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Brasil sem bordas

Segundo disco de Thiago Amud parte da carta de Pero Vaz de Caminha para contar uma história do Brasil

texto Itamar Dantas

À esq., capa do segundo disco de Thiago Amud (ao centro), inspirado na carta de Pero Vaz de Caminha. Fotos: divulgação

O nome do segundo disco de Thiago Amud, De Ponta a Ponta Tudo É Praia-Palma, vem da carta de Pero Vaz de Caminha ao descrever a então Terra de Santa Cruz, onde aportaram os portugueses em 22 de abril de 1500. A frase virou o mote da música homônima, e a obra, que se chamaria O Desfazimento do Brasil, foi ao revés: do fim ao início. “Chamar o disco de ‘O Desfazimento do Brasil’ atraía barras meio pesadas. Eu voltei para o começo e peguei como símbolo a carta do Caminha: a linguagem é poética, é um verso pronto, decassílabo”, elogia Amud.

A trama de Amud, no entanto, não tem compromisso com o caráter temporal da historiografia brasileira. Partindo de aspectos históricos, o compositor carioca adiciona suas reflexões sobre a formação do país. Em “Fado de Bandarra”, que abre o disco, Amud narra a aventura das navegações embalado pelo ritmo português. Na faixa-título, o músico parte da frase de Caminha para desconstruir as primeiras impressões sobre o Brasil, acrescentando, de forma crítica, desdobramentos da chegada dos portugueses aqui. Assim, o disco percorre características culturais, geográficas e históricas do país tropical.

Thiago Amud invoca o fado, o samba, o candomblé, o frevo e o bolero. Com a participação de 30 músicos, os arranjos sobrepõem aos ritmos tradicionais outras camadas sonoras, que criam  uma rede polirrítmica. “O ritmo no meu trabalho se dá em dois planos. Eu componho as canções, e muitas delas já vêm indexadas com um padrão rítmico: baião, samba etc. E por cima dali começam a bordar outras tramas rítmicas. Eu sinto isso como um modo de simbolizar que as coisas não estão estanques no Brasil. Durante muito tempo, a gente se acostumou a tratar a brasilidade como o lugar das fusões, da miscigenação. Acho que essa estrutura onde os ritmos vão se precipitando, um jogado sobre o outro, é um símbolo dessa abertura do Brasil”, comenta o compositor.

Em consonância com músicos de sua geração, como os paulistas do grupo Metá Metá ou o amigo Guinga, Amud quebra as estruturas musicais tradicionais em busca de uma nova estética para a música popular. “A pretensão de fazer algo novo é o que move o artista. A pretensão pode ser encarada como uma coisa negativa, mas não vejo assim. O pretensioso é aquele que pretende muito, e isso é gerador de encontros. Gosto de fazer uma coisa que vem com certa carga de provocação. A ambição é a minha humildade.”

O primeiro disco de Thiago Amud nasceu em 2010. Em Sacradança, o artista já demonstra as características poéticas e musicais que retoma em seu segundo trabalho. O compositor tem no currículo parcerias com Guinga, Francis Hime e Zé Paulo Becker e algumas de suas composições já foram registradas por Milton Nascimento, Simone Guimarães e os citados Hime e Guinga. Com este, o músico compôs “Contenda”, que integrou o disco Casa de Villa (2007), do violonista carioca, e a quem não dispensa elogios: “Conheci o Guinga em um festival do qual participei e ele era um dos jurados. Antes, eu já era completamente fissurado na música dele. Ele é como um Tom Jobim, o maestro soberano da minha geração”.

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