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“Arco” e “Flecha”, faixa a faixa

Iara Rennó comenta cada canção de seus dois discos recém-lançados

texto Itamar Dantas

Iara Rennó em ensaio do disco Flecha. Foto: Christian von Ameln

A cantora e compositora Iara Rennó acaba de lançar os discos Arco e Flecha. Em Arco, a banda é formada só por mulheres – com Mariá Portugal (bateria), Maria Beraldo Bastos (clarone) e Iara (guitarra, voz e produção musical) – e tem letras baseadas em poemas eróticos do livro Língua Brasa Carne Flor, lançado por Iara em 2015. Já em Flecha, o time é de homens, com Curumin (bateria, teclado, mpc e produção musical), Maurício Badé (percussão), Lucas Martins (baixo e violão), Gustavo Cabelo (guitarra), Maurício Fleury (teclados), Daniel Gralha (trompete e flugelhorn), Douglas Antunes (trombone) e Cuca Ferreira (sax barítono), focando-se nas tradições afro-brasileiras, com canções de Iara em parceria com Gustavo Galo, Paulo Leminski, Domenico Lancellotti e Bruno di Lullo.

O lançamento dos discos Arco e Flecha acontece no Auditório Ibirapuera no dia 16 de setembro. Para o Álbum, Iara comenta – faixa a faixa – cada canção de suas duas obras.

FLECHA (YBMusic/Selo Circus)

1. “Sabiá Sabe” (Iara Rennó/Gustavo Galo)
“Cantiga nascida no auge da crise hídrica em São Paulo, em decorrência do lamentável descuido com esse recurso tão fundamental. A letra é de Gustavo Galo, mas me fez notar que a água é um tema muito presente na minha composição, tenho quase duas dúzias de canções que falam dela. E ouço muito de outros compositores também: de Milton Nascimento a Alzira E, passando por Tetê Espíndola, Guilherme Arantes e tantos mestres populares que já se tornaram domínio público. A água e suas deusas, a água deusa da vida. Água pura fonte máxima, cura para todos os males. A melodia sugeria um afoxé, no entanto rolou esse arranjo mais escuro – apenas as exímias congas de Maurício Badé e o cortante rife de piano de Curumin, cujas poucas notas e a tensão que elas criam remontam à gravidade do assunto.”

2. “Invento” (Iara Rennó)
“Da percussão de ‘Sabiá Sabe’ se engendra ‘Invento’, uma canção solar para saudar o brilho do diamante negro Elza Soares. Uma homenagem a essa diva que se tornou nossa musa, voz das minorias, da mulher, negra, artista, de terceiro mundo. Uma prova da resistência através da arte, da força e do talento. Entidade, lenda. Um ente capaz de transformar muita tristeza em muita beleza. Invento, encanto, mandinga, magia. Todo esse sentimento dançando sobre uma cozinha azeitada, com mais os clavinetes e o canto gingado de Curumin, além da metaleira brilhante de Cuca Ferreira, Daniel Gralha e Douglas Antunes, gigantes do Bixiga 70.”

3. “Querer Cantar” (Iara Rennó/Gustavo Galo)
“Mais uma parceria com Galo, uma música instantânea: passou a existir no mesmo momento em que bati o olho no poema. Foi canção à primeira vista. Foi flecha no alvo. ‘Querer Cantar’ foi importante no processo de criação do projeto como um todo, trazendo a simbologia do Ofá (arco e flecha) de Oxóssi, com toda a sua assertividade, determinação, poder de comunicação e exercício da vontade: ‘de tanto querer cantar’, eis esta dupla de discos! A música tem uma estrutura bastante simples, mas que os meninos conseguiram deixar extremamente rica, partindo do rife pop-oriental da guitarra de Gustavo Cabelo, nesse caminho iorubá-nipônico apoiado pela cozinha e pelos metais.”

4. “Ritmo da Moçada” (Negro Leo)
“Negro Leo é um dos compositores mais prolíficos, versáteis e inventivos da atualidade, além de ser meu compadre e um dos padrinhos artísticos deste disco. Eu já tinha gravado uma música dele em 2014, o single ‘Tara’, então esta é a segunda vez que registro sua poética, para reafirmar minha admiração e identificação. ‘Ritmo da Moçada’ é hit. E o arranjo traz toda a malemolência do samba, mas também certa acidez da guitarra distorcida e bêbada que combina totalmente com o tema. No final, uma dobra de voz com o trombone genuíno de Douglas Antunes: uma melodia que fiz inicialmente em assovio – muito inspirada nos assovios que Leo costuma fazer em suas canções, como em ‘Mar ao Fundo’, gravada por Ava [Rocha]. Bem podia ser original da composição dele, né?”

5. “Quebra” (Domênico Lancellotti/Bruno di Lullo/Iara Rennó)
“Pra trazer um pouco mais do meu legado de amigos e parceiros cariocas, achei importante a presença da dupla Domênico e Bruno – não que eles sejam uma dupla propriamente, mas as suas canções já foram consagradas nas vozes de Gal [Costa], Ava, Alice Caymmi e Mãeana, por exemplo, e eles não param de compor juntos. Eles me mandaram ‘Quebra’, que eu adorei e ‘ouvi’ umas palavrinhas a mais ali no instrumental. Os meninos aprovaram e acabei entrando na parceria. Acho que o ponto alto da gravação é o arranjo de metais de Cuca Ferreira e Daniel Gralha.”

6. “Rosas e Socos” (Iara Rennó/Paulo Leminski)
“Essa música tem uma história engraçada. Um dia a achei gravada no celular mas estranhei – não me lembrava de ter escrito aquilo nem de quando tinha feito a música. Tive de pesquisar, olhar na agenda, me situar, saber onde eu estava para lembrar o que rolou: eu estava em viagem e, numa madrugada, já na cama lendo Toda Poesia, de Paulo Leminski, compus duas músicas. ‘Rosas e Socos’ foi uma delas; a música que chegou bem crua ao estúdio. Desenvolvemos o arranjo na hora e adorei esse caminho minimalista que ela tomou. O arranjo de sopros foi uma ideia melódica minha: passei oralmente para os caras, que a desenharam com destreza.”

7. “Ciranda das Iyabás” (Iara Rennó)
“A ‘Ciranda’ foi feita numa ilha onde se encontram rio, mar e mangue, o que sugeriu a presença das respectivas orixás de cada tipo de água. Eu precisava de mais duas vozes para representar essa trinca comigo, duas mulheres cuja voz fosse tanto água quanto terra quanto céu quanto fogo. E essas deusas são Ava Rocha e Ana Claudia Lomelino (Mãeana). Esse encontro foi um mergulho nas águas do feminino com todas as suas forças. Espero que possamos realizar ao vivo esta pororoca transcendental! E que linda a fluidez com que os meninos a tocaram: total no movimento rio-mar-mangue.”

8. “Respiro” (Iara Rennó/Gustavo Cabelo)
“Daquelas ideias que vêm com o carro em movimento: música de viagem. Que nos leva a um refugo do cotidiano, um respiro. Mais uma canção metalinguística. Poesia de cantar ao pé do ouvido, a letra foi feita no bate-bola, uma frase um, uma frase outro. Depois eu fiz a melodia e a frase do violão. Cabelo foi parceiro fundamental também em todo o processo dos discos e, quando o álbum virou dois, soube interpretar a questão da dualidade que eu apresentei e achar os nomes perfeitos para batizar o projeto: Arco e Flecha.”

9. “Se Amanhece” (Iara Rennó/arrudA)
“Mais uma dessas micromúsicas, ‘Se Amanhece’ foi feita num táxi pós-chuva de Carnaval. Sou louca por samba de roda do recôncavo e essa foi a inspiração. Por isso, não podia faltar um belo coro, que contou com as vozes de minha mãe, Alzira E, de meu irmão Joy Espíndola, dos parceiros Julia Rocha, Galo e Curumin, além de Rubi Assumpção – essas pessoas tão próximas e queridas –, para lembrar que a vida é cíclica e infinita, que sempre há uma nova oportunidade de recomeçar, que isso merece nossa gratidão ao universo. A música prevê ‘um novo começo’, por isso ela está no fim do primeiro disco, chamando o segundo. Sim, pra mim a flecha vem antes do arco. Há quem vá levantar a lebre: não seria então o caso de a flecha ser o arco e vice-versa? Pois fica aí a questão no ar, para a interpretação de cada um.”

ARCO (YBMusic/Selo Circus)

1. “Mama-Me” (Iara Rennó)
“A canção que abre o Arco nasce de um poema do livro Língua Brasa Carne Flor, que lancei há cerca de um ano pela editora Patuá. Com essa aventura literária eu abri para o mundo o que sinto como erotismo. E, como – sim, ainda hoje – uma mulher falar abertamente sobre sexo e exaltar o prazer é quebrar o protocolo da ‘bela, recatada e do lar’, vi que acabei levantando essa bandeira da liberdade e da subversão. Quando fui conversar com Maurício Tagliari [diretor artístico da YBMusic] sobre a ideia dos discos, esta foi uma das primeiras músicas apresentadas e que provavelmente fez com que ele acreditasse no projeto. Com a programação eletrônica da Mariá, o arranjo ficou bem pista e ‘Mama-Me’ virou vídeo produzido pela Rústica, com a participação de diversas artistas e parceiras que admiro muito, num manifesto ‘mamaísta’.”

2. “Instante” (Iara Rennó/Julia Rocha/Mariá Portugal)
“Mais uma música praticamente instantânea, feita numa noite com amigos no Rio de Janeiro. A letra me sugeriu algo excitante, insistente, quase frenético. O arranjo saiu praticamente instantâneo também – como quase sempre acontece quando a gente se junta (eu, Mariá Portugal e Maria Beraldo Bastos). Em pleno êxtase de tocar, nesse frenesi da música, Mariá soltou no final o ‘te pego e te como’, e assim entrou na parceria.”

3. “Sonâmbula” (Iara Rennó)
“Esta canção vem trazer um pouco de humor para o álbum. Para dar uma chacoalhada em quem ainda não acordou, está sonâmbulo, com falta de coragem para a vida. Por isso o arranjo saiu bem despachado, meio irônico, só bateria, clarone e vocais à la Bicicletas de Belville. Há quem diga que é um hit!”

4. “Corpo Selvagem” (Iara Rennó sobre texto de Eduardo Viveiros de Castro)
“Por causa de meus amigos antropólogos do Rio, conheci pessoalmente Viveiros de Castro. Em 2015 fui a uma exposição incrível com fotos e trechos de textos dele. E me chamou atenção a força das imagens evocadas em algumas frases, me identifiquei com esse corpo, com o lance da roupa-máscara e o jogo de ‘o corpo ser uma roupa, uma roupa ser um corpo’. Para montar a letra eu usei a técnica do sampler, pegando pequenos períodos de diferentes textos e juntando numa construção musical. Saquei que o corpo selvagem fazia um diálogo com esse corpo erótico das outras músicas do Arco, além de aludir à cultura indígena – que de certa forma estabelece também um link com meu primeiro trabalho, o Macunaíma Ópera Tupi.”

5. “Vulva Viva” (Iara Rennó/Alice Ruiz)
“Alice é uma parceira das antigas. Nossa primeira canção, ‘Leve’, foi gravada em 2003 no primeiro álbum da DonaZica e pouco depois teve gravação do arrebatador Ney Matogrosso. Ficamos anos e anos esperando uma nova música acontecer. Depois que lancei meu livrinho de poesia – que, aliás, ganhou um texto maravilhoso da poeta-musa na contracapa –, passei a pesquisar mais sobre o assunto e achei na Antologia da Poesia Erótica no Brasil (organizada pela professora Eliane Moraes) um antigo poema dessa fantástica artista. Foi assim que a vulva veio ocupar seu lugar ao lado de mamas, vãos, corpo selvagem e alma libertária deste álbum. Única canção em que Maria Beraldo Bastos larga seu poderoso clarone para tocar cavaquinho (!) e eu vou para o baixo.”

6. “O que Me Arde” (Iara Rennó/Alzira E)
“Atravessando seis décadas de atuação, Elza Soares é uma cantora tão fundamental na música brasileira, de uma existência tão forte e necessária que não tem como ouvir seu canto e não ser tocado por emoções profundas e abrangentes sobre a vida. Depois de vê-la numa participação especialíssima no show de Márcia Castro em Salvador, eu e minha mãe, Alzira E – outra prova da resistência através da arte e uma das maiores compositoras brasileiras –, nos emocionamos demais. Ao sairmos do show, mamãe me mandou a letra que fez para Elza, sobre a qual esta melodia se derramou. Na mesma noite eu comporia ‘Invento’, que está no disco Flecha. E assim Elza fica homenageada tanto no Arco quanto na Flecha, com minha gratidão por tudo que ela é e pelas vezes em que salvou a nossa vida com sua presença.”

7. “Meus Vãos” (Iara Rennó)
“Esta música foi composta durante um show do meu compadre Negro Leo – por isso ela é tão envenenada! Isto já me aconteceu algumas vezes: quando um show é muito inspirador, componho algo na saída, na sequência, ou a coisa vem durante o show mesmo! Precisei dar um jeito de registrar a ideia, no bendito gravador do celular, apesar do som alto que estava rolando. Acho que as pessoas interpretam a letra como sendo um lance de uma relação a dois, o que é válido também, mas minha inspiração original são os músicos: é deles que quero todo o veneno na hora de tocar, toda a entrega e o tesão de entrar com seu instrumento na canção.”

8. “No Silêncio” (Iara Rennó)
“Mais uma poesia de livro que virou música. São apenas dois versos repetidos várias vezes sobre uma cama instrumental jazzística. É o tipo de arranjo que só funciona gravando todos os instrumentos juntos, e foi como fizemos. É o tipo de música que tem de pintar o clima, senão não rola! Senti que ela pedia também uma voz oitavas abaixo da minha, e Cacá [Lima] – engenheiro de gravação e mixagem que muito contribuiu nos discos – deu a ideia de chamar o clarinetista que escrevia arranjos na sala da frente. E assim o mestre Luca Raele, terceiro vértice do Y da YBMusic, entrou também para o álbum.”

9. “Duelo” (Iara Rennó) 
“Mais de Língua Brasa Carne Flor, este duelo mântrico não precisou de muito para virar música: no poema as palavras já dançavam, entre antíteses, paradoxos e oxímoros. Com arranjo singelo, as meninas deram a arte final. Ganha quem ouvir!”

 

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