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Arthur Verocai, o despertar do maestro

O reconhecimento do músico 40 anos depois do lançamento de seu primeiro disco solo

texto Debora Pill

O maestro Arthur Verocai em 2009 e a capa de seu álbum homônimo de 1972. Fotos: divulgação

Lançado em 1972, o primeiro álbum solo do violonista, maestro e arranjador Arthur Verocai chegou bem à frente do que se fazia naqueles tempos. Era praticamente uma tradução do que ele havia absorvido em sua formação pessoal e musical: tinha Villa-Lobos, Frank Zappa, Milton Nascimento, Stan Kenton e Debussy.

O disco (Arthur Verocai, Continental, 1972) foi um fracasso comercial e ficou no limbo por mais de 30 anos. Durante esse tempo, Verocai se ressentiu com o disco e o deixou na geladeira. Três décadas depois, esse mesmo disco foi redescoberto por uma nova geração de DJs, rappers e produtores. Ludacris, do The Right Thang, MF Doom, Currency, Madlib e Little Brother são alguns dos nomes que samplearam os temas de Verocai para criar novas sonoridades.

Esse movimento todo no universo dos DJs, produtores e colecionadores de discos acabou gerando o convite para um show em Los Angeles em 2009, parte do filme Timeless e que celebrou o “relançamento” do disco, 35 anos depois da data original. O responsável por esse tardio reconhecimento foi DJ Nuts, que fez a ponte com o pessoal dos Estados Unidos. O show reuniu mais de mil pessoas que se deliciaram com 18 composições interpretadas por uma orquestra de 30 músicos da cena de Los Angeles, além dos convidados Airto Moreira, Carlos Dafé e Mamão (do Azymuth).

Não demorou para o disco de Verocai invadir ouvidos curiosos em território nacional. Logo o maestro foi convidado para arranjar os discos de Ana Carolina (Nove) e de Marcelo Jeneci (Feito para Acabar). A partir daí, o reconhecimento em casa finalmente aconteceu e o gigante despertou. No ano passado, Verocai lotou o SESC/SP nos dois dias em que se apresentou em comemoração ao lançamento oficial do disco no Brasil. O show contou com uma orquestra de 35 músicos, além das participações de Danilo Caymmi, Marcelo Jeneci, Célia, Carlos Dafé, Clarisse Grova, Jurema Candia e Nivaldo Ornelas.

Vale compartilhar um pouco da história do maestro e citar algumas pessoas que fizeram parte da sua história musical. A começar por sua formação: estudou harmonia, piano (Vilma Graca), violão popular (Roberto Menescal) e erudito (Dary Villaverde, Leo Soares, Nair Barbosa da Silva).

Leny Andrade foi a primeira a gravar uma música de sua autoria, “Olhando o Mar”, em 1966. Em 1968 teve início sua aventura nos festivais: emplacou “Tá na Hora” e “Minha Chegada”, dele e de Paulinho Tapajós, seu principal parceiro. “Domingo Antigo” foi gravada por Gal Costa e Beth Carvalho, e entrou na trilha da novela Éramos Seis, da TV Globo. Elis Regina defendeu “Um Novo Rumo”, com o pianista Geraldo Flach. Maria Creuza interpretou “O Quarto Poder’. Em 1969 Maysa gravou “Catavento”. No ano seguinte, Ivan Lins gravou duas parcerias com a dupla, “À Beira do Cais” e “Minha História”.

Verocai participou de discos de figuras como Jorge Ben, Ivan Lins, Gal Costa, Marcos Valle, Erasmo Carlos, O Terço, Nelson Gonçalves, Quarteto em Cy e MPB4. Foi diretor musical do show de Marlene e Elizeth Cardoso. No início dos 1970 foi contratado pela Rede Globo como diretor musical e arranjador e emplacou três parcerias com Tapajós nas novelas A Próxima Atração, Minha Doce Namorada e O Cafona.

O despertar do maestro continua a render frutos. Em agosto deste ano, Verocai abre um festival de jazz em Berna, na Suíça. Em novembro segue para Austrália. E prepara a apresentação de um concerto para violão e orquestra no Rio, além de planos de gravar um disco novo e a possibilidade de uma turnê em São Paulo.

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