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“A MPB virou música alternativa”

Leo Gandelman fala de seu novo disco e faz críticas ao tratamento dado à música popular

texto Itamar Dantas

O criador e a obra: o saxofonista Leo Gandelman e a capa de seu álbum Vip Vop. Fotos: divulgação

Leo Gandelman completa 25 anos de carreira em 2012. E, para comemorar, lança o álbum Vip Vop, que retoma, em composições próprias, a sonoridade da bossa nova e do samba-jazz brasileiro do final dos anos 1950 e início dos 1960. A lista de referências do novo disco passa por nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Moacir Santos, Luiz Eça e inúmeros outros que fizeram desse período “uma das épocas de maior produtividade e qualidade na música instrumental brasileira”, segundo o próprio Gandelman.

Lounjazz foi o último trabalho autoral do saxofonista, lançado em 2005. Em 2010, iniciou o trabalho de composição do novo álbum e, para ajudá-lo, chamou o pianista David Feldman, parceiro de Gandelman há 12 anos. “O David tem uma visão harmônica que me agrada muito e nós já temos uma longa estrada trabalhando juntos. Desta vez, resolvi chamá-lo para compor as músicas comigo. Eu trazia a situação e ele apresentava a resposta. Isso dá uma dinâmica interessante para as músicas”, explica o saxofonista.

O quinteto é formado por Gandelman no saxofone, Seginho Trombone, o baterista Renato Massa, David Feldman ao piano e Alberto Continentino no contrabaixo acústico. Com lançamento previsto para o mês de agosto, Leo Gandelman conversou com o Álbum Itaú Cultural sobre o novo trabalho e aproveitou para falar das dificuldades de se lançar um disco instrumental no Brasil nos dias de hoje.

ÁLBUM – Por que revisitar esse período da música popular brasileira?
Leo Gandelman - Eu tenho um programa de rádio no Rio de Janeiro que se chama Instrumental MPB [estação MPB FM]. E, tanto lá quanto em conversas com amigos, sempre citamos essa época que, para mim, foi a de maior produtividade e qualidade na música instrumental brasileira. Converso muito também com o meu amigo Ruy Castro [autor do livro Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova, entre outros] e sempre comentamos sobre a falta de referências atuais em relação a essa época.

As músicas já vinham sendo apresentadas ao vivo quando vocês entraram no estúdio. Como isso influencia a sonoridade do álbum?
Fomos ficando íntimos das músicas e, quando entramos no estúdio, elas já eram velhas conhecidas. Nós gravamos no estúdio Zaga [Rio de Janeiro], onde temos cinco salas e é possível fazer a gravação de todos os instrumentos ao mesmo tempo. Isso faz com que a sonoridade do álbum seja mais quente, mais próxima do que já vínhamos apresentando.

O álbum foi lançado primeiramente por um selo europeu e somente agora no Brasil. Por quê?
O trabalho já está pronto há algum tempo. Eu queria lançar os dois trabalhos juntos, mas o Joe Davis, produtor da trilha sonora que fiz para o filme do Garrincha pela Far Out Recordings, mostrou interesse em lançar na Europa. Como estou fazendo o trabalho de forma independente, foi mais difícil conseguir o dinheiro para terminar a produção do álbum no Brasil. Foi só depois de uma parceria com a Universidade Estácio de Sá que consegui a verba de que precisava. Isso acabou atrasando um pouco o lançamento por aqui.

Também há um DVD sendo produzido…
É um show que realizei no Teatro Municipal de Niterói. Eu sempre faço, uma vez por mês, o meu programa de rádio ao vivo lá. E, como eu já tinha o repertório do disco, resolvi gravar uma apresentação. Convidei o Pedro Vancouver para fazer a filmagem e gostei muito do resultado final. Então, achei que deveria lançar também o DVD. Estamos preparando o lançamento e deve sair um pouco mais para a frente.

No ano passado, você criou um selo, o SaxSamba, pelo qual você está lançando este trabalho. É necessário criar esse tipo de ferramenta para lançar um trabalho autoral hoje em dia?
A necessidade de você ter um selo é de fazer chegar um produto físico nas mãos do público. Hoje em dia, o ofício do músico vai muito além da composição e da música em si. Você tem de produzir e divulgar o seu trabalho. O que eu gostaria de ver no Brasil é uma democratização verdadeira em relação aos meios de comunicação. Existem os grandes oligopólios que controlam a mídia, ligações com políticos, que acabam prejudicando o trabalho de produção cultural como um todo. É muito difícil para um artista ter a visibilidade do seu trabalho. Até a MPB, de certa forma, virou música alternativa. Há poucos espaços que você possa frequentar com música brasileira. Falta uma segmentação maior nos meios de comunicação para que se possa mostrar a música séria produzida no país.

Qual a sua expectativa quanto à receptividade do álbum pelo público?
Hoje em dia, com mais de 25 anos de carreira, já não me preocupo muito com a aceitação do público, porque o meu trabalho em todo esse tempo vem sendo justamente este, fazer música instrumental popular. Quando larguei o trabalho de produtor para virar músico, muita gente veio me falar que eu não deveria fazer isso, que era loucura. Mas, com o tempo, provei que é possível, sim, atingir o público com um trabalho consistente. Faço-o com seriedade. O resultado nas vendas é consequência disso.

  1. Você é músico ou crítico musical ?
    Vamos parar de criticar, já chega a passeata que os babacas fizeram no passado contra a guitarra, com exceção de Nara Leão que tinha a mente anos luz.
    Chico Buarque se fizer show vai encher; isso chama-se talento.
    Entenda como quiser….
    Karla

    | Karla

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