacional e que morou na Martinica, conheceu Bob Marley e gravou com os Rolling Stones); João Fideles, ao lado de Fanta Konatê, cantora e percussionista de Guiné Bissau radicada em São Paulo. Quando era necessário fazer uma escolha, no entanto, os músicos optavam pelo trabalho autoral. “Já recusei fazer um show com o Marku em uma casa grande do Rio de Janeiro por causa de um show pequeno que iríamos fazer aqui em São Paulo com o Caixa Cubo. Quando a agenda batia, eu sempre acabava escolhendo o nosso projeto”, conta Henrique.

Em 2011, os músicos viajaram para a Europa para assistir ao Jazz à Vienne, sem saber que ainda iriam se apresentar no ano seguinte. Da plateia, viram Herbie Hancock tocar com Marcus Miller e Wayne Shorter no show Tribute to Miles. Ao final, Henrique jogou um CD demo da banda no palco, quase acertando Hancock no braço. “O CD ia acertar ele em cheio, mas abriu na metade do caminho. O encarte caiu perto do Miller e o CD acertou o Hancock de raspão. Ele pegou o disco e deu uma rodadinha. Nós começamos a falar: batizou, batizou!”, conta, aos risos, Henrique.

E a bênção do ídolo funcionou. Em 2012, a dupla estaria novamente no festival: agora, da plateia para o palco. Apresentou-se na França em duas ocasiões, uma em Vienne e outra no Museu Galo-Romano, em St. Romain-En-Gal. O duo tocou ao lado do baixista Noa Stroeter (filho do também baixista paulistano Rodolfo Stroeter, conhecido por seu trabalho com a banda Divina Increnca e o grupo Pau Brasil) e da saxofonista israelense Sagit Zilberman.


Pelo mundo, na guerrilha

Quando estavam próximos de se formar, em meados de 2010, o Caixa Cubo começou a fazer suas viagens para mostrar o trabalho mundo afora. Ficaram amigos de seis francesas que faziam intercâmbio na USP e, com lugar para ficar por lá, decidiram viajar para a Europa, na guerrilha. “Minha bagagem pesava 80 quilos”, conta João. Em meio ao complicado transporte de seus instrumentos, os músicos aprenderam várias lições no caminho. “Conhecemos muita gente, foi muito bom. Mas tivemos vários momentos que chamávamos de ‘vida de cão’. Acho que você só vai fazer uma viagem mais ajeitada quando passar uns perrengues na primeira vez. A não ser que você tenha muito dinheiro para bancar tudo. Mas tem de ir”, aconselha o músico.

As viagens internacionais da dupla serviram para ampliar o repertório cultivado no ambiente acadêmico. Em 2010, João Fideles foi para Moçambique, onde fez um intercâmbio de seis meses e aprendeu a tocar um instrumento tradicional africano: a timbila (espécie de xilofone utilizado em danças e rituais tradicionais). “São várias marimbas organizadas, com várias texturas, umas mais graves, outras mais agudas. E é um ritmo que está ligado a uma dança dos guerreiros. E aí, para aprender, tem de começar das coisas que eles ensinam para as crianças mesmo, porque se você tenta entender a partir dos conhecimentos da música ocidental não dá”, explica João.

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