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Baleia e A Desumanização

O segundo disco da banda, Atlas, tem referências do livro de Valter Hugo Mãe

texto Jullyanna Salles    |   fotos Bruno Mello


Nem todos os shows da banda Baleia – formada por Sofia e Gabriel Vaz, Felipe Pacheco Ventura, Cairê Rego, David Rosenblit e João Pessanha – têm convidados especiais, mas pode-se dizer que é difícil que o grupo suba ao palco sozinho. No trabalho transbordam referências, seja nos clipes, seja no repertório dos shows, nas letras ou no material gráfico.

Em 2016, a banda carioca lançou o segundo disco, Atlas, que tem como principal influência o livro A Desumanização, do português Valter Hugo Mãe. A obra conta a história de Halla, uma menina de 11 anos que vê a irmã gêmea morrer. A partir disso, enfrenta conflitos internos e familiares e narra seus pensamentos e trajetória de uma forma muito particular.

Gabriel, responsável pelas composições ao lado da irmã, Sofia, diz: “O livro foi mais influente na criação das letras, na formação lírica, de imagens e estética do disco. É um livro muito impactante pra mim e pra Sofia, por conta da linguagem e da poética dele. No Atlas, as letras habitam a mesma perspectiva da personagem principal. A poética do álbum é esse ver por trás, olhar aquela coisa cotidiana e transformá-la em algo mitológico”.

Não só nas letras cabem as influências de A Desumanização. O disco foi lançado, fisicamente, com um encarte que mais parece um livro. São 32 páginas ilustradas pela artista Lisa Akerman. Nelas, a linguagem utilizada por Valter Hugo Mãe ganha expressão gráfica, é possível imergir na Islândia, plano de fundo da obra literária, e na confusão de pensamentos que ela pode trazer. Além disso, um mapa impresso em papel-manteiga reveste o disco e pode ser transformado em cartaz.

O resultado de todo esse cuidado foi uma indicação ao Grammy Latino na categoria de Melhor Projeto Gráfico de um Álbum. Gabriel afirma que o processo de criação, apesar de ter a artista à frente, conta com a presença próxima de toda a banda: “Sempre trabalhamos com esses parceiros. O que é legal porque temos muitas ideias e a banda, como um todo, tem uma personalidade muito criteriosa. Então procuramos pessoas que estão dispostas a criar junto e a debater ideias”. No Atlas não foi diferente: “Foi muito legal; tínhamos muitas reuniões com a Lisa, que é nossa amiga, pra criar esse universo meio maluco de um mundo fantástico”.

A repercussão do disco e da sua relação com o livro chegou longe. Mais precisamente aos ouvidos do próprio Valter Hugo Mãe. Em um post do Facebook, o escritor português diz: “Baleia é um colectivo carioca que editou recentemente seu novo disco, Atlas. Muito me alegram as suas entrevistas em que assumem a influência, na concepção desta música, do livro A Desumanização. Baleia é rock brasileiro de luxo. Eu não poderia ficar mais feliz. Há tempos, incapaz de parar de ouvir a versão que fizeram ao vivo da canção ‘Tardei’, perguntei a meu médico se uma fixação assim poderia conduzir à loucura e ele respondeu que sim. eu, por medo, moderei. hoje, estou aceitando a loucura toda. Obrigado, Baleia. vocês me honram muito, de verdade”.

Gabriel conta qual foi a reação do grupo ao receber os elogios do escritor: “Foi maravilhoso, eu não posso falar nada que não seja clichê sobre isso. É muito difícil aceitar que pessoas que a gente admira com tanta força podem reagir com essa reciprocidade. A gente tá meio de cara ainda”.

No dia 4 de fevereiro, a banda sobe ao palco do Auditório Ibirapuera com um repertório especial, que apresenta, além das canções do Atlas e do primeiro disco, Quebra Azul, surpresas para o público que acompanha o grupo.

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