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Brasil, a inspiração de Darius Milhaud

Livro revela os traços da música brasileira no modernismo francês

texto Itamar Dantas

O francês Darius Milhaud por volta dos anos 1920, período em que compôs a obra Le Boeuf Sur le Toit. Foto: divulgação

Darius Milhaud (1892-1974) foi um dos importantes personagens do modernismo francês no início do século XX. Membro do Groupe des Six (Grupo dos Seis), fez de sua música o símbolo desse movimento na França dos anos 1920. A introdução de técnicas como a politonalidade e a espacialização dos timbres é característica de sua obra.

O livro O Boi no Telhado, lançado pelo Instituto Moreira Salles, revela as referências brasileiras do músico francês. A partir de cartas, relatos e um minucioso trabalho de pesquisa, seis textos compilados pelo pesquisador Manoel Aranha Corrêa do Lago passeiam por aspectos históricos da Rio de Janeiro no início do século, além de apresentar documentos e fotos que demonstram a intensa relação estabelecida entre o compositor e as terras que visitava.

Antes de se tornar um conhecido compositor na França, Milhaud esteve por dois anos no Brasil, entre 1917 e 1918, como secretário da embaixada francesa. Aqui, teve contato com a música de Ernesto Nazareth e Marcelo Tupinambá, entre outros nomes do choro, do samba e do folclore brasileiro. Uma de suas obras mais famosas, “Le Boeuf Sur le Toit” ["O Boi no Telhado", em português], é um mosaico de citações a temas brasileiros – fato que já era conhecido por pesquisadores musicais, mas que agora é aprofundado com o livro.

No Brasil, Milhaud era frequentador da casa do compositor Henrique Oswald (1852-1931), tinha amizade com a família de músicos Velloso-Guerra (professor de piano Godofredo Leão Veloso, 1859-1926; a pianista Maria Virgínia Velloso Guerra, a Nininha, 1895-1921) e com Oswaldo Duque Estrada Guerra (1892-1980), que eram aficcionados pela música francesa contemporânea. Milhaud também chegou a conhecer Villa-Lobos, visitá-lo e presenciar algumas de suas apresentações.

Em sua autobiografia, que tem alguns trechos reproduzidos no livro, Milhaud sentencia: “Há aqui dois grupos de músicos: primo, músicos encantadores, alguns jovens e até mesmo velhos, que escrevem como Fauré et Ravel, manifestando de vez em quando súbitas explosões de sensibilidade tropical. Eles estão totalmente a par do nosso movimento contemporâneo, e estão preparados para conhecer sua música; secondo, o resto, que é preciso tolerar”.

Quando voltou à França, Milhaud conheceu Jean Cocteau, de quem se tornou amigo ainda antes de formar o Groupe des Six. Em fevereiro de 1920, estreou o balé Le Boeuf Sur le Toit”com música de Darius Milhaud e argumento de Jean Cocteau. A peça era um apanhado de referências à música brasileira. No texto “Parceiros em Surdina”, a pesquisadora Daniella Thompson explicita 14 dos músicos reverenciados na obra de Milhaud. Entre eles, estão Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Marcelo Tupinambá, Catulo da Paixão Cearense e Alberto Nepomuceno.

Para entender o sucesso desse balé na França, vale uma citação. As expressões faire le boeuf (fazer o boi) ou taper le boeuf (pegar o boi) são até hoje a maneira mais comum de se falar de uma sessão musical improvisada na França. É o equivalente a “dar uma canja” no Brasil, ou fazer uma jam session, nos Estados Unidos.

Junto ao livro há um CD com a transcrição da peça em ritmo de choro assinada pelo músico Paulo Aragão, demonstrando algumas afinidades entre a versão para a orquestra e a nova proposta, composição feita exclusivamente para o livro. O organizador do livro, Manoel Aranha Corrêa do Lago, concedeu entrevista ao Álbum, contando alguns dos principais aspectos da obra.

ÁLBUM – Como você chegou a este tema para a pesquisa? Essas relações entre a música brasileira e o modernismo francês nunca haviam sido publicadas?
MANOEL ARANHA – A música de Milhaud “Le Boeuf sur Le Toit” é uma obra famosa, muito presente no repertório sinfônico internacional, e que tem como particularidade o fato de ser  inspirada na música popular da época em que Milhaud viveu no Brasil, de 1917 a 1918. Cheguei a esse tema por intermédio do grande músico e pesquisador Aloysio de Alencar Pinto, já falecido, que, já nos anos 1980, havia identificado as principais fontes brasileiras da obra, entre as quais se destacam as composições de Ernesto Nazareth e Marcelo Tupinambá.

No artigo “Parceiros em Surdina”, Daniella Thompson levanta as semelhanças entre a obra de Milhaud e a de diversos nomes da música brasileira. Na p. 153, há a indagação: “Seja ou não Le Boeuf um caso de plágio…”. Com relação a isso, o que indica a pesquisa que resultou no seu livro?
A vanguarda artística europeia dos anos 1920 (época da estreia de “Le Boeuf Sur le Toit”) se notabilizou pela introdução de diversas novas técnicas, entre elas a da “colagem” (sendo famosos os ready mades de Marcel Duchamp), utilizada principalmente nas artes plásticas. O “Le Boeuf Sur le Toit” é uma aplicação desse tipo de técnica a uma composição musical: sem ser um plágio, é estruturada como uma grande colagem, na qual são entrelaçadas e combinadas entre si citações de mais de 20 músicas de vários compositores populares (e até mesmo clássicos) brasileiros. É uma técnica que Milhaud continuaria a aplicar, nos anos 1930 e 1940, a diversos repertórios que o fascinaram: o jazz, a música das Antilhas francesas, a country music do Kentucky, o folclore judaico da Provença e a música clássica francesa do século XVIII.

O que a gravação de “O Boi no Telhado” por uma formação de choro demonstra?
A transcrição, por Paulo Aragão, da obra sinfônica para conjunto de choro, e sua gravação pelo Caldereta Carioca – no qual cada músico é um virtuose de seu instrumento, e mestre na tradição do choro, como o violonista Mauricio Carrilho –, envolvem vários aspectos: por um lado, há o elemento da “volta às origens” de um repertório utilizado por um compositor modernista francês nos anos 1920; por outro, provoca discussões em torno do “swing” que é o objeto, no livro, do artigo do Vincenzo Caporaletti, um dos mais importantes musicólogos italianos da atualidade.

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