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“As palavras e a representação não dão conta do que a gente é”

Luiza Lian fala sobre seu novo trabalho

texto Amanda Rigamonti    |   fotos Camila Maluhy e Octávio Tavares

A paulistana Luiza Lian, formada em artes visuais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e em música pela Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp), lançou no dia 23 de março o álbum visual Oyá Tempo – acompanhado pelo lançamento de um média-metragem homônimo (assista aqui). O trabalho também é composto de um site (confira aqui).

Luiza, que passou a infância em Trancoso, na Bahia, com a mãe cantora e o pai compositor/poeta, teve forte influência em casa, o que a motivou a construir uma carreira artística – ela conta que sempre lia as poesias do pai e que isso a motivou a escrever também. O início de sua carreira solo, com o disco Luiza Lian (lançado em 2015 no Itaú Cultural), relembra esses momentos. “Eu comecei esse movimento de fazer minha carreira solo até para gravar essas músicas de quando a gente morava na Bahia e meu pai compunha e minha mãe cantava as músicas”, diz.

Em entrevista, a artista – que na sexta-feira 31 de março e no sábado 1º de abril realizou o evento Ocupação na Casa do Mancha (saiba mais) – fala sobre bidimensionalidade, temporalidade e outras questões e angústias que foram importantes no processo de construção de Oyá Tempo, explica a proposta de fazer um álbum visual e conta um pouco mais do que rolou na Casa do Mancha.

Em Oyá Tempo existe a proposta de apresentar uma performance, inclusive com o média-metragem que você lançou junto com o disco. Como veio essa ideia de somar a performance à música?
Esse álbum, Oyá, surgiu na verdade para ser uma performance – havia algumas experiências que eu estava fazendo com umas poesias minhas e outras coisas, e minha ideia era criar uma performance com poesias, mas nesse universo de spokenword. Daí fui fazendo algumas experiências com o Charles Tixier e desse processo foi surgindo essa performance, que acabou tomando uma proporção um pouco maior musicalmente.

A princípio não era minha ideia lançar um clipe/média, e sim fazer um álbum visual – mas no sentido de ser performático – e ter um site. Começou com o site, feito pelo web artista Dedos (Rafael Trabasso). Eu passei a me encontrar com o Rafael e a construir uma narrativa sobre o tempo, sobre a temporalidade e tudo mais, o que é uma das características que essa orixá representa. Então ele fez esse site, que é como se você passeasse nesse universo pixelado, atravessando a terra e indo para o fundo do mar.

Eu estava no meio desse processo quando encontrei com o Octávio (Tavares) e com a Camila (Maluhy) – diretores do média-metragem Oyá Tempo – pra gente pensar se faria um vídeo ou um clipe. A princípio pensava nisso para um próximo trabalho mesmo, mas eles ouviram e falaram: “Queremos fazer um filme inteiro sobre isso, mas uma coisa que parta da música para construir uma narrativa e que não necessariamente tente traduzi-la”. E a ideia do site era esta, de não ser narrativo/ilustrativo, mas de ser um trabalho complementar que partisse da musicalidade, desse lugar das sensações, e o filme também.

Tanto que o filme tem uma narrativa um pouco mais clara – que é a história de um casal – e é um pouco mais corpóreo/terreno, e o site passeia por esse lugar de universo. Com o filme, o site fica meio apagado, mas ele é uma parte muito importante do projeto, é de onde partiu tudo. O site passa longe de explicar o filme, e o filme passa longe de tentar ilustrar o site de alguma maneira, apesar de os dois se relacionarem tanto esteticamente quanto numa união de reflexões acerca do tempo, da temporalidade, mas é um lugar muito abstrato mesmo. O Oyá Tempo é um álbum visual que parte do meu som, mas é um álbum com esses artistas todos – os diretores, os atores, o Rafael, que fez o site –, com o trabalho deles mesmo.

Você diria que, apesar de o site e o filme não falarem um do outro, são complementares para contar essa história?
Não para contar história… É uma onda [risos]. Para mim é como se fosse um álbum visual que tem dois eixos – nessa parte da digitalização e tudo mais. Então tem o eixo vertical, que é o site – um tipo de reflexão a respeito do tempo, da espiritualidade, do espírito, do destino –, e tem um eixo horizontal, que é o filme – que conta mais uma história mesmo, ele é linear, está preso no espaço de alguma maneira, tem uma narrativa.

A noção que eu tenho dessa entidade Oyá, que é orixá dos ventos, é que ela representa o tempo, mas não esse tempo que a gente entende como tempo – ele é um tempo espiral. O eixo da música e da performance, que é a Ocupação na Casa do Mancha e compõe o terceiro braço do álbum visual em si, é o eixo espiral que une o vertical e o horizontal de alguma maneira, como se houvesse uma perspectiva desse tempo preso no espaço mesmo – no qual a gente nasce, vive, atravessa e morre – e uma perspectiva desse tempo que é mais horizontal, mais ligado com o mistério, e unifica a isso esse tempo que é uma espiral, no sentido de que nesta nossa vida agora talvez a gente esteja vivendo também nosso passado, nosso futuro e nossa outra vida, se é que isso existe, mas como se tudo estivesse acontecendo agora num movimento que é diferente desse movimento que a gente entende como tempo.

Como veio a ideia de falar desse tempo e de ter os elementos da umbanda, da Oyá? Como foi essa construção?
Eu sou da umbanda e da ayahuasca ao mesmo tempo, e já faz mais de dez anos que tenho essa vivência; eu a trago desde pequena, essa vivência da espiritualidade – meus pais são ligados à espiritualidade, então é um pouco a minha forma de pensar o mundo. E vem da minha religião em si.

E a ayahuasca teve uma influência nesse ato de repensar nossa noção de tempo?
Sim, completamente; ela influencia na maneira como eu vejo e vivencio Oyá. Foi um encontro de várias coisas: eu estava um pouco angustiada com esse aspecto bidimensional internética, um pouco numa bad trip do Black Mirror [série de televisão que aborda o lado obscuro da vida e da tecnologia], já há algum tempo. Fico assustada com a maneira como a gente muito facilmente se desumaniza, se esquece da nossa complexidade mesmo, das muitas camadas que a gente é, criando uma espécie de morto com a internet, com essa realidade reproduzida de nós mesmos o tempo inteiro – e como se fosse uma espécie de propaganda de si, ao mesmo tempo com a sensação de que a vida está virando isso para muita gente e de que as palavras são duras demais pra abraçar a realidade, e essas palavras mais ainda, porque elas são muito esvaziadas.

Então parece que as pessoas estão ficando muito distantes, muito ignorantes – no sentido de ignorantes da sua própria condição humana, ignorantes por causa de certo excesso de informação e de uma necessidade de criar um algoritmo de si mesmo, de falar sobre as coisas… Você precisa ter uma opinião sobre tudo e, nessa realidade que é pouco amorosa e pouco morosa, ela fica muito binária, sabe?

Eu estava um pouco nessa angústia da bidimensionalidade e com a ayahuasca é tipo cinema “mil D”; o que você experimenta lá é como se encontrar com um ato divino, uma realidade multidimensional, e se deparar com uma complexidade muito grande dentro de si mesmo e dos seus próprios movimentos e suas próprias ideias. É complexo, as palavras e a representação não dão conta do que a gente é. Então eu estava com uma angústia muito grande nisso e com vontade de fazer essa performance, mas imaginava que era uma coisa esquisita demais, falar de cidade bidimensional. No entanto, eu estava sentindo uma necessidade grande, para sair desse sofrimento, de falar poeticamente sobre as coisas, e acho que a poesia talvez seja a única palavra que não é um tijolo, que não é uma opinião, um partido (no sentido de ideia) binário – ela é uma ideia aberta, é uma sensação, é um gatilho só. Foi daí, de uma mistura de me deparar com esse tempo completamente binário e me deparar com a minha própria espiritualidade e as coisas que ela me diz sobre o mundo e sobre mim… Surgiu um pouco desse gatilho e do que isso significava para mim.

Você encara a poesia e a música como um escape, uma terapia em relação a esse binário?
Com certeza um escape, uma terapia talvez [risos]. Mas, mais do que isso, uma tentativa de construir uma coisa que vá para além. Uma tentativa de estar dentro do binário – até porque estou apresentando um filme e um site –, mas que tenha flexões diferentes que se complementam, entregar certo furo dessa realidade pela poesia.v

Crescer na Bahia e depois voltar para São Paulo a moveu nesse tipo de reflexão?
Esse contraste é forte para mim – ter passado parte importante da minha infância na Bahia e muito perto da natureza e ser algo sofrido vir para São Paulo, ao mesmo tempo que a vida inteira eu voltei para a natureza, em viagens com meu pai, e a própria consagração da ayahuasca de alguma maneira é uma consagração da natureza mesmo.

Sobre a Ocupação na Casa do Mancha – como foi?
Foi uma espécie de instalação na Casa do Mancha, com projeções de alguns tecidos, plásticos, e eu cantei nessa instalação, que trouxe projeções próprias, espaciais. Foi também uma reflexão sobre o tempo, com projeções minhas, do site e do filme, então é o eixo espiral do trabalho sobre o tempo. Aconteceu em dois dias, sexta [31 de março] e sábado [1º de abril], e contou com a participação da Nina Oliveira, que fez o filme comigo e é cantora também, e com a participação do Moita Carvalho, que é da Família Matrero (coletivo de rap de São José dos Campos) – eles têm um trabalho bem bonito de rap com uma pegada meio espiritual também, é bem lindo, e o Moita participa do disco.

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